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Olha que legal!01/07/2017 | 07h00Atualizada em 01/07/2017 | 07h00

Grupo de amigos troca baladas nas sextas-feiras pela solidariedade

Iniciativa que começou em Cachoeirinha, há um ano, chegou a Porto Alegre.  O Diário Gaúcho acompanhou uma das noites de movimentação

Grupo de amigos troca baladas nas sextas-feiras pela solidariedade Mateus Bruxel/Agencia RBS
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

As noites de sexta-feira e as madrugadas de sábado ganharam nova rotina para um grupo de moradores de Cachoeirinha e de Gravataí. Reunidos na garagem do casal de costureiros Alexandre Mello, 34 anos, e Cristina Ribeiro, 33 anos, na Granja Esperança, em Cachoeirinha, eles trocaram as baladas por uma prática nobre: prestar ajuda a moradores de rua.

Há um ano, Alexandre, a mulher, a irmã de Cristina, a dona de casa Bruna Ribeiro, 28 anos, e o marido de Bruna, Cristiano Goularte, 36 anos, decidiram que era hora de fazer algo pelos que têm menos. A ideia surgiu depois de uma conversa numa noite fria de sexta-feira, no ano passado, quando juntaram uma única perna de linguiça e fizeram uma sopa que rendeu 20 quentinhas, distribuídas a moradores que habitam uma casa abandonada na região.
— A partir dali, percebemos que era possível fazer algo com o pouco que tínhamos. Nunca mais paramos. Na verdade, desde a terceira saída passamos a contar com doações, que só crescem a cada semana — comemora Bruna.

Os quatro seguem firmes e ainda conseguiram sensibilizar familiares, amigos e vizinhos para a iniciativa solidária. Hoje, o Juntos Somos Mais reúne quase uma centena de voluntários, que se revezam nos trabalhos a cada sexta-feira.
— Tem gente que chega com um quilinho aberto de comida, mas que faz questão de dividir o que pouco que tem. Uma vez, um morador de rua tirou do bolso os R$ 10 que ele havia ganho da reciclagem e pediu para contribuir com a nossa causa. É emocionante a mobilização — garante Alexandre, que por ser o mais comunicativo do grupo acaba conquistando a confiança dos moradores de rua na primeira abordagem. 

Na noite de 23 de junho, a reportagem do Diário Gaúcho acompanhou a movimentação entre 20h e 2h, desde a preparação das quentinhas com arroz, polenta, carne com molho, legumes refogados, pão, café e sobremesa — são cerca de cem — e outros quitutes até as 11 primeiras abordagens nas ruas de Cachoeirinha. A ação, que percorreu ruas e avenidas de Cachoeirinha e Porto Alegre, se estendeu até as 13h do sábado, quando Alexandre deixou dois moradores de rua da Capital numa clínica de recuperação de dependentes químicos, em Gravataí. Eles pediram ajuda e o grupo decidiu auxiliá-los no primeiro passo para deixarem o vício.

O Juntos Somos Mais aceita todo o tipo de doação, de comida a roupas e calçados. Tudo é repassado a quem precisa e documentado no grupo, numa rede social.
— Às vezes, um pensamento positivo, um vai com Deus, já nos ajuda bastante. Já nos conforta o coração, saber que a gente pode fazer algo de bom — resume Alexandre, apoiado por todos os voluntários. 

João cuida do fogo Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Ritmo acelerado 
A movimentação na cozinha começou quando Alexandre chegou com os legumes doados e o costureiro João Carlos Ribeiro, 59 anos, colocou a lenha no fogão. Cada voluntário se dedicou a uma tarefa: lavar panelas, separar o arroz, cortar as verduras e a carne, organizar as embalagens descartáveis que mantiveram a comida aquecida.
— Como numa fábrica, temos um horário para dar certo lá no final. Até meia-noite, tudo tem que estar pronto para a próxima turma seguir na distribuição — comentou João, enquanto ajeitava mais um taco de madeira no fogo. 

Hora de fazer a polenta
À frente das panelas ficou a mulher de João Carlos, a também costureira Eva Ribeiro, 58 anos. Ao saber qual era o cardápio da noite, que dependeu das doações arrecadadas na semana, ela não perdeu tempo e foi separando os ingredientes na ordem de cozimento. Elétrica, em segundos saiu da mesa para o fogão, da geladeira para o armário e sempre controlando quatro ou cinco pratos ao mesmo tempo. E fez questão até de mexer a polenta, pois a receita entra no cardápio.

Assim como o marido, ela abraçou a causa das filhas e dos genros, sem pensar em descansar depois das horas de trabalho nas sextas-feiras.
— O meu final de semana só começa depois que a última panela foi esvaziada e limpa. Este trabalho nos enche de alegria para os dias seguintes — garantiu Eva.

Concentração no hora de preencher as quentinhas Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Linha de produção
Por volta das 22h30min, quando todos pratos que iriam compor a quentinha ficaram prontos, várias mãos ocuparam a mesa do salão. Foram necessárias pelo menos dez pessoas para que a linha de produção se mantivesse. Começou com a separação das embalagens, depois seguiu a colocação do arroz, dos legumes refogados, da polenta, da carne com molho, mais algum acompanhamento, até chegar a quem fecharia cada embalagem e a guardaria no isopor. Em outro extremo, outros voluntários começaram a limpar o fogão a lenha, lavar pratos e talheres, separar as roupas que serão doadas, passar o café e separar os pães em pequenos envelopes unitários.
— Há voluntários que nos doam ração para levarmos aos cães dos moradores. São os melhores amigos deles e merecem carinho também — justificou Bruna.

