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Saúde em Porto Alegre

Impasse entre prefeitura e Igreja Católica deixa moradores da Estrada São Caetano sem unidade de saúde

Secretaria da Saúde de Porto Alegre espera doação de prédio construído pela comunidade em terreno da Igreja Católica, localizado no Extremo-Sul da cidade

03/10/2015 - 07h05min

Atualizada em: 03/10/2015 - 07h05min


Um impasse entre a Mitra da Arquidiocese de Porto Alegre e a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), que se arrasta há sete anos, vem prejudicando o atendimento médico de cerca da 1,8 mil famílias do entorno da Estrada São Caetano, no Extremo-Sul de Porto Alegre, a 30km do Centro. De um lado, a SMS espera que a Mitra doe um prédio construído em terreno da igreja católica para transformá-lo em unidade de saúde. Do outro, a Mitra afirma que não tem nada a declarar sobre o assunto.


O Diário Gaúcho acompanha a história desde 2009. Um ano antes, a Paróquia Nossa Senhora de Belém, pertencente à diocese de Porto Alegre, autorizou em cartório que a comunidade erguesse o prédio de 70 metros quadrados sobre parte do terreno da Capela de São Caetano, esquina do Beco Cassimiro Schmidel com a Estrada São Caetano. Unidos, os moradores arrecadaram R$ 26 mil, e a obra foi iniciada. Com cinco cômodos, a construção teria dois consultórios, um banheiro, uma sala de espera e uma área de recepção. Porém, jamais se concluiu.

Hoje, só os cachorros habitam a construção fantasma, onde faltam parte das aberturas, o piso, a pintura, a forração, os equipamentos e a instalação da rede elétrica. Em 31 de janeiro de 2012, iniciou-se uma negociação entre a Mitra e a SMS. Numa troca de e-mails entre ambas, a Secretaria explicava que só poderia assumir o prédio se ele fosse doado, se tornando área de patrimônio da Secretaria Municipal da Fazenda. Duas semanas depois, o jurídico da Mitra respondeu apenas que imóvel estaria disponível para locação pelo Município, no valor de R$ 300. Durante dois dias desta semana, a reportagem tentou contato com a Mitra. A resposta do departamento jurídico foi que não comentariam a questão. 

A comunidade que construiu um posto de saúde por conta própria

- Tentamos negociar com a Arquidiocese, mas não houve um acordo. Este prédio não é nosso (do Município), e nenhum equipamento social pode ser utilizado e receber investimento se não for público. Estamos estudando uma nova forma de atendimento para a comunidade, já que o prédio não poderá ser utilizado - diz a gerente distrital Restinga/Extremo-Sul da SMS, Rosana Meyer Neibert.


Distância
Sem o tão sonhado posto médico, aguardado há mais de seis décadas, os moradores de São Caetano precisam ter hora ou carona para adoecer. Os postos de saúde aos quais estão vinculados ficam a 12km, no Lami, ou a 15km, no Bairro Lomba do Pinheiro. Morador da região há 65 anos, o construtor aposentado Ivo Teobaldo Behrens, 75 anos, sofre quando precisa buscar as receitas dos quatro medicamentos controlados que usa todos os dias. Para chegar ao posto de saúde da parada 16 da Lomba, depende de seis ônibus para ir e voltar. Se for ao Lami, não é muito diferente. Ele depende de quatro ônibus - ida e volta - com horários que o impedem de, por exemplo, conseguir uma ficha para consultar com o clínico.

- Se eu vou no ônibus das 8h, só consigo voltar ao meio-dia. Porém, as fichas são distribuídas às 7h. Então, nunca consigo consultar. Se quiser ir mais cedo, preciso pagar R$ 30 para um vizinho me levar - lamenta.


Triste
Doadoras de parte da verba investida na construção do posto incabado, a agricultora Jandira da Silva, 79 anos, e a filha, a cuidadora de idosos Rosária da Costa, 57 anos, visitam o prédio sempre que podem. É uma forma de continuarem acreditando que ele poderá ser usado pela comunidade.

- Ver este prédio fechado nos deixa triste, claro. Moro aqui há seis décadas, e sempre acreditei que um dia teríamos atendimento mais próximo - finaliza Jandira que, quando necessita de médico, recorre à carona no carro dos filhos para ir ao Lami.

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Mateus Bruxel / Agencia RBS
Prédio que abrigaria o posto está vazio

 Moradores exigem unidade em prédio construído pela comunidade
Foto: Mateus Bruxel

 Família de Jandira (C) doou material para a construção do prédio
Foto: Mateus Bruxel

 Ivo depende de carona ou caminha até 15km para chegar ao posto mais próximo
Foto: Mateus Bruxel


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