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Vozes que ecoam

Os problemas e os desejos de quem vive nos morros de Porto Alegre

Conheça o dia a dia de quatro moradores de áreas altas da capital gaúcha

11/01/2016 - 09h49min

Atualizada em: 11/01/2016 - 09h59min


Douglas Roehrs
Douglas Roehrs
Diário Gaúcho visitou os morros da Cruz, São Caetano, Santa Tereza e da Polícia

Mesmo em 2015, algo tão simples como ter água encanada ainda se mostra um luxo para muitas pessoas de Porto Alegre. Entre elas, Lúcia Monteiro, moradora da encosta do Morro da Polícia.

Com o intuito de conhecer as realidades de pessoas que vivem em pontos altos de Porto Alegre, como Lúcia, o Diário Gaúcho visitou os morros da Cruz, São Caetano, Santa Tereza e da Polícia para conversar com moradores.

Além de Lúcia, conheça a história de Everton, porteiro que se vê abandonado pelo poder público, Mónica, artista plástica em busca de tranquilidade, e Guilherme, estudante que começa a pensar no futuro.

No Morro da Polícia, Lúcia sonha com a água

– O meu desejo é de ter água para poder capinar o pátio, eu e meu guri, e tomar banho quando sair suado daqui – revela Lúcia Rejane Monteiro, 56 anos, sentada em frete à pequena casa de madeira, em um dos pontos mais altos da encosta do Morro da Polícia, no Bairro Glória.

Mesmo em 2015, quando aparatos tecnológicos cada vez mais modernos estão à disposição de muita gente, algo tão simples como ter água encanada ainda se mostra um luxo para muitas pessoas de Porto Alegre, onde cerca de 5 mil domicílios, dos 75 mil irregulares da cidade, não contam com abastecimento, conforme dados do Plano Municipal de Habitação de Interesse Social, que não são atualizados desde 2009.

Morando há 25 anos numa área irregular, Lúcia também enfrenta a dificuldade de não ter acesso à rede de esgoto e à energia elétrica regularizada – os gatos ainda dominam a região.

Lúcia e o filho Tawan, que tem autismo

Mãe de oito filhos – dois já mortos –, a dona de casa divide a moradia com dois deles. Para cuidar do filho mais novo, Tawan, 18 anos, que tem autismo, viu-se obrigada a abandonar o emprego de empregada doméstica. Hoje, sustenta a casa com o dinheiro que recebe da aposentadoria do jovem.

Quando a água comunitária chega até o morro, geralmente à noite, ela enche os galões e os espalha pela cozinha. A maior dificuldade está no Verão, quando a falta de chuvas faz com que ela tenha de pedir por água para moradores de áreas mais baixas.

No Morro Santa Tereza, a trilha de Everton

É por uma viela estreita de chão batido, na qual não é possível transitar de carro, que se chega à casa do porteiro Everton Castilho, 42 anos, na Vila Ecológica, Morro Santa Tereza.

Assim como no Morro da Polícia, a Vila Ecológica está encravada numa área irregular, o que impede Everton e os vizinhos de terem acesso a melhores condições de acessibilidade e à saneamento básico. Conforme a assessoria de comunicação do Departamento Municipal de Habitação (Demhab), o programa de regularização dessas áreas é realizado em várias etapas, em que são desenvolvidos projetos de urbanismo, arquitetura, engenharia e social. Além disso, há aspectos jurídicos que devem ser observados, e as obras podem levar anos para a execução.

– A Vila Ecológica está abandonada pelo poder público. As crianças correm pelo meio do esgoto – lamenta o porteiro.

Na mesma região onde Everton vive desde 1979, estão outros parentes que vieram de Santana do Livramento, na Fronteira. Hoje, o porteiro divide o mesmo espaço com o sogro, a sogra e quatro filhos.

Everton vive na região desde 1979

Para ele chegar ao trabalho não é difícil, pois o local é perto e ele vai caminhando. No entanto, a locomoção para pontos distantes da cidade é complicada. Everton reclama dos poucos horários do único ônibus – de hora em hora –, que passa por uma praça na entrada da comunidade. Logo, é preciso percorrer um caminho de zigue-zagues, da terra ao asfalto cheio de buracos, até a parada.

