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Educação09/08/2017 | 07h03Atualizada em 09/08/2017 | 09h46

Lição de superação: de funcionária da limpeza a professora, na mesma escola

Duas décadas depois de trabalhar na limpeza em escola municipal do Bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, Ana Amélia da Silva, 52 anos, voltou à instituição para ser professora 

Lição de superação: de funcionária da limpeza a professora, na mesma escola Mateus Bruxel/Agencia RBS
Na sala de aula onde tudo começou Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Ao cruzar a porta da sala 228 da Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hilaire, no Bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, a professora de História Ana Amélia da Silva, 52 anos, fechou um ciclo e imediatamente começou um novo, na semana passada. Era o mesmo lugar onde, há 15 anos, ela havia se formado na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e se despedido da função de funcionária da limpeza da escola.

Nomeada pela prefeitura de Porto Alegre, no mês passado, para assumir uma das vagas na rede municipal, Ana Amélia surpreendeu-se ao ser indicada para atuar na Saint Hilaire. Na mesma hora, um roteiro da própria vida voltou à memória da mulher. Foi ao trabalhar na faxina da escola que ela retomou os estudos, abandonados antes da conclusão do ensino fundamental.

— Deu um arrepio entrar no lugar onde tudo começou e rever os professores que me inspiraram a mudar o meu caminho — comenta. 

Na primeira semana como professora na escola Saint Hilaire Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

A ligação de Ana Amélia com a Saint Hilaire teve início na década de 1990, quando levava os filhos à escola. Em 1997, contratada por uma empresa terceirizada para trabalhar na limpeza da instituição, ela ficou ainda mais próxima. De tanto ajudar voluntariamente os professores no lidar com os pequenos durante o recreio, passou a receber incentivos para se tornar professora. Na época com 36 anos, a então serviços gerais inventava desculpas e fugia dos livros.

— Dizia que não gostava de criança, que não teria tempo. Na verdade, estava com medo de recomeçar depois de tanto tempo parada — confessa. 

Foram anos de preparação para o retorno Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Longo caminho
Somente quatro anos depois, com a criação das séries finais da EJA na Saint Hilaire, Ana Amélia tomou a coragem de voltar aos cadernos. A decisão foi apoiada pela família e transformada em meta da nova vida. Concluído o ensino fundamental, ela passou no concurso do Estado para ser agente educacional II — limpeza — e fez o ensino médio na EJA do Centro de Ensino Médio Tiradentes, onde trabalhava. Determinada, Ana Amélia ainda cursou outros dois anos de Magistério no Instituto Estadual de Educação Paulo da Gama.

— Não parei mais. Estava escrito: seria professora. A próxima etapa foi ingressar em história na graduação. No início da faculdade, passei num concurso para dar aulas nas séries iniciais em Alvorada. Lá foi a minha primeira experiência como docente — recorda.

Ao todo, Ana Amélia já passou em seis concursos públicos na área da educação, na Capital e na Região Metropolitana. O mais recente foi em Porto Alegre. Pela manhã, na Saint Hilaire, ela é professora volante de 120 alunos do primeiro ciclo e atende o primeiro, o segundo e o terceiro anos. À tarde, atua como referência de uma turma do segundo ano na EMEF São Pedro, no mesmo bairro.

— Fui dona de casa durante 20 anos. Neste período, não tive qualquer perspectiva de mudar. O conhecimento ampliou os meus horizontes e me fez perceber que nada é impossível — relata, entusiasmada. 

Gabriela e Ivo foram exemplos seguidos por Ana Amélia Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Referência
Entre os professores que mostraram este novo caminho à Ana Amélia quando ainda era aluna na Saint Hilaire, dois viraram referências para ela: Gabriela de Camilis, de língua espanhola e coordenadora pedagógica, e Ivo Luis Viana, de história. Ambos seguem atuando na escola. O reencontro com a ex-discente foi marcado pela emoção.

— A Ana Amélia era uma ótima aluna. Queria aprender mesmo. Hoje, saber que fui inspiração para ela me impacta muito — afirma Gabriela.

— Ela era abnegada. Apesar de eu ser professor de história, cobrava muito a língua portuguesa dos alunos. Afinal, estamos aqui para ajudá-los na disciplina e na educação para a vida. Penso que meu dever foi cumprido quando vejo minha ex-aluna sendo minha colega — completa Ivo. 

Alunos demonstram carinho pela professora Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Se na época em que engatinhava sobre os estudos Ana Amélia reclamava das exigências de Gabriela e de Ivo Luis, hoje, ela entende cada correção feita nos trabalhos entregues. E isso, garante, lhe ajudou a ser uma professora mais compreensiva e dedicada aos pupilos. O resultado é percebido em sala de aula: a cada novo trabalho corrigido, Ana Amélia ganha longos abraços dos pequenos. 


 

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