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Entrevista

"A indignação ainda nos traz esperança", diz médica assaltada e baleada na Capital

Simone Teixeira Napoleão, 49 anos, foi baleada em plena tarde do dia 2, próximo ao Parque Farroupilha (a Redenção)

23/10/2012 - 06h45min

Atualizada em: 23/10/2012 - 06h45min


Em recuperação depois de ser atingida na mão e nas costas, a médica Simone aponta a "tolerância zero" como a única solução para os problemas da violência no Brasil

Personagem de um crime que indignou a sociedade gaúcha, tanto pela violência quanto pelo descompasso entre as instituições, a médica Simone Teixeira Napoleão, 49 anos, recebeu a reportagem de Zero Hora nesta segunda-feira em casa na Capital. Ela falou pela primeira vez após ser baleada, em plena tarde do dia 2, próximo ao Parque Farroupilha (a Redenção).

No dia seguinte ao ataque, enquanto se recuperava no hospital, os dois assaltantes que a atacaram foram presos, mas liberados horas depois, em uma batalha de versões entre o Ministério Público e a Justiça. Só passadas as eleições municipais, no dia 9, os suspeitos seriam outra vez entregues à polícia, já que a legislação, no período eleitoral, não permite prisões que não tenham sido feitas em flagrante.

O prende e solta, a decisão do juiz, a indignação com o crime, a política de "tolerância zero" e a esperança de ver reduzida a criminalidade foram abordados em 45 minutos de conversa na sala do apartamento da médica que terá de conviver por mais um tempo com uma bala alojada no quadril.




Zero Hora - A senhora lembra como foi o assalto?

Simone Teixeira Napoleão - Primeiro ele apontou a arma na cara, disse que ia me queimar. Tentei argumentar, ele insistiu e eu levantei a mão dele. Aí, atirou na mão. Corri e me atingiram por trás.

ZH - Eles pediram alguma coisa?

Simone - Queriam o carro, e eu ia dar. Mas o primeiro rapaz estava muito fora de si. Depois chegou o segundo, e aí aconteceu tudo. Eu não vou deixar de ter cuidado, deixar de retomar a minha vida. Senão, vou ter que me mudar, e eu não quero isso. Agora, passado tudo, resta a burocracia. Tenho que ir justificar o voto, fazer perícia, e terei de ir ao DML (Departamento Médigo Legal) também.

ZH - Quando a abordaram, eles avisaram que se tratava de um assalto?

Simone - Sim. Na hora, um vizinho gritou, eles se assustaram, e eu tive tempo de correr pedindo ajuda, foi quando atiraram por trás. Eu tive uma fratura na articulação do quadril. A bala atravessou e pegou em três pontos do intestino. Eu tive que tirar uns 15 centímetros do intestino. A gente tem duas artérias na região ilíaca, e a bala passou entre as duas. Estou com a bala ainda.

ZH - A bala será retirada?

Simone - Provavelmente sim, porque à medida que vai passando o tempo, a bala vai indo para a superfície. É um corpo estranho que o organismo vai tentando expelir.

ZH - A sua experiência como médica deu mais tranquilidade após o assalto?

Simone - No momento em que aconteceu, orientei como é que deviam me transportar. Queriam chamar o Samu, eu pedi que não, pois poderia demorar mais do que me levassem de carro. Perdi muito sangue.

ZH - O que deve mudar na sua rotina a partir de agora?

Simone - O que mais me chateia é ficar parada. Sou uma pessoa ativa. Tenho pacientes que dependem de mim. Vou ter que ficar 60 dias parada. Isso influencia, inclusive, financeiramente. Se for observar, não é só a parte emocional. Tem todo um contexto de vida que essa situação impõe.

ZH - E os hábitos, a senhora acham que mudarão?

