Manoel Soares: papo imaginário com homem que escavou rumo ao Presídio Central - Notícias - No Diário Gaúcho você encontra notícias do RS, informações de utilidade pública, muito entretenimento, além de conteúdos esportivos e jornalismo policial.

Versão mobile

Papo Reto25/02/2017 | 08h00Atualizada em 25/02/2017 | 08h01

Manoel Soares: papo imaginário com homem que escavou rumo ao Presídio Central

Colunista do Diário Gaúcho conta como seria um papo com um dos homens que cavava túnel 

Manoel Soares: papo imaginário com homem que escavou rumo ao Presídio Central  /
Foto: /

Imagine o que diria o homem que escavava o túnel do presídio. Eu imaginei e seria mais ou menos assim: 

"O som da pá, quando cravava na terra, me lembrava os poucos momentos de aprendizado com meu pai. Ele me tirou da escola para trabalhar com ele de servente de obra. Minha mãe não gostou porque achava que eu levava jeito para ser algo mais na vida, quem sabe, um engenheiro. Olhando como organizei os caibros e sarrafos para que o túnel não desabasse sobre mim, acho que ela tinha razão. Quem conhece construção civil sabe que fui um artista. Por falar em túnel, me lembrei que estava lá embaixo sozinho. Meu único companheiro era um ventilador velho. Com a determinação de um samurai, eu cavava metro a metro rumo ao crime e, para enganar minha consciência, eu culpava o sistema, o racismo, a elite. São tão culpados como eu, mas, lá no fundo, eu sabia que estava ali por ambição. Sabia que, se tudo desse certo, aquele buraco me levaria para a cela. Mas se tudo desse errado, me levaria para lá também. Eu era só um operário. Quem me paga não imagina a claustrofobia de passar horas aqui sabendo que o mundo corre por cima e, se deixar, passa por cima. Seria daquele buraco que sairia a Smart TV, o celular da moda e o reboco da parede. Tudo ia sair daquele buraco, mas não saiu. Só saiu minha cara na tevê, suja de barro. Eu estava algemado enquanto um policial musculoso explicava cheio de orgulho como me pegou".

Leia outras colunas do Manoel Soares

Leia mais

Polícia descobre túnel e frustra plano de fuga no Presídio Central
"Era uma obra que nunca aparecia", conta vizinho da casa usada para abrir um túnel até o Presídio Central

Morte

Na imaginação, a história continuava assim: 

"Meu pai, ao assistir, se arrependeu de ter me ensinado a pegar em uma pá. Minha mãe me olhou como quem tem medo de morrer antes que eu saia da cadeia. Tudo foi e é triste, mas confesso que ver a apresentadora dizer que o plano foi ousado me deu uma ponta de orgulho, afinal, nunca fui ousado. Esta foi a primeira vez que tentei ser. Pena que na direção errada. Eu cavei rumo ao Presídio Central e estou indo parar lá. Eu poderia ter investido meu talento em outro lugar, mas agora acho que já era. Minha vida? Não sei. Tem gente querendo me ver morto para que eu não diga o que sei. Mas a morte vem. De uma vez ou aos poucos. Comecei a morrer no dia em que achei que minha vida estava naquele buraco. Assim como meu túnel, eu agora estou sem utilidade, sem ventilador velho, sem pá, sem paz. Meu recado é: não cave como eu cavei."


 

Vídeos recomendados para você

 
 
 

Siga o Diário Gaúcho no Twitter

Diário Gaúcho
Busca
clicRBS
Nova busca - outros