Manoel Soares: Pantera Negra e criança branca  - Notícias

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HERÓIS19/02/2018 | 10h41

Manoel Soares: Pantera Negra e criança branca 

Para o jornalista, o Pantera Negra não deve ser inspiração por ser negro, mas por ser destemido, corajoso e justo

Acho fundamental que negros tenham um herói como Pantera Negra e se vejam no espelho como filhos de Wakanda. 

Os heróis negros até existiram, mas em uma existência invisível, assim como o sucesso negro na vida real. Isso produziu uma mutação social na cabeça das crianças negras, que não entendiam ao certo por que "O Bem" não se parecia com elas, já que elas eram boas. Para compensar esse desequilíbrio do mundo dos adultos, elas se travestiam, as meninas negras colocavam camisetas na cabeça para ter o cabelo liso da Mulher-Maravilha e os meninos acabavam sendo o Incrível Hulk, isso porque criamos heróis verdes antes de heróis negros.

Não precisamos da aprovação dos brancos para legitimar nossos heróis, mas eles precisam de nossos heróis para evoluir como pessoas.

Mas, em um país como o Brasil, a evolução não somente é que os negros possam se ver como heróis, mas que crianças brancas assistam e queiram ser Panteras Negras também, assim como por anos crianças negras queriam ser Superman ou Batman. Não falo isso para inverter a lógica da opressão, mas para ampliar a paleta de cores de nosso conceito social. 

Porém, o Pantera Negra não deve ser inspiração por ser negro, mas por ser destemido, corajoso e justo. 

Assim como Flash, Homem de Ferro, Thor, entre outros, não nos inspiraram por serem brancos, mas pelas qualidades que tinham em nosso imaginário. A cor da pele é uma armadilha que requer nossa atenção, a linha que divide a manutenção de representatividade e a autossegregação inconsciente é muito fina. Neste aspecto, o filme carrega um equilíbrio lindo, valores humanos e sociais úteis a todas as etnias enchem nossos olhos e a magia é que a pele negra é a casa dessas qualidades, e é nesse momento que o Pantera Negra ressignifica o olhar ao fazer a cor estigmatizada virar ponto de inspiração e carisma. Mas, se esses sentimentos ficarem guetificados na população negra, vamos segregar os olhares de afeto e cair na mesma valeta da invisibilidade em que apodrecem tantos outros heróis que tivemos e se perderam no tempo.

 Não precisamos da aprovação dos brancos para legitimar nossos heróis, mas eles precisam de nossos heróis para evoluir como pessoas. A ausência produz um silêncio estético que faz com que a voz do preconceito grite cada vez mais alto, e isso muda quando a criança branca vai ao cinema e deseja ser o Pantera Negra.

 

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