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Rio Grande Afora07/04/2017 | 08h01Atualizada em 07/04/2017 | 08h01

Dois anos após queda de ponte, Jaguari continua partida ao meio

Moradores dos bairros Rivera e Cohab estão isolados do restante do município, sem mercado, hospital, farmácia e outros serviços básicos

Dois anos após queda de ponte, Jaguari continua partida ao meio arquivo pessoal/arquivo pessoal
Expectativa da prefeitura é de que as obras recomecem em maio e sejam concluídas em seis meses Foto: arquivo pessoal / arquivo pessoal

Olhar para as portas da mecânica autoelétrica fechadas num lugar que já foi o melhor ponto da cidade e com uma estrutura completa emociona o proprietário, Rodrigo Luís Cadó Pivetta, 46 anos, que embarga a voz ao contar que, há dois anos, teve que mudar de endereço comercial e deixar tudo para trás por falta de clientela. 

O motivo da debandada? O difícil acesso ao local, situado no Bairro Rivera, um dos dois bairros de Jaguari, região central do Estado, a 400km de Porto Alegre, que estão afastados do restante do município há dois anos, desde que uma ponte caiu, partindo a cidade ao meio. De lá pra cá, moradores vivem isolados, sem ter como atravessar para a área central de carro. A passagem pelo local ocorre apenas a pé, de bicicleta ou moto, por uma passarela construída para amenizar o problema.

— Eu tinha um lugar que era meu, muito melhor, com um funcionário, mas fui obrigado a vir para o lado central e alugar um espaço reduzido, sem poder contratar ninguém porque já estou tendo um gasto extra de R$ 1 mil de aluguel do ponto. Mas continuo morando do lado de lá, então, ainda tem o custo do combustível. Tive que correr atrás do movimento. Se eu tivesse ficado lá, tinha quebrado — lamenta Rodrigo.

Passarela é solução provisória que já dura dois anos.  Só passa gente a pé, de bicicleta ou moto Foto: Thaís Righi / arquivo pessoal

Impacto no comércio

Assim como ele, pelo menos outros dez estabelecimentos comerciais — três de grande porte — , que ficavam situados na zona isolada fecharam, segundo a Associação Comercial e Industrial (ACI). Os clientes não têm como chegar até lá a não ser dando a volta por fora da cidade, acessando a BR-287, num trecho de aproximadamente 10km. 

— O impacto no comércio foi muito forte. Nessa semana, soube de mais uma baixa. Um restaurante referência, que estava há 50 anos na cidade, fechou. É um prejuízo enorme também para o município — avalia o presidente da ACI, José Limana.

Uma comerciante que pediu para não ser identificada também continua morando na zona separada, mas migrou seu negócio para o outro lado da ponte caída. O marido, que comanda outros dois negócios, continua lá, embora cogite fechar as portas. Com as idas diárias dela para o outro lado e o aluguel de um novo ponto, os custos aumentaram, e a renda familiar foi reduzida em 80%. 

— A situação econômica está muito difícil. Estou economizando na luz, no rancho, no combustível. Apertamos o cinto mesmo porque a grana está mais curta — diz ela, que também está fazendo vendas avulsas para complementar o orçamento da família. 

Saúde na base do carreto

De um município com 11,5 mil habitantes, 2,7 mil estão na parte separada pela queda da ponte. Lá, eles vivem sem supermercado, posto de combustível, farmácia ou hospital. Apenas um posto de saúde atende às necessidades menos urgentes da população. Moradores se queixam que a ambulância do Samu demora mais para chegar, já que precisa dar a volta por fora da cidade, e temem o que pode acontecer em uma situação mais grave. 

Mas, segundo a secretária de Saúde do município, Jaqueline Pivetta, a população isolada não está sem amparo médico: 

— Ninguém está ficando sem consulta nem atendimento. Dispensamos medicamentos para essa unidade de lá e, se for preciso uma internação ou atendimento de urgência, a Secretaria da Saúde busca e leva o paciente até o hospital, faz o carreto, como a gente diz.

Para coisas simples do dia a dia, como ir no mercado comprar pão e leite, buscar um remédio na farmácia ou ir ao banco, quem não tem carro precisa caminhar — a extensão da ponte, onde hoje há uma passarela, é de quase 2km —, tarefa que fica ainda mais sofrida para os idosos.   

— A gente vê eles carregados de sacolas, fazendo um esforço para atravessar. E quando chegam do outro lado, sentam em bancos para descanar e continuar a caminhada — conta uma professora da região. 

Prefeitura estima prazo de entrega da obra

Antes da queda, ponte ligava os bairros Rivera e Coahb ao Centro da cidade Foto: divulgação / prefeitura de Jaguari

Prefeito que assumiu o mandato em janeiro deste ano, Roberto Carlos Boff Turchiello (PMDB) reconhece:

— O prejuízo é enorme para moradores, por todos os transtornos, e para município, já que o comércio dessa parte separada foi o que mais sofreu. Com isso, a economia do município sofre diretamente.

Segundo ele, a demora para o início das obras se deu por questões burocráticas envolvendo o convênio entre Daer e prefeitura. Roberto estima que, até o fim do ano, a ponte reconstruída seja entregue à população:

— A expectativa é de que as obras sejam retomadas em maio e concluídas em seis meses.

Até lá, os moradores aguardam ansiosos e fazem planos. 

— Na hora em que liberarem a ponte, eu vou ser o primeiro a me mudar de volta. Já está anunciado para todos os clientes — garante o mecânico Rodrigo.  

Entenda o caso

/// A ponte Júlio de Castilhos se rompeu em maio de 2015, após um caminhão bitrem tentar a travessia. 
/// A estrutura liga duas partes do município, que é dividido pelo Rio Jaguari e tem 11,5 mil habitantes.
/// Com a queda, dois bairros e 2,7 mil pessoas ficaram isoladas. 

Em 2015, caminhão tentava a travessia quando a ponte quebrou Foto: divulgação / prefeitura de Jaguari

/// Cerca de um ano depois, Daer e prefeitura municipal firmaram um convênio para início das obras. 
/// A empresa EcoPontes, de São Paulo, venceu a licitação. Mas, em fevereiro deste ano, o Daer solicitou reestruturação da planilha orçamentária.
/// Em março, a prefeitura fez um aditivo contratual, alterando o orçamento de R$ 3,2 milhões para R$ 2,5 milhões, além do prazo de entrega da obra, e enviou, nesta semana, para a EcoPontes aprovar.
/// A prefeitura aguarda, agora, a aprovação do aditivo pela Ecopontes para que seja enviado ao Daer e, assim, o órgão libere o recurso da obra para a prefeitura. 
/// Assim que o Daer liberar a verba, a prefeitura repassa para a empresa e as obras têm início, com previsão de término seis meses depois. 

 


 

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