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Coluna da Maga27/03/2019 | 12h48Atualizada em 27/03/2019 | 12h48

Magali Moraes e o lar que esvazia

Colunista escreve às segundas, quartas e sextas-feiras no Diário Gaúcho

Magali Moraes e o lar que esvazia Fernando Gomes/Agencia RBS
Magali Moraes Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Por onde começar quando é necessário tirar tudo de dentro de uma casa? Quando seus móveis, quadros e enfeites perdem a dona e a razão de ser? Um lar pode ter quantas mesas, cadeiras e louças quiser. Se faltarem os cafés de domingo, tudo perdeu a serventia. A TV continuará muda. No corredor cheio de fotos emolduradas, ninguém mais vai passar e relembrar. A toalha vai seguir seca e pendurada no gancho. O varal vazio. O sabonete que sobrou no box não tem a quem ensaboar.

As cortinas ficam fechadas ou abertas? Que importância faz, se não tem mais alguém pra ver a rua. Aberta fica a geladeira, desligada, pra não mofar. Quem sabe deixa uma jarra de água pra habitar. E os ímãs do lado de fora da porta? Quem vai ficar com a coleção que aumentou aos poucos, a cada viagem dos filhos e netos? O pano de prato e o Nescafé no mesmo lugar, que agonia. Panelas sem cheiro de comida. Sem caixas de salgadinhos no próximo aniversário. Sem motivo pra ligar o forno.

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Álbuns

As folhas de outono vão cobrir o chão do pátio. Só a chuva vai molhar as plantas. Os álbuns de fotos vão pra casa de quem? Qual de nós vai juntar forças pra arrumar as roupas e doar? Que dó a gaveta dos chocolates vazia. Quantas chaves e santinhos se junta numa vida. Os cobertores estão frios. Os remédios abertos não aliviam mais. A cadernetinha com todos os telefones! Até quando minha memória vai guardar essa letra? O que escolher de lembrança quando tudo lembra ela?

Dá vontade de manter tudo. De doar tudo. De fazer o tempo voltar. Essa coluna era pra ser da sogra, agora também é da minha tia Tetê. Em um mês e meio, temos dois lares pra esvaziar. Não é fácil ver tantos pertences sem pertencerem mais a elas. A pior divisão de bens é a do dia a dia. Travesseiro que não sonha mais. Amaciante que não perfuma mais o lençol. Escova de dentes esperando no banheiro. Perfume e batom sem uso. Bolsa que perde a amiga e não vai mais passear. E nós, perdidos.


 
 
 
 
 
 
 
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