Felipe Bortolanza: "O Brasil que desaba" - Notícias

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Coluna da Maga02/05/2018 | 10h00Atualizada em 02/05/2018 | 10h00

Felipe Bortolanza: "O Brasil que desaba"

Felipe Bortolanza: "O Brasil que desaba" Banco de dados/Agência RBS
Foto: Banco de dados / Agência RBS

Relatos de vizinhos montam o perfil de um homem bom. Apesar de brigas com a ex-mulher e da distância mantida em relação às filhas, Ricardo tinha muitos amigos no condomínio. Era coordenador de seu andar, inclusive. Na madrugada de segunda para terça, foi acordado pelo cheiro de fumaça. Morava no nono pavimento. Quando percebeu que as chamas consumiam o prédio, o homem com cerca de 30 anos desceu as escadas acordando pessoas e ajudando mães e crianças a vencer os degraus e fugir das labaredas.

Foi isso que contaram alguns de seus amigos, horas depois. Ricardo, porém, tinha guardado dentro de si um espírito de herói que nem ele, talvez, suspeitasse. Ele voltou ao prédio. Queria resgatar amigos nos andares mais altos _ havia 24. E o homem que ganhava a vida descarregando produtos chineses  conseguiu. Quando tentou descer pela segunda vez, os caminhos estavam fechados pelo fogo. De uma janela, às 2h50min, um bombeiro alcançou um conjunto de cordas para que ele pudesse ser salvo pelo topo de um prédio vizinho.

Tudo parecia andar bem. Mas, de repente, um estrondo e o prédio desabou. Até a hora que escrevo, Ricardo não havia sido achado dos escombros do edifício Wilton Paes de Almeida, no Centro de São Paulo, ocupado irregularmente por centenas de famílias. A cena do prédio e de Ricardo caindo juntos foi filmada e será reprisada dezenas de vezes nesta semana.

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Popularidade no chão

E não foi apenas o herói anônimo que desabou naquela noite. Desabaram a farsa de uma política de habitação para os pobres. O prédio era um bomba-relógio. Segundo especialistas, o poder público sabia disso e nada fez. Agora, o torce para que nenhuma vítima seja achada. Mas a cada hora cresce o número de possíveis desaparecidos.

Quem apareceu, na manhã seguinte, foi o presidente Temer. Como estava em São Paulo, admitiu que era obrigação prestar solidariedade. Ali, teve a prova de que sua popularidade desabou há tempos. E, por pouco, não foi sufocado por um protesto que, improvisado, chegou perto da truculência.

Diante de um cenário do Brasil que desaba, tento buscar esperanças em heróis como Ricardo. 


 

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