Drama de um desempregado: "Não ter renda é desesperador" - Notícias

Vers?o mobile

 

PROCURA-SE EMPREGO19/09/2018 | 09h00Atualizada em 19/09/2018 | 09h00

Drama de um desempregado: "Não ter renda é desesperador"

Diário Gaúcho acompanha a saga de sete pessoas que lutam para voltar ao mercado de trabalho.

Drama de um desempregado: "Não ter renda é desesperador" Isadora Neumann/Agencia RBS
Luiz mora numa peça construída no pátio da casa da irmã, em Alvorada Foto: Isadora Neumann / Agencia RBS

Chega ao segundo mês a série sobre desemprego, publicada pelo Diário Gaúcho, a partir de pessoas que estiveram na fila do Sine Municipal na fria manhã do dia 9 de julho. Dos sete entrevistados, apenas um conseguiu emprego com carteira assinada. Nesta página, contamos a história de um homem de 52 anos que já acumula cinco meses sem renda mensal fixa. Seu relato ilustra o drama pelo qual passam, atualmente, cerca de 13 milhões de pessoas no Brasil.

Luiz perdeu o direito de escolher

A cada início de noite, ele vive a mesma expectativa.

_ Mana, alguém telefonou para mim?

_ Ninguém.

A expectativa, então, dá lugar à frustração. Tem sido assim a vida de Luiz Martins Porto nos últimos cinco meses. Aos 52 anos, pela primeira vez, está há tanto tempo sem carteira assinada. Os bicos são raros e rendem pouco. 

Tamanha é a dureza que nem celular ele tem. Por isso, depende do telefone da irmã. É o número de Águida Rejane que ele usa no currículo que distribui entre o centro de Porto Alegre o bairro Maria Regina, em Alvorada, onde mora.

Na verdade, quem mora na casa são a irmã, o marido, dois filhos e uma nora. Luiz está lá desde que foi demitido. Por isso, todos os dias, é o mesmo diálogo (e a mesma decepção) com Águida, que atua como segurança, na volta do serviço:

_ Graças a ela, não estou morando na rua. 

À noite, outra rotina de Luiz é checar no computador da irmã se alguma oferta de emprego chegou no e-mail dele. Ele busca trabalho como porteiro ou frentista. Mas já ampliou suas buscas para qualquer área. No currículo, se orgulha do curso de computação.

_ Perdi o direito de escolher. Não ter renda é desesperador.

Na conversa que teve com a reportagem na varanda da casa, Luiz repetiu a palavra "desesperador" inúmeras vezes. Ela ilustra a rotina de um dos 13,5 milhões de desempregados no Brasil. Durante o dia, Luiz corre rua com seu currículo. Quando acabam os papéis, o apelo é verbal:

_ Só em postos de gasolina, já larguei cem currículos entre Alvorada e a Avenida Farrapos, em Porto Alegre. Ultimamente, fico só na redondeza. Já tenho vergonha de pedir o dinheiro da passagem para meus familiares... Ida e volta dá R$ 10,60.

Luiz consultou o INSS para projetar sua aposentadoria. Outra má notícia. Seu tempo de contribuição não é suficiente para garantir uma renda por tempo de serviço. Só quando atingir a idade:

_ Quando peço emprego, perguntam  "quantos anos o senhor tem?". Sinto preconceito com pessoas acima dos 50.


No puxadinho, sonhando com fogão

 ALVORADA, RS, BRASIL, 12/092018:  Reportagem da série sobre desemprego. Na foto: Luiz Porto
Luiz está há cinco meses sem trabalho com carteira assinadaFoto: Isadora Neumann / Agencia RBS

Quando não está buscando vaga, Luiz passa as horas sozinho no puxadinho construído no pátio da casa da irmã. Numa peça com cerca de 10m², há uma cama, um banheiro e um roupeiro. Um aparelho de som, sintonizado em uma rádio sertaneja, é seu principal passatempo:

_ Isso é tudo que tenho na vida hoje. Esse cantinho, algumas roupas. Menos mal que tenho uma família que se importa comigo, me dá comida.

Assim que conseguir um emprego, o porteiro já tem um sonho. Quer comprar um fogão, para poder fazer sua alimentação:

_ Não posso mais depender dos outros. Amo muito minha irmã, mas é constrangedora minha situação. Quero retomar minha vida, encontrar uma nova companheira...

Luiz tem um filho, Paulo Ricardo, 31 anos, fruto do primeiro casamento. Ele e a mãe moram no interior do Paraná. Há dois anos não os vê, mas têm boa relação. Bem diferente do segundo relacionamento, que durou seis anos e terminou coincidindo com o início de sua atual fase de desempregado. Caso já foi até parar na Justiça.

 
 
 
 
 
 
 
Diário Gaúcho
Busca
clicRBS
Nova busca - outros