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Caos na segurança24/07/2017 | 09h01Atualizada em 24/07/2017 | 09h01

Guerra do tráfico fecha definitivamente posto de saúde na zona sul de Porto Alegre

Na Vila dos Sargentos, no Bairro Serraria, comunidade está desassistida e precisa percorrer até 6km para buscar atendimento alternativo 

Guerra do tráfico fecha definitivamente posto de saúde na zona sul de Porto Alegre Eduardo Torres/Diário Gaúcho
Medo toma conta e atendimento é encerrado definitivamente na Serraria Foto: Eduardo Torres / Diário Gaúcho

O tráfico está dando as ordens na Vila dos Sargentos, no Bairro Serraria, na Zona Sul de Porto Alegre. A guerra entre facções rivais motivou o fechamento em definitivo da única unidade de saúde responsável por atender aos mais de 5 mil moradores da região. Segundo o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), o encerramento das atividades causado pela violência é algo inédito na Capital, mas a Secretaria Municipal da Saúde não confirma. Para o atendimento médico via Sistema Único de Saúde (Sus), os usuários precisam percorrer um deslocamento de até 6km. São eles os que mais sofrem as consequências diretas da derrota do Estado para o crime.

Encravada no meio de uma das regiões onde a disputa do tráfico vem sendo travada há mais de dois anos em Porto Alegre, a unidade de saúde Morro dos Sargentos, na vila de mesmo nome, no Bairro Serraria, na Zona Sul, fechou as portas em definitivo no dia 23 de junho. Esta é a primeira vez na Capital, segundo o Simers, que um posto encerra as atividades dentro de uma comunidade por conta da violência. A Secretaria Municipal da Saúde não confirma o fato de ser um caso inédito. Cita, por email, que a Unidade Básica Mato Grosso já havia sido fechada pelo mesmo problema, em 2015. Para este caso, porém, o Simers lembra que havia uma questão estrutural do prédio. Sobre detalhes do fechamento na Vila dos Sargentos, gestores da Secretaria preferiram não se manifestar.

Inaugurada num prédio cedido por moradores há 20 anos, a UBS foi referência aos 5.477 moradores da Vila dos Sargentos. Cerca de 80 atendimentos diários eram realizados. Em nota, a Saúde informou que discute junto ao Exército a cedência de uma área na entrada da comunidade, onde seria construído um novo prédio a menos de 1km do anterior. Até lá, os 14 funcionários da antiga unidade seguirão atendendo em outros dois postos: em Ipanema e Guarujá.

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Segundo a própria Secretaria, o estopim para a decisão ocorreu em 23 de junho, quando um tiroteio fez os funcionários deixarem o posto escoltados pela Brigada Militar. Por WhatsApp, a diretora do Simers, Clarissa Bassin, recebeu pedidos de socorro vindos da UBS:

— Eles não podiam sair. Então, acionamos a gerência distrital, a Guarda Municipal e os grupos de segurança para escolta. Foi uma situação dramática.

Secretário da Saúde, Erno Herzheim alegou a violência como motivo do fechamento. 

— A estrutura física do local não é adequada para a saída rápida dos funcionários. Esta é uma atitude preventiva — disse Erno, na época. 

Entre quem atuava na unidade, o silêncio impera.

— Os funcionários eram levados e buscados numa van da prefeitura, na tentativa de mantê-los atuando. Mas ficou impossível — conta um funcionário da Secretaria.

Questionado sobre o fechamento do posto e a perda de espaço da administração pública para o tráfico, o prefeito Nelson Marchezan limitou-se a salientar que ¿a escalada de violência na Capital nos últimos anos é assustadora. União de todas as forças de segurança, tecnologia e inteligência de segurança, a criação de novas oportunidades, são algumas das nossas ações. Sabemos que estamos no caminho certo. Ele é longo. Vamos perder algumas batalhas, mas não vamos desistir de mudar o rumo da cidade¿. 

Contatada, a BM não havia retornado até o fechamento da edição.

