Aos 77 anos, aposentado volta à escola para superar o luto - Notícias

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Superação23/06/2018 | 08h00Atualizada em 23/06/2018 | 08h00

Aos 77 anos, aposentado volta à escola para superar o luto

Eurides Rodrigues Filho perdeu a esposa em 2017. Eles ficaram casados durante 54 anos

Aos 77 anos, aposentado volta à escola para superar o luto Manoel Mallet/Arquivo Pessoal
Eurides adora estudar nas horas vagas Foto: Manoel Mallet / Arquivo Pessoal

Aos 77 anos, o corretor de imóveis aposentado Eurides Rodrigues Filho, de Porto Alegre, decidiu reverter a rotina que vinha experimentando há seis meses, desde a perda da mulher, Lucia Rodrigues, com quem foi casado durante 54 anos. Em luto, deprimido e recolhido na casa de uma filha, em Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, percebeu a necessidade de se renovar: voltou a estudar, depois de 40 anos sem frequentar a escola, e tornou-se exemplo entre os colegas mais jovens.

— Vi que precisava fazer alguma coisa quando ganhei um espaço cativo no sofá em frente à TV da sala. Estava virando um inútil — confessa o aposentado. 

Longe da escola desde 1978, quando conseguiu concluir o Ensino Médio iniciado em 1965, Eurides surpreendeu a família ao revelar a intenção de voltar aos estudos. Acreditava que, ocupando a mente com as aulas, amenizaria a dor da perda da companheira. Em março deste ano, depois de pesquisar as possibilidades de curso, encontrou o técnico em Agropecuária, com duração de dois anos e meio, ofertado pela Universidade do Trabalho do Uruguai (UTU) na cidade de Rio Branco, vizinha de Jaguarão. Mesmo sem saber uma palavra em espanhol, não se deteve. 

— As aulas já haviam iniciado e entrei numa lista de espera por uma vaga. Mas, para a minha própria surpresa, fui chamado 15 dias depois — conta, faceiro. 

Morador de Jaguarão, Eurides Rodrigues Filho, 77 anos, voltou a estudar depois de perder a esposa, em setembro de 2017.
Na frente da escola, no lado uruguaioFoto: Manoel Mallet / Arquivo Pessoal

Confiante

Eurides não se importou em ser o mais velho de toda a escola e chegou confiante ao primeiro dia de aula, mesmo enfrentando a desconfiança dos outros colegas e de um professor. Era o forasteiro da turma, recorda, aos risos. 

— O que o senhor está fazendo aqui? — questionou o mestre, em espanhol.

— Sou aluno novo, vim estudar — respondeu o aposentado, em português. 

— Tem certeza? — perguntou, novamente, o professor. 

— Absoluta! — afirmou Eurides, encerrando a conversa.

A partir daquele momento, o aposentado se tornou o estudante mais dedicado em sala de aula e o mais admirado entre os colegas — com idades entre os 16 e os 35 anos. Quando faz um questionamento, por exemplo, todo o restante silencia, em respeito a ele. 

— Chegar na sala de aula e ver o seu Eurides foi uma agradável surpresa, pois ele demonstra um companheirismo diferente. É leal aos colegas — comenta o professor Federico Gomez, que leciona maquinários, edafologia e tecnologias do arroz. 

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Exemplo para os mais jovens

Para a professora de espanhol Ana Maria Perdomo, a presença do estudante septuagenário em sala de aula é também uma oportunidade de trabalhar a questão da inclusão:

— É fantástico vê-lo muito disposto. Ele é muito interessado, um exemplo para os mais jovens. 

Aos poucos, Eurides passou a se comunicar em portunhol e tem, cada vez mais, aprendido a língua dos hermanos nas aulas diárias, que vão das 18h50min às 23h. Aprendeu tanto, que já programa com os novos amigos um evento para aproximar ainda mais a turma. 

— O Seu Eurides tem espírito jovem, sempre tem algo para contar — comenta Jordano Silveira, 19 anos, de Arroio Grande, que se mudou para Rio Branco para continuar os estudos. 

Morador de Jaguarão, Eurides Rodrigues Filho, 77 anos, de cabelos brancos, voltou a estudar depois de perder a esposa, em setembro de 2017.
Em sala de aula, com os colegasFoto: Manoel Mallet / Arquivo Pessoal

"Aproveite a vida ao máximo"

Para quem só fazia hortas dentro do apartamento da zona norte da Capital, Eurides conta animado que já aprendeu sobre o cultivo do arroz, o estudo do solo e já salvou um tomateiro que nasceu no pátio da casa da filha, em Jaguarão. 

— Deixo qualquer outro compromisso para não perder as aulas. A convivência e a troca de experiências têm sido maravilhosas. Estou me sentindo muito bem! — revela. 

Eurides não pensa em trabalhar na área no futuro, mas também não descarta a possibilidade. 

— A mente precisa estar funcionando o tempo inteiro. Se a pessoa tem a oportunidade de estar viva, como é o meu caso, precisa aproveitar a vida ao máximo! — recomenda o inquieto aposentado. 

 
 
 
 
 
 
 
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