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Vítimas das chuvas24/06/2017 | 07h00Atualizada em 24/06/2017 | 07h00

Após morte na Rua da Represa, comunidade às margens de arroio sofre com medo de nova tragédia

Moradores reclamam da ausência da prefeitura no local, da falta de serviços de limpeza, esgoto e do pouco cuidado com as ruas

Após morte na Rua da Represa, comunidade às margens de arroio sofre com medo de nova tragédia Mateus Bruxel/Agencia RBS
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

O dia 8 de junho ainda não acabou na Rua da Represa. A via que faz divisa com o Arroio Moinho, no Bairro Coronel Aparício Borges, zona leste da Capital, transformou-se em um grande lago devido à enxurrada que atingiu Porto Alegre há pouco mais de duas semanas. Para moradores da área de risco, que viram a força da água causar uma morte, devastar casas e trazer ainda mais lixo e entulho para dentro do arroio, o medo de uma próxima tragédia permanece.

Números extraoficiais da Defesa Civil apontam que pelo menos 50 casas foram atingidas pela água. E a apreensão não é uma mera preocupação dos moradores. O coordenador do Grupo de Primeira Abordagem da Defesa Civil de Porto Alegre, Marcio Cardoso, afirma que o acontecimento no bairro foi algo acima de todo e qualquer histórico. Ele admite que a mesma quantidade de chuva poderia repetir o transtorno:

— Há possibilidade de acontecer de novo, mas a chuva se repetir naquela intensidade é algo muito difícil.

Força para recomeçar

Depois de perder a casa e ver as vizinhas Carine Gonçalves, 35 anos, e Daiana Silva, 31 anos, serem levadas pela água, a dona de casa Margarete Marques,
51 anos, não quer mais morar perto do Arroio Moinho. A força da água destruiu quase metade da sua casa de alvenaria. O quarto do filho, Carlos Junior, 11 anos, o banheiro e uma parte da casa foram levados pelo arroio. O que sobrou da moradia está completamente comprometido e sob risco de cair a qualquer momento. A casa dos fundos, onde viviam Carine e Daiane, foi totalmente destruída — não há nem rastro da residência de madeira. As duas foram levadas pela água, Carine morreu, e o corpo foi encontrado somente após seis dias de buscas.

Margarete nunca dormiu tranquila em dias de chuva, mas, desde o dia da enxurrada, independentemente do clima, não teve mais nenhuma noite de sossego. As lembranças do final da madrugada do dia 8 provocam sentimentos contraditórios em Margarete: a dor de ter perdido a casa e a maior parte do que adquiriu desde que mora no local, há 15 anos, e o alívio de ela, o marido Carlos, 55 anos, e o filho não terem se ferido. 

O DG acompanhou a segunda vez em que ela voltava à casa após a tragédia:

— Se a nossa casa fosse de madeira, também teria ido junto. Foi muito triste. Já chorei tudo que tinha para chorar. Agora, quero morar em lugar onde não tenha mais preocupação com a água. 

Instalada provisoriamente na casa da irmã, Margarete sequer tem condições de receber doações. Por enquanto, aguarda um retorno da prefeitura referente a uma nova moradia ou ao aluguel social e tenta reunir esperanças para recomeçar. 

— Minha filha (Crislaine Marques, 24 anos) mora com meus dois netos também na margem do rio, e temo por eles. Todo nós temos que ir embora daqui. É um pavor lembrar do que aconteceu. 

Medo de passar por tudo outra vez

Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Raquel dos Santos Melo, 30 anos, mal teve tempo de experimentar o gosto da casa nova quando foi surpreendida pela enxurrada. Fazia 26 dias que ela, o marido, o vigilante Everton Araújo, 37 anos, e os filhos, de 12 e cinco anos, estavam morando em uma casa alugada em uma das esquinas da Rua da Represa. Havia comprado dois roupeiros, fogão e geladeira para a vida nova. Tudo foi perdido no final da madrugada do dia 8 de junho. 

— Saí para trabalhar às 5h40min. Meu marido ficou em casa com meus filhos. Quando voltei, tinha água dentro de casa, e o muro estava destruído. Quando vim morar aqui, me avisaram que este arroio podia transbordar, mas nunca imaginei que poderia acontecer desse jeito. A gente trabalha muito. É triste ver tuas coisas indo embora, desmorona teu mundo também — desabafa a auxiliar administrativa. 

Raquel e a família estão provisoriamente na casa da mãe, a quatro quadras da antiga moradia. Ela está procurando outra casa para morar, no mesmo bairro:

— Ali, não tomaram nenhuma providência, está abandonado. Se tiver outra chuvarada, vai acontecer tudo de novo. Nem começou a chover ainda, mal começou o inverno. Esse foi só o primeiro episódio. Essa região está sob risco de sofrer com isso de novo. 

"Estou em pânico"

Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Pior do que o trauma provocado pelo que passou é o medo do que ainda pode vir. Ainda se recuperando do caos que virou a casa onde vive, que fica colada ao arroio, a costureira Tereza Antunes, 52 anos, teme o risco de queda de duas árvores que estão nas margens do córrego.