Rafael pede ajuda ao pai Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

De pai para filho 
Na ponta da mesa, o voluntário mais jovem se esmera para aprender com os pais a lida de ajudar ao próximo. Rafael Ribeiro Goularte, oito anos, filho de Bruna e Cristiano, participa ativamente de todo o processo e faz questão de fechar as quentinhas.
— Filho, você tem que apertar forte para ela não abrir _ explica Cristiano.
— Assim, pai? — questiona Rafael, apertando com cuidado cada parte da embalagem de alumínio e olhando com atenção como o pai faz.

Quando se encerra a parte final da linha, Rafael ajuda no que for preciso. Só dorme depois que o serviço segue para a parte mais importante: a rua. 

A hora da rua
Num comboio que reuniu sete carros, incluindo voluntários que chegaram especialmente para esta etapa, como o programador de produção Diego Thomasini de Melo, 35 anos, vizinho de Alexandre e Cristina, o grupo partiu com um trajeto pré-definido.

Antes de seguirem pelas principais avenidas até Porto Alegre, percorreram trechos dentro do próprio bairro onde costumam encontrar moradores. Alexandre sempre é o primeiro a se aproximar. Como já conhece parte dos grupos, tem facilidade de conversar e até conhece os cães pelos nomes. Sem temer o desconhecido, entra em prédios abandonados, caminha por ruas e becos sem iluminação e sempre volta com o sorriso de quem encontrou alguém e pode ajudar.
— Já houve situações em que paramos o carro no meio da rua e o rapaz, que caminhava sozinho pela estrada, levou um susto, parou e levantou os braços. Quando viu que só queríamos ajudar, voltou a respirar tranquilo — recordou Alexandre.

Na madrugada de 24 de junho, Alexandro Schultz, 45 anos, natural de Torres e vivendo nas ruas há 12 anos, foi um dos primeiros a receber o aconchego do Juntos Somos Mais. Ainda à distância, ao ver a aproximação dos carros, abriu um sorriso. Usuário de crack, garantiu que quer deixar a droga, mas ainda falta coragem.
— Não estou muito bem, estou só com um pulmão funcionando direito. Tenho um filho de 22 anos morando em Cachoeirinha, mas não me aproximo porque estou nesta situação. Vivo só com o que ganho da reciclagem, mas procuro não incomodar ninguém — justificou à reportagem, depois de ganhar quentinha, café e agasalhos.

Até Bimbo, o fiel cão de Alexandro, ganhou alimentação para uma semana. O grupo ainda deixou comida para um colega que divide a marquise com o morador no período da noite.
— Por mais triste que seja a nossa situação, se a gente olhar para fora, se a gente olhar para o nosso irmãozinho do lado, a gente vai ver que nós somos abençoados — resumiu Alexandre, depois de se despedir e seguir na ação solidária.  

Coberta e carinho para morador de rua desacordado Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Homem recebe cobertas
Já na Avenida Flores da Cunha, em direção a Porto Alegre, o carro que abria o comboio, e onde estavam Alexandre e Diego, para rispidamente no estacionamento de um calçadão. Os integrantes dos outros carros descem correndo e seguem os dois, que caminharam rápido em direção à marquise de uma loja. No canto direito do prédio, caído no chão de cerâmica, estava um homem. Parecendo desmaiado ou fora de si, o homem não responde aos estímulos de Diego, que ouve os batimentos cardíacos do morador de rua.

Uma jovem que acompanhava o grupo pela primeira vez acaba sendo amparada por outros voluntários e sai da cena chorando, chocada com a situação do homem solitário. Outros deixam um prato de comida e café para quando o rapaz acordar no dia seguinte.
— Ele está sob o efeito de álcool ou drogas, não vai nos perceber agora. Vamos ajeitá-lo, colocar umas cobertas para que ele se mantenha quente, pois já está esfriando. É capaz de morrer de frio, se seguir nesta situação — explicou Diego. 

Tereza (de touca) sorri enquanto conversa com voluntários Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Sorrisos e lição de vida
Depois de distribuírem doações em dez abordagens, por volta das 2h, o grupo parou ao lado de um carrinho de reciclagem que à noite é a moradia do casal Paulo Alves, 40 anos, e Tereza Rodrigues, 35 anos, juntos desde 2013. Paulo é o primeiro a atender aos voluntários e a ganhar os alimentos. Tereza, com vergonha por estar sem pentear o cabelo, demora para sair da cabana improvisada. Mas quando sai, recebe a todos com um sorriso largo antes de contar parte da própria história.
— Vim do Paraná há dez anos, meus filhos estão com a minha família. Estão melhor com eles. Já trabalhei em supermercado e em loja, mas hoje estou na rua. Tenho vergonha porque sinto o preconceito das pessoas quando me aproximo. Um limpo, às vezes é mais ladrão do que uma pessoa da rua — ensina Tereza, enquanto vê os voluntários em silêncio ouvindo com atenção as palavras dela.

Tereza relata que às sextas-feiras faz questão de esperar pelo Juntos Somos Mais porque adora a comida oferecida. Os considera uma família: 
— A gente, às vezes, só quer ser ouvido, ter um pouco de atenção também. Não incomodamos ninguém. Juntamos as nossas latinhas e não desejamos o mal porque estaríamos fazendo mal também pra nós — agradeceu em nome do casal, enquanto experimentava a bota, a touca e a mante recebida dos voluntários emocionados.
— Eles precisam da gente, e eles nos mostram como a gente deve ser perseverante — finalizou Alexandre, antes de se despedir da reportagem e seguir noite adentro.

Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Para ajudar 
* O grupo aceita doações de alimentos em geral, pães, café, legumes e voluntários.
* Contatos pela página ww.facebook.com/FeComAtitude e pelo WhatsApp 98238-7529
























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