Escola de Viamão cria coral que reúne crianças com e sem limitações - Notícias

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Exemplo de inclusão02/12/2017 | 07h00Atualizada em 02/12/2017 | 07h00

Escola de Viamão cria coral que reúne crianças com e sem limitações

Atividade da Escola Jardim Outeiral, inicialmente voltada para alunos com dificuldade de aprendizagem, hoje reúne estudantes em ambiente de inclusão

Escola de Viamão cria coral que reúne crianças com e sem limitações Mateus Bruxel/Agencia RBS
Ensaio do coral da Escola Jardim Outeiral Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

— Eu me sentia triste porque eu não posso caminhar. Agora, fico muito feliz porque consigo cantar.

A frase de Everton Lima da Conceição, nove anos, que tem a doença conhecida como ossos de vidro, cuja principal característica é a fragilidade dos ossos, que quebram com grande facilidade, define bem a transformação que o coral de uma escola de Viamão fez na vida de alunos com e sem necessidades especiais. 

O que parecia uma singela tentativa de ajudar crianças com necessidades especiais a aprenderem a ler virou uma atividade extraclasse que deu nova cor ao cotidiano dos estudantes da Escola Municipal de Ensino Fundamental Jardim Outeiral. 

A professora Rosane Kasper criou um coral com alunos especiais na tentativa de que, decorando a letras das músicas, os alunos tivessem mais facilidade para aprender a ler. A ideia não só deu certo como atraiu os demais alunos também. 

VIAMÂO, RS, BRASIL, 16-11-2017: Estudantes do coral inclusivo da Escola Municipal Jardim Outeiral e a professora Rosana Kasper, na instituição, em Viamão. (Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS)
Alunos com a professora RosanaFoto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Criado no começo do ano passado, o coral reunia 18 crianças com limitações como síndrome de Down, autismo e déficit de atenção. Hoje possui 30, entre alunos com e sem limitações.

— Eu pensava em criar um meio de estimular o desejo deles de ler, uma forma de tornar isso prazeroso. Não tinha a dimensão do que o coral iria se tornar — comemora a professora Rosane, psicopedagoga que coordena as aulas na sala de recursos. 

Com a melodia dedilhada no teclado do professor Maurício Machado, a turma entoa canções como Eu Quero Apenas, Meus Amigos e Somos Iguais. Maurício vê a evolução cognitiva da turma a cada ensaio. São dez músicas que a gurizada já domina: 

— Vi as crianças aprendendo a ler no coral. Também fui aprendendo a me comunicar com eles. Alguns eram tão introvertidos que nem me cumprimentavam, agora são outros alunos — emociona-se.

Dentro da sala de aula, a mudança também é perceptível:

— Os alunos, de um modo geral, estão mais independentes. Alguns eram retraídos e, hoje, têm certa autonomia _ conta a professora do do quinho ano Silvia Moraes, que também é mãe de Angelica, 12 anos, integrante do coral. 

— Conseguimos aprender melhor, somos mais obedientes, sabemos até o canto da tabuada — orgulha-se Gabriel Victoria da Silva, sete anos, aluna do 1º ano. 

"Aprendi que todo mundo é igual"
Ao Diário Gaúcho, que acompanhou uma tarde de ensaios em novembro, as crianças confidenciaram o quanto se sentem felizes no coral.

— Aqui, fiz amigos novos e aprendi que todo mundo é igual — diz Ketlellen Camargo, oito anos, aluna do segundo ano. 

 VIAMÂO, RS, BRASIL, 16-11-2017: Os alunos Maria Luisa Lucas e Kelvin brincam durante ensaio do coral inclusivo da Escola Municipal Jardim Outeiral, em Viamão. (Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS)
Maria Luisa e Kelvin: amizade que nasceu no coralFoto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

— O coral é como a nossa família — admite Maria Luisa Lucas, nove anos.

Eles mesmos reconhecem o avanço da alfabetização por meio da música.

— Antes, eu lia um pouco, agora, leio bem. Escrevo as letras no caderno, sei cantar cinco músicas do coral  — assume João Carlos da Silva Rodrigues, 15 anos, aluno do quinto ano que tem retardo mental moderado. 

O espírito de equipe e união surpreende. Juntos, um se dedica ao outro:

— Os demais alunos cuidam dos especiais. Os alunos não laudados que entraram no coral eram apagados e começaram a brilhar na escola. A autoestima deles é outra, se sentem importantes _ considera a professora. 