— Até a enchente vir, não tinha medo de morar do lado do arroio. Agora, estou em pânico — admite. 

Oito dias após a chuva, quando recebeu a reportagem, o chão de madeira da casa ainda estava completamente úmido. Os móveis estavam do lado de fora de casa, em uma tentativa de salvar o que for possível. 

— A gente nunca espera que a chuva vai chegar na nossa casa, mas, quando vê, na madrugada, tu dá de cara com toda água — diz ela, que vive com o filho de
12 anos e justifica o temor que só aumenta:

— A última vez é sempre com mais intensidade do que a penúltima. 

Reforço no banheiro destruído pela água

Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

A cuidadora Julia Adams da Luz, 61 anos, teve um dos banheiros de casa, na divisa com o arroio, completamente destruídos pela força da água. Está reconstruindo o cômodo com pedras de alicerce, mais resistentes, na tentativa de não ter que reerguer novamente um pedaço da casa onde mora com dois filhos e seis netos. 

— Quando começou a chover forte, vi que a água estava subindo pela privada. Ainda bem que não estávamos ali quando aconteceu. Eu sempre agradeço, porque poderia ter sido muito pior. Aqui, quando começa a chover, a gente já fica em alerta — diz, otimista. 

Moradores pedem mais atenção da prefeitura

Quem vive à mercê de uma próxima tragédia reclama que é esquecido pelo poder público. Apesar de viverem em área irregular, os moradores reclamam da falta da presença da prefeitura no local, de serviços de limpeza, esgoto e do pouco cuidado com as ruas. Para eles, a apreensão pelo que está por vir só cresce.

— Aqui, quem vive na linha do arroio está em risco. Se fosse feita a limpeza do rio, a água não chegaria até as casas — afirma a moradora Jane Longaray Bittencourt, 62 anos, que vive na região desde que nasceu. 

A dona de casa Maria Elisabeth Marques Gomes, 57 anos, fica de olho toda vez que aparece algum funcionário da prefeitura na região e sempre reclama:

— Precisamos de mais atenção aqui. Tem canos do arroio que precisam ser trocados há muito tempo. 

No dia em que conversou com a reportagem, Maria relatou que funcionários do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) estiveram visitando os pontos críticos do arroio e, para ela, avisaram que tinham canos, mas não dispunham de máquinas para fazer as intervenções necessárias. 

A assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, que abrange o DEP, não confirmou esta informação. 

DEP não sabe informar quantas vezes o Arroio Moinho já foi limpo

Praticamente todos os 3,26km do Arroio Moinho possuem casas em suas margens, situadas em áreas irregulares. Pela legislação, é necessário respeitar a faixa de preservação do leito do arroio, que é de 30m em cada margem. O arroio tem início na Rua Manoel Bittencourt e deságua numa galeria na Avenida Bento Gonçalves, que acaba direto no Arroio Dilúvio.

O diretor-geral do Demhab, Mário Marchesan, calcula queem torno de mil famílias vivam às margens do arroio. Qualquer intervençãorelativa à moradia destas pessoas, porém, está condicionada às açõescoordenadas pelo DEP com recursos do PAC.

Segundo Marchesan, ¿não há recursos nem legislaçãoadequada para resolver em curto espaço de tempo a situação¿. O Demhab acreditaque a melhor solução para a área seria canalizar o arroio e manter as famíliasno local, buscando a regularização fundiária.

O Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) informou àreportagem que nunca foram feitos processos de desassoreamento e dragagem noArroio Moinho, para limpeza e melhor escoamento do córrego, pois serianecessária a remoção dos moradores das margens para as máquinas e equipamentosterem acesso ao seu leito.

Questionado pelo Diário Gaúcho, o DEP não soube precisaro número de limpezas superficiais de lixo e resíduos feitas no Arroio Moinhonos últimos seis anos – esta que é uma das intervenções mais cobradas pelosmoradores. O serviço é feito com auxílio do DMLU, com a retirada de lixo,galhos e entulhos.

O DEP informou que iniciará o conserto de um poço de visita rompido existente na parte baixa da Rua da Represa. Este poço de visita será reconstruído com pedra ferro. A reconstrução irá normalizar o fluxo de veículos na via.

Arroio Moinho está incluído em obra que aguarda verba federal

Em 2012, o governo federal anunciou que o Arroio Moinho seria contemplado com recursos do PAC, por meio do Programa Gestão de Riscos e Resposta a Desastres do Ministério das Cidades. A obra prevê a construção duas bacias de detenção de cheias, execução de novas tubulações e galerias pluviais, que alcançarão 4.827m de extensão e auxiliarão na redução do pico de vazão de água. O valor da obra é de R$ 40,7 milhões e atingiria parte dos Bairros São José e Vila João Pessoa.

Em contato com a reportagem, o Ministério das Cidades informou que o anteprojeto de engenharia foi elaborado por empresa contratada pela prefeitura. Segundo o ministério, a Caixa Econômica Federal autorizou o processo licitatório para as obras e está aguardando a sua finalização por meio da apresentação da documentação necessária. 

O início das obras dependerá da finalização do processo licitatório e da aprovação da documentação pela Caixa.

 


 

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