Como a convivência entre diferentes gerações auxilia alunos de cursinho popular da Capital - Notícias

Vers?o mobile

 
 

Caminhos do Aprendizado19/06/2019 | 07h00Atualizada em 19/06/2019 | 07h00

Como a convivência entre diferentes gerações auxilia alunos de cursinho popular da Capital

Série de reportagens acompanha a turma de 2019 do Resgate Popular

Como a convivência entre diferentes gerações auxilia alunos de cursinho popular da Capital Isadora Neumann/Agencia RBS
Turma do Resgate em março, quando recebeu a visita da reportagem pela primeira vez Foto: Isadora Neumann / Agencia RBS

Para quem consegue uma vaga no Resgate Popular, cursinho pré-vestibular popular de Porto Alegre, ser aluno do local representa bem mais do que ter a oportunidade de revisar conteúdos para as provas. A iniciativa, que funciona em uma sala cedida pela UFRGS, também oferece acompanhamento com psicólogo, assistente social, assistência jurídica quando necessário e uma série de atividades sobre assuntos diversos, de cidadania ao sistema político. 

Leia outras notícias do Diário Gaúcho

Mas outra vantagem — que não é palpável, mas é nítida — da turma do Resgate é a convivência com diferentes gerações. A turma de 2019 mistura alunos recém-saídos do Ensino Médio — que são, geralmente, o público principal dos cursinhos preparatórios para vestibular — com outros, mais maduros, que por um motivo ou outro tiveram que interromper os estudos, mas não deixaram de lado o sonho do Ensino Superior. 

A série Caminhos do Aprendizado, que, durante todo o ano, acompanha os alunos de 2019 do Resgate, conta, hoje, a história de duas alunas. Com perfis diferentes, mas dividindo o mesmo sonho, elas relatam seus desafios e o que aprendem com este convívio. Conheça Louise, 38 anos, e Isabela, 18 anos.

Com todo o gás

No dia da visita da reportagem, Isabela Ganguilhet de Souza Rodrigues, 18 anos, podia ser confundida com um dos professores voluntários do Resgate Popular. Enquanto o mestre de verdade não chegava, ela levantou-se, foi ao quadro branco da sala, tomou posse de uma caneta vermelha e passou a dar uma verdadeira aula, com suas próprias palavras, para os colegas, que ainda chegavam e se acomodavam, sobre a Revolução Russa. 

 Porto Alegre, RS, BRASIL, 24/05/2019:  Voltamos ao cursinho popular que funciona na UFRGS para seguir com a série de reportagens, que iniciou em março. Na foto: Isabella Ganguilhet de Souza Rodrigues
Isabela, 18 anos, terminou o Ensino Médio no ano passadoFoto: Isadora Neumann / Agencia RBS

Os demais alunos não só prestavam atenção, como ajudavam Isabela quando lhe faltava o nome de um personagem ou um termo em russo. O assunto sequer seria abordado naquela noite — houve aula de História, mas o tópico era o Brasil Colônia.

A questão que viria à cabeça de qualquer um que assistisse à cena — "queres ser professora?" — foi respondida com um sonoro "não" por Isabela, que seguiu:

— O que eu quero é Biomedicina! 

Moradora do bairro Vila Nova, zona sul da Capital, Isabela terminou o Ensino Médio no Colégio Parobé em 2018. Recentemente, também finalizou o curso Técnico em Segurança do Trabalho, que lhe ajudou com o trabalho atual: um estágio no Hospital Vila Nova, pela manhã. No ano passado, ela tentou o vestibular da UFRGS, mas sem sucesso:

— Percebi que aquele ensino da escola não me levaria a lugar nenhum, e comecei a pesquisar cursinhos populares. Vi a opção do Resgate, as inscrições ainda estavam abertas, decidi tentar.

Leia também
Série do Diário Gaúcho acompanha turma de pré-vestibular popular na busca pela vaga no Ensino Superior
A trajetória da ex-aluna de cursinho popular que hoje dá aula no mesmo projeto

Interesse

A vontade de estudar Biomedicina surgiu ainda na infância, quando Isabela começou a acompanhar a mãe, Viviane, 46 anos, ao Hospital de Clínicas, onde realiza um tratamento.