— É preciso ter paciência e cuidado com o colega — ensina Maria Luisa Lucas, nove anos, aluna do quarto ano.

 VIAMÂO, RS, BRASIL, 16-11-2017: Ensaio do coral inclusivo da Escola Municipal Jardim Outeiral, em Viamão. (Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS)
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Evolução nas apresentações e autógrafos
As apresentações do grupo hoje em nada lembram a primeira, no Dia das Mães do ano passado. Naquele dia, todos os integrantes do coral se comprometeram a estar no evento. Só três compareceram:

— Eles tinham uma insegurança, uma vergonha. Fiquei impactada com aquilo. Chamamos as mães para ajudar, senão, não teria apresentação — lembra Rosana. 

O episódio não lembra nem de longe o comportamento dos alunos nas apresentações de agora. São chamados por escolas e entidades e até já deram autógrafos. Estufam o peito para cantar e são desinibidos. Já começam a cantoria no ônibus, no trajeto até a apresentação. 

Parceria com as mães garante sucesso
A proximidade das famílias com o coral é fundamental para que a iniciativa funcione e os pequenos tenham segurança ao soltar o gogó. As mães têm um grupo no WhatsApp com a professora Rosana e o professor de música, Maurício, em que o contato próximo faz toda diferença. O aplicativo é utilizado para agilizar o trabalho de sala de aula. A cada nova música, os professores mandam um áudio com a canção, outro áudio apenas com a melodia e, por último, a letra. Assim, a criança pode ir praticando, e lendo, em casa, com a participação da família.

— Muitas chegam aqui com a letra quase decorada, existe todo um envolvimento com a famílias. Há músicas longas, com cinco ou seis estrofes, que, no segundo ensaio, eles já decoram  — conta o professor Maurício. 

VIAMÂO, RS, BRASIL, 16-11-2017: Mães de alunos que integram o coral inclusivo da Escola Municipal Jardim Outeiral e a professora Rosana Kasper (de pé, C), na instituição, em Viamão. (Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS)
Empenho e participação das mães é fundamentalFoto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

A participação dos pais também foi fundamental para a confecção dos trajes do coral. Hoje, eles têm roupas para apresentações no inverno e no verão graças à venda de rifas. Foram os pais que trouxeram itens para serem rifados. 

— A família participando é outra coisa. Se eu tivesse mães relapsas, o coral não estaria tão bom como está agora. Se a gente precisa de um sapato, uma mãe ajuda, se falta outra coisa, sempre tem alguém que, se não resolve o problema, sabe quem pode ajudar — afirma Rosana.

No dia em que o DG visitou a escola, enquanto acontecia o ensaio dentro da sala de aula, do lado de fora estavam as mães, sentadas lado a lado, concentradas, ouvindo a cantoria dos pequenos.

Palavra de mãe
"Ele começou a ler no coral, entrou semianalfabeto. Todas as amizades deles são do coral. Ele sabe o dia e a hora dos ensaios, nas apresentações fora da escola, vibra. O social dele está se desenvolvendo como nunca."
Leila Dorneles Pereira, 51 anos, mãe de Marlon, 17 anos, que tem síndrome de Down

"Ele começou a alfabetização no coral. Era tímido, não cumprimentava as pessoas. Agora, está alfabetizado, mais solto, interage com os outros. Uma mudança muito grande. "
Tania Brito da Silva, 48 anos, mãe de Kelvin, que tem leve retardo mental

"Em casa, Gabriely nos ouve mais. Ela sempre adorou música, agora tem o coral como o compromisso mais importante para ela."
Kathleen da Silva, 27 anos, mãe da Gabriely Victoria

"Ela foi a primeira aluna não laudada a entrar no grupo, no final do ano passado. Se dá bem com todos, ajuda. Para ela, todo mundo é igual."
Leticia da Silva Lucas, mãe da Maria Luísa, nove anos

"Ela adora o coral, gosta muito da professora, está mais educada. Acolhe todo mundo, abraça, tem carinho por todos. "
Viviane da Rosa Araújo, 31 anos, mãe de Kemerlyn, dez anos, tem déficit de atenção

"Meu filho era introspectivo, isolado na escola. O coral despertou a confiança nele mesmo e a autoestima. Operou um milagre nele."
Andreia Stradolini, 42 anos, merendeira, mãe de Rodrigo, 12 anos 

"Para a minha filha, foi ótimo, ela era birrenta. Hoje, sabe dividir a atenção, está mais calma e enturmada."
Marília Seco Rodrigues, 28 anos, servente da escola, Hadassa, sete anos 






 

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