Como é andar na linha de ônibus mais longa em estrada de chão da Região Metropolitana - Notícias

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Dia do Motorista25/07/2014 | 07h02

Como é andar na linha de ônibus mais longa em estrada de chão da Região Metropolitana

O Diário Gaúcho acompanhou uma viagem para contar como é andar na linha de coletivo municipal mais longa em estrada de chão entre 11 cidades da Região Metropolitana

Como é andar na linha de ônibus mais longa em estrada de chão da Região Metropolitana Mateus Bruxel/Agencia RBS
Lama no Beco da Quebrada, trecho complicado de dois quilômetros onde o ônibus de Volmir entra e retorna Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Quando a última ponta de asfalto desaparece na Estrada Acrísio Martins Prates, na localidade de Passo da Areia, em Viamão, é que a viagem do motorista de ônibus Volmir Nunes Jacobsen, 43 anos, começa de verdade. Entre ida e volta, são 92 quilômetros de vias sem asfalto que separam ele e os passageiros da Praia das Pombas, em Itapuã. Na tarde da última quarta-feira, o Diário Gaúcho acompanhou a viagem de Volmir para contar como é andar na linha de coletivo municipal mais longa em estrada de chão entre 11 cidades da Região Metropolitana.

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Linha rural
Motorista e cobrador dos ônibus das linhas rurais de Viamão há 16 anos, Volmir enfrenta diariamente 92 quilômetros de estradas de chão de um total de 102 quilômetros que separam o Centro da cidade e a Praia das Pombas, em Itapuã.
Ele é o responsável pelos horários das 15h10m, do Centro até a Praia das Pombas, e das 17h, no sentido contrário. Na ida, 21 dos 31 passageiros ingressaram nas duas grandes paradas de ônibus da área central da cidade.

– Dos quatro motoristas da linha, sou o único que não mora em Itapuã e faz a corrida ao contrário. Os outros puxam da praia para o centro, retornam e ficam com os ônibus em casa. Afinal, tudo é muito distante para ficar indo e voltando à garagem, no Centro – contou.

Novos ares
Depois de cinco quilômetros de asfalto, nada sobrou da paisagem de concreto que a maioria dos colegas de profissão de Volmir está acostumada a lidar diariamente. Pela frente surgiram vacas, cachorros, paisagens verdes exuberantes e paradas de ônibus em locais curiosos.

Dentro do veículo, que só costuma lotar em dias ensolarados, os passageiros contemplavam a vista ou dormiam – depende da quantidade de quilômetros da viagem.

– Para facilitar a vida deles, quando chove ou tem sol forte, costumo parar na porteira da casa de cada um ou o mais perto que posso para não caminharem muito. A estrada não é boa.

Atoleiro e baldeação
Na tarde da última quarta-feira, chovia fraco há cerca de 12 horas na região. Para a sorte de Volmir e dos passageiros, a chuva que já tinha caído não era capaz de causar a maior dor de cabeça da viagem: atolar o veículo.

– A última vez que atolamos foi há um mês. Choveu a semana inteira e a estrada foi piorando. Quando o ônibus atolou, voltávamos de Itapuã e estava noite. Foi preciso fazer baldeação para seguirmos viagem – recordou Volmir, enquanto cuidava para não cair numa cratera ao lado da estreita pista.

E, apesar da pouca chuva, a lama no Beco da Quebrada, um trecho de dois quilômetros onde o ônibus de Volmir entra e retorna, já começava a causar problemas. Para piorar a situação, uma vala para escoar a água foi aberta ao lado da pista estreita.

– Se o motorista não conhece a linha, pode ficar perigoso à noite – disse Volmir.

Voz alta e velocidade reduzida
Apesar da paisagem fotográfica do lado de fora do veículo, os buracos da estrada acabam tirando a atenção de quem deseja contemplar o visual. São tantas crateras, uma quase em cima da outra, que o ônibus guiado pelo experiente motorista quase deita em determinados trechos para conseguir vencê-las. É preciso manter as mãos firmes ao volante. Junto com ele, gingam também os passageiros.