Solução a 6km de distância

Desde junho, cadastrados na unidade da Vila dos Sargentos precisam se deslocar 3km até a US Guarujá (Avenida Guarujá, 190) ou 6km até a US Ipanema (Avenida Tramandaí, 351). As duas equipes de saúde da família que atendiam na Vila dos Sargentos foram deslocadas e são escaladas conforme a necessidade. Os atendimentos ocorrem das 7h às 18h, de segunda a sexta-feira.

Reféns do crime

Em 2011, BM instalou posto móvel, que já não existe Foto: Cynthia Vanzella / Agencia RBS

Localizada nos fundos de um terreno do Exército, no morro que segue até as margens do Guaíba, a Vila dos Sargentos existe há mais de 50 anos e tem cerca de 40 ruas e vielas repletas de casas e casebres. Desde o crescimento da escalada de violência, com vítimas de balas perdidas e esquartejamentos, a situação fez calar quem vive na região. É comum, também, quem coleciona cartuchos deixados para trás nas trocas de tiros entre as facções.

Moradora há 30 anos de uma das principais ruas da comunidade, uma mulher, que pediu para não ser identificada, conta a alteração na rotina antes sossegada de quem vive na vila.

— Se a gente (moradores) volta de carro à noite, precisa deixar o vidro aberto e dar sinal com o farol quando vai entrar na Rua D. Eles (bandidos) andam armados nas ruas em qualquer hora do dia. Quando tudo era tranquilo, eu gostava de caminhar e de falar com os vizinhos. Agora, só saio mais longe de casa se preciso ir ao posto de saúde. Tento levar uma vida normal. No fundo, a gente sabe que não é — desabafa.

Foi pensando na própria liberdade que um morador dos Sargentos vendeu por R$ 60 mil a casa de alvenaria com três quartos e duas garagens. Hoje, em outra região da cidade, ele divide duas peças com a mulher e os filhos. Confessa, porém, não dormir direito por lembrar dos familiares ainda na vila.

— A decisão de sair surgiu quando meu filho foi barrado por um bandido perto da pedra (entrada da vila). O guri voltava da escola e não foi reconhecido. Entrei em pânico ao vê-lo com o braço segurado por um cara do tráfico. No mesmo dia, saí oferecendo a casa por qualquer dinheiro. O maior problema é que os bandidos não se criaram lá e, por isso, agridem até os moradores. Cresci naquele lugar, e é triste ver o abandono que virou — lamenta.

Ações tentam garantir continuidade do serviço

Conforme o secretário municipal de Segurança, Kleber Senisse, a Brigada Militar sempre deu suporte aos funcionários do posto da Sargentos. Porém, os fatos recentes envolvendo violência na comunidade fizeram a equipe da unidade temer o retorno. 

— O posto não está num local com fácil acesso. Isso impediria uma saída de emergência, por exemplo — diz Kleber.

Devido aos altos índices de criminalidade em regiões onde há postos de saúde, como comprova o levantamento do Simers, a Secretaria Municipal de Segurança vem realizando ações que permitam a continuidade do trabalho nestas regiões. Três unidades – Bom Jesus, Lomba do Pinheiro e Cruzeiro – fazem parte do programa piloto que iniciou com a instalação de um gabinete de segurança formado por funcionários, usuários e integrantes de diferentes secretarias, incluindo o secretário. São realizadas reuniões quinzenais e há um canal de emergência, via grupo de WhatsApp, para eventualidades.

— Estamos avaliando questões de engenharia, recursos humanos, operação e mudando procedimentos em situações de risco. Vamos melhorar as condições de iluminação e calçamento também — diz Kleber.

A Secretaria também implantou nas unidades pilotos um rádio digital para a comunicação rápida com o Centro Integrado de Comando da Cidade de Porto Alegre (Ceic). Nesta semana, o diretor do Pronto Atendimento da Cruzeiro do Sul (Pacs), pediatra Eduardo Osório Junior, que trabalha na unidade há mais de duas décadas, testou o rádio instalado dentro do Centro de Saúde Vila dos Comerciários.

