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Lá em Casa02/11/2018 | 08h00Atualizada em 02/11/2018 | 08h00

Cris Silva: como falar com as crianças sobre a morte

Colunista escreve todas as sextas-feiras no Diário Gaúcho

Cris Silva: como falar com as crianças sobre a morte /

  “A única certeza da vida é a morte”. A gente escuta tanto isso, né?! Eu já perdi as contas de quantas vezes escutei essa frase. Ela é tão óbvia e, ao mesmo tempo, tão difícil de compreender. 

A gente nunca está preparado para sentir saudade de alguém, para lidar com a ausência de uma pessoa ou até mesmo de um bichinho de estimação. Perder sempre dói, seja quem for. Eu acho que lido bem com o luto, compreendo que a vida é um ciclo: início, meio e fim. Compreendo que tudo tem prazo de validade. Mas não entendo quando as pessoas vão cedo demais ou por motivos trágicos. 

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 Nesta sexta-feira (2), Dia de Finados, é aquele dia que vou sentir ainda mais a saudade da minha vó Cinda, que me ensinou a ser generosa e a  olhar sempre para os outros com ternura e empatia. Vou sentir saudade do meu vô Arthur, com quem jogava baralho e tomava mate nas tardes de domingo. Também é o dia que vou agradecer a chance de estar viva e de fazer valer a pena essa dádiva. 

 Acredito que a forma como encaro a morte tem muito a ver como meus pais apresentaram ela para mim. Com explicações verdadeiras, simples e sem fantasia. Principalmente me ensinaram a aproveitar quem está vivo, passar o tempo junto, ser presente para quem a gente ama.

Naturalmente
Lá em casa o assunto é tratado com naturalidade e sem redemoinhos. Outro dia eu conversava com o Tuti, meu enteado de 10 anos, e perguntei o que ele achava que acontecia quando a pessoa morre. Ele riu, levantou o olho e disse: “Isso é uma coisa realmente interessante, eu te confesso que não sei. Até porque existe muita teoria né?!” 

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Adorei! Que pérola. E isso me fez querer ouvir outras crianças para saber como a morte pode mexer com a criatividade. Convoquei esse quarteto para responder: o que acontece quando alguém morre?

Foto para a coluna da Cris Silva do dia 2 de novembro de 2018Nomes das crianças pela ordem da esquerda para direita: Armando Cavalheiro Dalmora, 4 anos - Cecília Giraud Vila, 4 anos - Lorenzo Fachim Baini, 4 anos - Theo Martini Paradeda, 4 anos)
Armando, Cecília, Lorenzo e TheoFoto: Divulgação / Divulgação

"Quando a pessoa morre ela, espera um ano e escolhe como vai voltar. Eu vou voltar um dinossauro." (Armando Cavalheiro Dalmora, quatro anos)

"Quando a gente morre, vai para uma nuvem. Mas lá em casa, o meu pai quando morrer, vai ter que ir para uma nuvem separada da minha e da minha mãe, porque ele é muito pesado e vai cair." (Theo Martini Paradeda, quatro anos)

"Quando morre, a gente vira tubarão e fica no céu o tempo todo." (Lorenzo Fachim Baini, quatro anos)

"Quando a gente morre, viramos uma estrela. A vovó e a titia são estrelinhas no céu."
(Cecília Giraud Vila, quatro anos)

Como tocar neste assunto?

Falar sobre a morte para uma criança é um assunto que requer atenção especial dos adultos. Este momento é doloroso, difícil de compreender e de explicar. Mas é inevitável. Um dia, talvez, você precise explicar e é melhor estar preparado. O psicólogo Michel Andreola dá algumas dicas valiosas.

– É fundamental que os adultos tenham elaborado para si o problema da morte para poder ajudar. Não há uma idade certa para falar sobre este assunto com os pequenos. Importante é esperar a necessidade, interesse e curiosidade deles sobre o fato. Diga sempre a verdade, como em outras áreas da vida – diz Michel.

Feijão no algodão

Segundo o psicólogo, as crianças, entre quatro ou cinco anos, começam a compreender as relações da vida e já têm acesso melhor às informações. Uma alternativa lúdica  para mostrar o ciclo da vida pode ser plantar o feijão no algodão. Basta pegar um grão de feijão, algodão, um copo e um pouco de água: 

A germinação do feijão no algodão mostrará à criança, de uma forma bem simples, as fases do ciclo vital, onde nascemos, crescemos, adoecemos e, passado um tempo, morremos. Existem também outras alternativas a serem utilizadas, como os livros infantis, filmes ou os próprios desenhos delas, que ajudam a elaborar e explicar melhor o assunto. 

VELÓRIO X CRIANÇAS 

Em relação às crianças irem ao velório ou enterro, não force se elas não demonstrarem interesse em participar. Mas, se a criança mostrar interesse e vontade, não tenha receio. Elas irão se beneficiar para elaboração deste luto juntamente com o adulto. 

MEU BICHINHO VIROU UMA ESTRELINHA

Em relação ao luto com bichos de estimação, o processo é o mesmo: dar o espaço necessário à criança, conversar e observar o seu comportamento ao passar dos dias. O vínculo que a criança cria com o seu mascote quando vivo é único. 

– Quando este animal morre, a criança vai experimentar uma espécie de abandono, como ocorre no luto com as pessoas. Convide a criança a fazer o enterro do seu bicho no jardim de sua casa ou em um local adequado para isso. Permaneça sempre ao lado dela. Muitas vezes, só o fato de você ficar próximo, mesmo sem falar nada, ou com a sua mão estendida em seu ombro, ajudará muito. Recomendação aos pais e cuidadores: não sejam super-heróis nessas horas. Se chorarem, expressem esse sentimento, mostrem também o quanto estão tristes junto a seus filhos – conta Michel.

 
 
 
 
 
 
 
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