— Sempre achei aquele ambiente muito interessante. Pensava em cursar Biologia Marinha, mas meus amigos me falaram sobre a Biomedicina. Comecei a pesquisar mais e, a cada pesquisa, ficava mais apaixonada — relata.

Recém-saída do Ensino Médio, Isabela tem, no Resgate, a oportunidade de conviver com colegas bem mais velhos. A convivência é positiva, mas o ritmo de aprendizado de cada um é diferente, e o respeito mostra-se fundamental:

— Na escola eu sempre fui muito afobada. Aprendia uma coisa e queria que o professor passasse logo para o próximo assunto. Mas a gente precisa aprender a respeitar os outros. Quem recém saiu da escola não sabe tudo. Na verdade, os mais velhos ajudam muito. Existem dificuldades (na convivência), mas tudo é uma questão de aprendizado. E isso é muito importante.

Leia também
Cursos técnicos gratuitos em escolas da rede estadual têm inscrições abertas
Pai, mãe e filha entram juntos no Ensino Superior, na Capital
Alunos de cursinho popular comemoram aprovação na UFRGS

Retorno após 20 anos

A caixa operadora Louise Alves, 38 anos, de Porto Alegre, também já estava na sala de aula antes da chegada do professor no dia da visita. Mas, ao contrário da colega, sentou-se em um dos lados da sala, mais tímida. Louise entrou no Resgate graças a uma segunda chamada de vagas, que foi possível em função da desistência ou entrada na universidade de alguns alunos. Mas isso não quer dizer que ela esteja menos enturmada. Ela estava fora das salas de aula há 20 anos, e adorou o retorno.

— Acho essa convivência com os professores e com os outros alunos fantástica. Tem gente de todas as idades aqui, e eu percebo como é diferente de quando eu era mais jovem! — revela

 Porto Alegre, RS, BRASIL, 24/05/2019:  Voltamos ao cursinho popular que funciona na UFRGS para seguir com a série de reportagens, que iniciou em março. Na foto: Louise AlvesIndexador: ISADORA NEUMANN
Louise, 38 anos, entrou no Resgate depois dos demais alunos. Por isso, posou mostrando o curso no qual pretende entrarFoto: Isadora Neumann / Agencia RBS

Nada que impeça uma boa convivência:

— Meus colegas são pensantes, questionadores. Eles sabem e percebem essa diferença entre gerações, mas nos acolhem (os alunos mais velhos). Isso não é um problema. Eu me sinto super acolhida por esse grupo.

Desde mais jovem, Louise tem vontade de estudar Medicina Veterinária. Mas, quando terminou os estudos regulares, percebeu que esse sonho não seria tão fácil.

— Na minha época, não existia Enem, Sisu (Sistema de Seleção Unificada, que oferece vagas em universidades federais com a nota do Enem), Prouni (programa que oferece bolsas em universidades particulares). Não tinha tantos caminhos. Ou tu cursava uma universidade privada ou entrava em uma federal. As duas coisas coisas eram difíceis, então fui adiando — conta.

Por conta própria

Há três anos, porém, ela decidiu retomar seus planos. Começou estudando os conteúdos do Enem e do vestibular da UFRGS em casa, por conta própria. Tentou três vezes e não teve sucesso.

— Depois de tanto tempo, fica bem mais difícil, né? Eu até fui bem nas provas, mas precisa bem mais do que isso para entrar. Precisa investir mais em horas de estudo. Encontrei apoio aqui no curso, e isso é fantástico.

A rotina não é fácil. O despertador toca às 5h e, às 6h30min, ela já está trabalhando, na rodoviária da Capital. Às 14h, Louise vai pra casa, no bairro Floresta, reserva alguns momentos para recuperar o fôlego e começa a estudar. As aulas do Resgate iniciam às 18h30min. Mas, sempre que pode, a aluna chega mais cedo, por volta das 17h, para receber ajuda dos professores que tiram dúvidas nos plantões.

— Saio daqui por volta das 22h15min. Chego em casa depois das 23h e vou me preparar para o dia seguinte, quando começa tudo de novo _ diz ela.

No dia da primeira visita da reportagem, quando todos os alunos posaram para uma foto com o curso dos sonhos em mãos, ela não estava. Por isso, aceitou, com um sorriso no rosto, fazer sua foto como a dos colegas.

 
 
 
 
 
 
 
Diário Gaúcho
Busca
clicRBS
Nova busca - outros