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Burocracia após a morte01/06/2017 | 18h47Atualizada em 02/06/2017 | 11h35

Após 25 horas de espera, vizinhos fazem vaquinha para retirar corpo em Viamão

Homem de 39 anos, que vivia sozinho, foi encontrado morto em casa, por vizinhos

Após 25 horas de espera, vizinhos fazem vaquinha para retirar corpo em Viamão Aline Custódio/Agência RBS
Grande movimentação de vizinhos em frente à casa de Daniel  Foto: Aline Custódio / Agência RBS

A falta de informações corretas e um possível descaso fizeram com que o corpo de Daniel Alves Moraes, 39 anos, fosse velado pelos vizinhos por 25 horas no piso frio da casa onde ele morava no Residencial Figueiras, em Viamão, até ser removido para o enterro.

Encontrado morto, por volta das 11h de quarta-feira, aparentemente por causas naturais, Daniel só teve direito a um velório dentro de um caixão e ao enterro depois que os próprios vizinhos recolheram entre eles parte dos R$ 2.150 cobrados por uma funerária para obter um atestado médico, escrito sem a presença do profissional no local, e providenciar o funeral.

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Ele foi sepultado no final da tarde de quinta-feira. Desde que a mãe morreu, em setembro do ano passado, Daniel vivia sozinho na casa onde morava desde a infância. Epilético, fazia biscates. Era querido por todos da região, garantem os mais de 50 vizinhos que se revezaram para cuidar o corpo estendido na sala – coberto parcialmente por um cobertor – até que fosse retirado do local. 

Foram os próprios vizinhos que acionaram um primo de Daniel, o corretor de imóveis Leandro Alves, 51 anos, morador de Balneário Pinhal, e a ambulância da Samu, para fazer o primeiro atendimento. O veículo só compareceu ao local às 17h, conforme boletim de ocorrência, e informou que não poderia remover o cadáver. Por volta das 21h, a Brigada Militar foi ao local e levou Leandro para registrar a ocorrência na DPPA de Viamão. Ambos órgãos também não se responsabilizaram pela retirada do corpo.

– Ninguém soube me dizer o que eu deveria fazer. Não tinha dinheiro para pagar a funerária nem o médico particular. Tentamos falar com a prefeitura por telefone, mas já era muito tarde. Bateu um desespero – contou o primo. 

Segundo Leandro, uma funerária foi acionada, mas se negou a fazer o serviço sem receber o valor total, cerca de R$ 3 mil. Por volta da 1h, os vizinhos decidiram reunir entre eles o dinheiro necessário para o enterro. 

Vizinhos fizeram vaquinha  Foto: Aline Custódio / Agência RBS

– Foi uma corrente de solidariedade que eu nunca tinha visto antes. Todo mundo veio contribuir ainda de madrugada. Meu primo era muito querido mesmo por aqui – contou Leandro, emocionado e ainda perplexo com a rede de ajuda. 

Pelos cálculos dos vizinhos, Daniel morreu entre 9h, quando ele foi visto pela última vez voltando do supermercado, e 11h, quando uma moradora estranhou a porta da casa dele entreaberta e foi verificar o que havia ocorrido. 

– Era uma pessoa maravilhosa, não incomodava ninguém. Não merecia passar por tudo isso no seu fim – lamentou a técnica de enfermagem Marilene Trindade de Quadros, 57 anos, vizinha do rapaz.

Daniel morava no bairro desde a infância Foto: Aline Custódio / Agência RBS

Protocolo foi desrespeitado

Por meio de nota, o delegado Volnei Fagundes Marcelo, diretor da 1ª DPRM, informou que "no caso específico de Viamão, não existe o Serviço de Verificação de Óbito. Assim, foi firmado um Protocolo, onde a Samu, em eventos desta natureza, providencia a ambulância do município, a qual leva o corpo até a Upa, onde o médico atestaria o óbito. Tal Protocolo foi firmado em reunião entre a Polícia Civil, Brigada Militar, Secretaria Municipal da Saúde, médico coordenador da Upa e representantes da Samu".

O delegado ressaltou ainda que a polícia não foi ao local da morte porque no registro de ocorrência nada foi informado sobre a causa ser morte violenta. O familiar teria sido orientado a procurar o médico da rede pública ou particular, informação negada por Leandro.

Volnei ainda garantiu que sobre a compra de atestado frio por parte da funerária orientará "a instauração de inquérito policial para apurar o fato", pois é crime liberar atestado sem averiguar o corpo. Ao tomar conhecimento do caso por meio da reportagem, no final da tarde de quinta-feira, o secretario da Saúde de Viamão, Luis Augusto Carvalho, informou que a responsabilidade é do município em mortes de moradores de Viamão atestadas como causa natural e reconheceu ter ocorrido "um problema que será averiguado nos próximos dias para melhorar o atendimento". 

Corpo foi retirado de casa depois de 25 horas Foto: Aline Custódio / Agência RBS

O que fazer em casos semelhantes, em Viamão

— Em casos de morte em casa por causas naturais em Viamão, a Samu local aciona a ambulância do município, que deve fazer a remoção até a Upa para o médico atestar o óbito. 

— A Secretaria Municipal de Cidadania e Assistência Social oferece o serviço de auxílio funerário para famílias com renda de até R$ 243 por pessoa. Se o óbito ocorrer em horário comercial, o familiar deve ir até um dos CRAS e solicitar a ajuda. Caso ocorra fora do horário, o cidadão deve ir até o PAS, Avenida Senador Salgado Filho, 9.214, em frente à Parada 56.

— A responsável pelos enterros é a Funerária Metropolitana, que no primeiro dia útil após o enterro pode encaminhar os documentos para receber pelos custos do serviço.

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