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Viamão 24/09/2014 | 08h07

Quilombolas aguardam instalação de banheiros

Empresa responsável pela construção de módulos sanitários para 25 famílias da Comunidade Quilombola Cantão das Lombas, em Viamão, abandonou a obra. Funasa só voltará ao caso após o período eleitoral.

Quilombolas aguardam instalação de banheiros  Tadeu Vilani/Agencia RBS
Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Nas terras da Comunidade Quilombola Cantão das Lombas, a 45km do Centro de Viamão, banheiro é artigo de luxo. E, quando 25 famílias moradoras da área pensaram que teriam vaso e chuveiro instalados pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), a construtora contratada pelo órgão acabou abandonando a obra, em outubro do ano passado. Para piorar a situação, a Funasa descobriu que a empresa tinha endereço fantasma no Paraná.
Em março deste ano, o Diário Gaúcho mostrou a situação dos quilombolas de Viamão. De lá para cá, a agricultora Vera Lúcia Pereira da Silva, 53 anos, segue olhando para o banheiro improvisado numa casinha de madeira, nos fundos da morada. Ela revela que junto com o marido Osmar Rodrigues, 56 anos, jamais tiveram um instalado desde que nasceram na comunidade. A atual patente, com menos de 2m de altura, precisa ser trocada de lugar a cada seis meses. 
- Meu sonho é, um dia, deixar a água cair sobre o corpo, sem precisar me lavar com uma bacia, e em partes. Quando disseram que construiriam os nossos banheiros, fiquei louca de faceira. Mas parece que vou morrer sem ter um – desabafou.
 
Sanitários seriam construídos em todas as casas
 
Os módulos sanitários domiciliares, revestidos com cerâmica e com vaso sanitário, seriam construídos pela Funasa nas 25 casas do quilombo. Era a segunda etapa da instalação da rede de saneamento da região – já concluída. Segundo o presidente da Associação Quilombo Cantão das Lombas, Edson Abreu Silva, apenas quatro famílias já construíram os sanitários com recursos próprios. As outras 25 esperam pela promessa da Fundação.
- A construtora abandonou no pátio de um morador dezenas de sacos de cimento, de cal hidratado, de rejunte e 20 caixas de cerâmicas que seriam usados na obra - contou.

Banho em latão

Mais do que a água encanada jorrando das torneiras, o banheiro era a obra mais aguardada pelo agricultor aposentado Telmo Gomes da Silva, 76 anos, outro que nasceu na comunidade quilombola. Enquanto o chuveiro não vem, Telmo, que tem menos de 20% de visão por conta do glaucoma, improvisa o banho num latão pendurado nos fundos de casa.
Com dificuldades para caminhar, ele usa a área mais nos dias frios. A água sai de uma torneira presa no balde, suspenso por corda e madeira.
- No inverno, a coisa fica braba. Mesmo esquentando a água para colocar no balde, não fica bom. O bom seria tomar um banho quente – imaginou.

Só após período eleitoral

Segundo o superintendente da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Gustavo de Mello, a construtora Ventana Manutenção e Serviços, do Paraná, abandonou a obra logo no início, em outubro do ano passado, antes mesmo de receber qualquer quantia dos R$ 150 mil a que teria direito. Desde o final de 2013, a Funasa tentou localizar os proprietários. Neste ano, após uma investigação, o órgão descobriu que a construtora tinha endereço fantasma. Ela havia sido contratada por meio de pregão eletrônico (processo mais barato de escolha da empresa contratada, com negociação e contratação feita pela internet).
– A denunciei na Polícia Federal e o caso está na Advogacia-Geral da União. A empresa nunca recebeu um centavo pela obra. Quando percebeu que não conseguiria concluir, abandonou, inclusive, os materiais que já estavam no canteiro – disse Gustavo.
Gustavo ressalta que em três licitações abertas para a obra, apenas esta empresa do Paraná se candidatou para executá-la. Ele afirma que a próxima empresa deverá ser contratada por meio de tomada de preço (seleção ocorre apenas com empresas que têm analisadas a habilitação jurídica, a regularidade fiscal, a qualificação técnica e o cumprimento das exigências do Ministério do Trabalho).
– Serão feitas as melhorias sanitárias, mas devemos fazer na forma da lei. Ou seja, assim que terminar o período eleitoral vigente – concluiu o superintendente.

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