A velocidade média é de 40km/h, numa troca constante entre a segunda e terceira marchas da embreagem. E o barulho causado pelo atrito do veículo com o terreno cheio de desníveis acaba silenciando quem segue na linha. Para conversar com o colega de poltrona o passageiro precisa falar mais alto, quase gritando.

Há dez anos circulando diariamente no mesmo horário, o funcionário público Paulo Ricardo Nunes, 53 anos, morador de Itapuã, já enfrentou atoleiro, ônibus perdendo roda no caminho e até tanque de combustível furado por conta das dificuldades da estrada. Quando surge um novo motorista na linha, ele até torna-se o copiloto.

– Se uma estradinha está sem condições de passagem, ajudo o motorista a entrar nos desvios – comentou Paulo.

Bergamotas de presente
Entre um sacolejo e outro, Volmir revela que se puder escolher não troca as linhas rurais pelas urbanas da empresa. Vale comer poeira nos dias secos e meter os pneus no barro, quando chove. O motivo são os passageiros:

– São mais próximos, considero como parte da minha família. Sempre ganho um boa tarde ou um agrado, como um pacote de aipim.

Na quarta-feira, foi a vez do agricultor Mauro da Silveira, 63 anos, que há 24 anos anda todos os dias na mesma linha, presentear o motorista com um saco de bergamotas.

- Sempre que posso, trago frutas ou aipim. Já dei até sementinha de abóbora. Eles merecem, pois andam numa estrada muito difícil – justificou.

Afago com café


O motorista de ônibus Volmir Nunes Jacobsen, 43 anos, da Empresa de Transporte Coletivo Viamão
Foto: Mateus Bruxel, Agência RBS


Depois de 1h40min entre trancos e sacolejos, Volmir ganha o maior presente da viagem: o carinho da mãe, Diva Nunes Jacobsen, 64 anos, moradora há 32 anos da Vila de Itapuã. Todas as tardes, ela o espera na última parada da comunidade com a sacola do lanche fresquinho. No dia em que a reportagem estava no ônibus, Diva tinha preparado bolo com raspas de limão e uma térmica com café com leite quente.

– Meu dia ficaria triste se eu não pudesse fazer isso pelo meu filho. Pode estar caindo um temporal que eu venho igual, mesmo ele me ligando antes e pedindo para eu não esperar – disse a mãe, antes de entregar a sacola pelo vidro do ônibus.

Fim da linha
Como boa parte da viagem, o ponto final da linha fica numa área onde predominam a areia e o barro, em frente ao Hospital Colônia Itapuã - distante dez quilômetros da Vila. Como o trajeto, geralmente, leva duas horas, Volmir degusta em segundos os lanches preparados pela mãe.

Previsto para retornar às 17h, acabou saindo com 15 minutos de atraso. Na quarta-feira, regressou ao Centro com dois passageiros e muita chuva.

– Apesar das dificuldades da estrada, não troco esta aventura diária por nada! – concluiu Volmir.

Saiba mais
Viamão tem 70% das vias sem asfalto, cerca de 1,2 mil quilômetros.

As cinco principais estradas de terra de Viamão recebem manutenção da Secretaria Municipal de Agricultura com saibro, patrola e roçadeira a cada 40 dias. Entre elas, a que leva a Itapuã. Porém, não é suficiente para mantê-la sem buracos.

A linha Centro-Praia das Pombas tem dez horários diários de ida e volta, durante a semana. Aos sábados, são cinco. Nos domingo, diminui para quatro - dois de manhã e outros dois à tarde.

As 11 cidades pesquisadas: Viamão, Gravataí, Alvorada, Cachoeirinha, Canoas, Eldorado do Sul, Guaíba, Esteio, Sapucaia do Sul, São Leopoldo e Novo Hamburgo.

Segundo o Sindicato dos Rodoviários da Região Metropolitana, são cerca de 5 mil motoristas de ônibus atuando na Região Metropolitana.

Em Porto Alegre, conforme o Sindicato dos Rodoviários, são 4,3 mil motoristas de ônibus.

Conforme o Detran/RS, até junho deste ano, o Estado tinha 4.493.254 condutores registrados.

Hoje, é celebrado o Dia de São Cristóvão, que é padroeiro dos viajantes e dos motoristas.

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