— Antes da implantação do gabinete de segurança, precisávamos pedir autorização para agirmos. Agora, temos autonomia para tomarmos a decisão no momento em que ocorre a situação. O rádio agilizará o pedido de ajuda ao Ceic, enquanto fechamos a unidade e abrigamos quem está dentro do prédio durante qualquer evento externo de violência — explica o médico.

Rádio digital permite comunicação rápida com Centro Integrado de Comando da Cidade de Porto Alegre Foto: Brayan Martins / PMPA

Cruz Vermelha dá treinamento para situações de conflito

Entre as ações realizadas pela prefeitura, uma delas era restrita a cidades conflagradas, como o Rio de Janeiro. Desde junho do ano passado, como o Diário Gaúcho mostrou, treinamentos para situações de risco estão sendo realizados com profissionais das unidades de Porto Alegre participantes do programa piloto de segurança. Representantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, especializados em proteção e assistência a vítimas de guerra e de outras formas de violência, qualificaram os funcionários a se defenderem em situações de conflito – ou como a Secretaria de Segurança chama: ¿situações anormais¿.

— Eles aprenderam como se comportar durante um tiroteio e como deixar o local em segurança, em casos extremos — relata Kleber.

Na capacitação, foi abordada a estratégia do acesso mais seguro, direcionada à proteção de servidores e da população em territórios de conflitos. Cada unidade, dependendo da região, explica o secretário, tem estratégias diferentes de segurança a serem adotadas. A meta é não suspender os atendimentos, como ocorreu na Vila dos Sargentos. Segundo Kleber, a ideia é que os treinados multipliquem o conhecimento aos colegas.

¿Há uma guerra civil não declarada¿

Até a metade deste mês, o Simers havia contabilizado 21 casos de violência próximo ou dentro de unidades de saúde no Estado. Do total, 11 foram em Porto Alegre, incluindo o da Vila dos Sargentos. De 2014 a 2017, o Rio Grande do Sul contabiliza 83 casos de violência em unidades de saúde. Do total, 53 na Capital.

Para o presidente do Simers, Paulo de Argollo Mendes, o fechamento do posto dos Sargentos não surpreende. Ele relata que trabalhar sob pressão da violência se tornou rotineiro:

— É preciso repensar a presença do Estado nestes lugares, criando uma zona cercada e iluminada para abrigar a escola, a unidade de saúde e o posto da Brigada, todos reunidos para se defender e intimidar. Hoje, há uma guerra civil não declarada na cidade, e a Vila dos Sargentos é o primeiro lugar a sentir a situação. 

Fortaleza de facção criminosa

Em 2014, atividades já haviam sido suspensas temporariamente Foto: Eduardo Torres / Diário Gaúcho

Em agosto de 2011, criminosos mataram aquele que, até pouco tempo antes, era temido na Vila dos Sargentos como a principal liderança do tráfico de drogas da região. Leandro Pinto Tanhote, o Leandrinho, foi o braço forte de uma das facções criminosas mais violentas da Região Metropolitana, mas havia caído em desgraça com o grupo ao acumular uma dívida de R$ 10 mil. Virou alvo e exemplo.

O corpo foi exposto e passou em desfile pelas vielas da vila. Depois, foi decapitado, e a cabeça, jogada no pátio de um motel da Zona Sul de Porto Alegre. Inaugurava-se ali o método de matar que, agora, é uma das faces mais violentas da guerra do tráfico de Porto Alegre.

A geografia da localidade – em uma ponta de Porto Alegre –, com elevação que permite visão privilegiada aos criminosos sobre quem chega e circula na região, sempre foi o atrativo para que a facção criminosa surgida no Bairro Bom Jesus fixasse ali, por meio de alianças, um dos seus primeiros domínios fora da sua área original. Em pouco tempo, o traficante Fábio Fogassa, atualmente preso na Pasc, em Charqueadas, criou, conforme a polícia, um pequeno império.

Investigações apontam a Vila dos Sargentos como uma das localidades usadas pela facção para esconder drogas e armas, além de fornecer soldados para confrontos com rivais. Desde 2016, criminosos da vila travam uma guerra com rivais do Beco do Adelar. (EDUARDO TORRES)

 

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