Simone - Tenho aqueles cuidados básicos. Vai continuar sendo assim, porque a gente não pode entrar naquela paranoia de achar que vai acontecer de novo. Até porque tu tens amigos e familiares e isso pode acontecer com qualquer um. Meu sentimento em relação a isso é de muita indignação. Indignação por saber que tem coisas que poderiam ser evitadas. Mas um acidente, ou uma tentativa de assalto, é muito mais complicado de se prever. Por isso que é indignante. O poder das pessoas de se indignarem ainda nos traz uma esperança de que as coisas podem mudar.

ZH - Não dá para ficar refém do medo, não é?

Simone - Quero esquecer esse episódio. Não é do meu perfil ficar olhando para trás. Aconteceu, não foi legal, mas é dali para frente.

ZH - Por que a senhora acha que a indignação da sociedade com sua história pode mudar alguma coisa?

Simone - A "tolerância zero", na minha opinião, é a única solução. Para isso, os órgãos de segurança têm que entrar em um acordo e canalizar esforços para isso. Se funciona em uma cidade como Nova York, apesar de algumas falhas, se está dando certo no Rio de Janeiro, apesar de situações que possam interferir nisso, tem que ser instituída aqui, ou em qualquer outro lugar que esteja (a violência) assim.

ZH - As pessoas compartilharam do seu drama...

Simone - Eu sobrevivi. Eu seria mais uma na estatística se o juiz não tivesse tomado aquela atitude (de liberar os suspeitos alegando que o Ministério Público não havia pedido a prisão preventiva dos assaltantes). Mas aquilo, para mim, é irrelevante. Já na hora em que fui atingida, e juntou gente ali para me ajudar, sentir esse acolhimento é uma luz no fim do túnel. Tu sente que não está sozinha. A grande maioria das pessoas é do bem, e não do mal.

ZH - Como a senhora analisa a forma como o juiz conduziu o caso?

Simone - Não pode só ele estar certo, embora dentro da lei. Eu não julgo condutas, mas a gente tem que ter o bom senso de saber que os outros podem estar certos. Se antes eu já achava que "tolerância zero" era a única forma para as atuais circunstâncias em que a gente vive, hoje eu tenho certeza.

ZH - A impunidade é o que incomoda?

Simone - Acho que as leis têm que ser modificadas, para que se tenha uma "tolerância zero" quanto a estas questões. É muito complicado: um prende, outro solta, e prende, e solta de novo. As instituições vão ter que modificar a forma de agir e ter bom senso para canalizar toda essa energia contra a bandidagem. Só assim se conseguirá modificar a situação e punir quem precisa ser punido. Hoje quem está sendo punida é a sociedade.

Relembre o caso:


Foto: Jean Schwarz, Agência RBS

2 de outubro - Ao tentar escapar de um assalto, Simone é baleada na mão e no quadril, pelas costas. O carro Nissan March, alvo dos ladrões, é deixado de lado. Eles fogem, e a médica é socorrida por populares e policiais, que a levam ao Hospital de Pronto Socorro. Horas depois, os suspeitos são reconhecidos por duas testemunhas além da médica. Simone passa por cirurgia.

3 de outubro - José Lucas Peixoto Mesquita, 18 anos, e Eduardo Paulon Madruga, 21 anos, são capturados e encaminhados, preventivamente, ao Presídio Central ainda na madrugada. Ao meio-dia, ambos são soltos mediante negação da prisão preventiva, emitida pelo juiz Mauro Caum Gonçalves, da 10ª Vara Criminal. No início da noite, Simone é transferida para a UTI do Hospital Moinhos de Vento.

4 de outubro - A Justiça aceita o pedido de prisão preventiva da dupla (na foto acima), que só poderia ser presa após as 17h do dia 9, 48 horas após o término do período eleitoral.

7 de outubro - A médica sai da UTI e vai para um quarto.

9 de outubro - O pai de Eduardo Paulon Madruga entrega o filho e o amigo, suspeitos do crime, à Brigada Militar. A dupla é presa e, no início da noite, reencaminhada ao Presídio Central.

10 de outubro - Simone recebe alta e vai para casa.


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