Mas há quem resida em local de mais difícil acesso. Nos fundos do lar do porteiro, vivem moradores identificados por ele como o "pessoal do mato". Ao contrário de Everton, que dispõe de uma viela para chegar até em casa, eles nem rua têm para isso – atravessam um matagal para alcançar os casebres.

– Se incendiar uma casa, é um caos – conta Everton, que já presenciou uma delas ser consumida pelo fogo.

No Morro São Caetano, a vida tranquila de Mónica

Se fechar os olhos e inspirar profundamente, Mónica Kabregu ainda consegue sentir o cheiro das rosas. Ao se mudar para o Morro São Caetano, no bairro Nonoai, há 20 anos, o local não tinha todas as árvores que tem hoje. Havia muitas rosas, e o perfume delas ficara guardado em sua memória.

Uruguaia de Montevidéu, Mónica veio para Porto Alegre há 42 anos. Em busca por um lugar mais tranquilo, ela e seu marido, o aposentado José Bernasconi, deixaram a antiga residência, perto do Hospital das Clínicas, e se instalaram na atual, onde ela tem um atelier.

– Na primeira semana, não podíamos dormir por causa do silêncio – recorda Mónica.

Mónica está empenhada em estreitar os laços de amizade entre os vizinhos

Hoje, apesar do maior número de pessoas vivendo na região, o som mais frequente ainda é o cantar dos pássaros. Ao lado do seu terreno, há uma praça, onde um domingo ao mês ela faz, na companhia de outros, um ritual em homenagem à Mãe Terra. Do local, tem uma vista encantadora da cidade:

– Nós temos uma coisa grátis a nossa disposição, uma coisa de Deus. Me sinto em êxtase, pois não há um dia igual ao outro – salienta a artista, que não costuma sair muito do bairro e está empenhada em aproximar os laços de amizade entre os vizinhos.

No Morro da Cruz, Guilherme faz planos para o futuro

Foi em busca de sossego que a família do estudante da terceira série Guilherme dos Santos de Oliveira, 14 anos, mudou-se, há três anos, para o Morro da Cruz, no Bairro São José. O adolescente mora com a mãe, Adriana dos Santos de Oliveira, auxiliar de limpeza de 40 anos, a madrasta Magali Silveira, supervisora de obras de 30 anos, e o pai dela, João Paulo, 58.

Guilherme comemora o fim das piadas que era obrigado a ouvir sobre o relacionamento entre a mãe e outra mulher quando morava no Bairro Bom Jesus:

– Ninguém gosta que fale da mãe de ninguém. Por isso que eu aceitei sair de lá, eram muitas brigas. Aqui, ninguém bate em mim. Se baterem, aviso para os meus amigos. Minha mãe também me defende, a Magali (companheira da mãe) me defende. Todo mundo me defende aqui.

Guilherme costuma descer o morro apenas para ir à escola e visitar um dos colegas. Um dos divertimentos com o amigo é entrar no Facebook – ele mesmo não tem. Em casa, distrai-se com os muitos animais de estimação: gato, cachorros, galinhas e tartarugas. Também gosta de assistir a novelas e, antes de dormir, costuma ver TV no quarto da mãe.

Adriana, que se preocupa com o filho, e Guilherme, que começa a pensar no futuro

Apesar da pouca idade, Guilherme começa a pensar na profissão que irá exercer no futuro. Sem muitas perspectivas, acaba por pensar no ofício do pai, gari, que, segundo ele, é respeitado por todos:

– Eu queria trabalhar correndo atrás do caminhão do lixo.

Guilherme está há cerca de um ano sem ver o pai, que não o visitou nem quando ele fez aniversário. Adriana, que se preocupa em proteger o filho, ressalta seus temores:

– Se machucar ele, me machuca.

Apesar de gostar da comunidade em que vive, Guilherme pensa em ir para longe dali:

– Eu quero ser famoso, levar minha mãe embora, meu vô, a Magali, todo mundo da casa.


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