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Educação12/09/2019 | 05h00Atualizada em 12/09/2019 | 05h00

Falta de funcionários sobrecarrega trabalhadores em escolas

No Colégio Estadual Cândido José de Godói, em Porto Alegre, há acúmulos de função para alunos não ficarem sem merenda 

Falta de funcionários sobrecarrega trabalhadores em escolas Omar Freitas/Agencia RBS
Refeitório recém reformado não é usado por falta de funcionários para cozinhar alimentos Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

O Colégio Estadual Cândido José de Godói, de Porto Alegre, possui cozinha e refeitório novos, praticamente intocáveis há cerca de dois anos, por falta de merendeira. A escola de 550 alunos deveria ter três funcionários para preparar, manusear e distribuir alimentos, mas não tem nenhum. A mesma instituição, localizada no bairro Navegantes, tem uma biblioteca completa com todas as leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS que está fechada desde março, por falta de bibliotecário. O acervo com mais de 500 obras repousa em cinco estantes mantidas no escuro, encerrado em uma sala a qual os estudantes não têm acesso.

Na Cândido José de Godói, ainda são necessários mais dois secretários e um auxiliar de disciplina. A falta de seis funcionários complica a rotina da escola, assim como afeta outros educandários pelo Rio Grande do Sul.

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 10/09/2019: Falta de funcionários em escolas estaduais.  Colégio Estadual Cândido José de Godói. Diretor Mário Antônio da Silva (Foto: Omar Freitas / Agência RBS)Indexador: NGS
Biblioteca fechada desde março deste anoFoto: Omar Freitas / Agencia RBS

Um levantamento espontâneo feito pelo Cpers/Sindicato e respondido por 270 escolas em todo o Estado, mostrou que nas 219 instituições que apontaram falta de funcionários há um déficit total de 555 profissionais. 

A maior escassez ocorre nas funções de monitoria (118), merenda (108), administrativo (108) e limpeza (103). A Secretaria Estadual de Educação (Seduc) não informa o número total de falta funcionários nas 2,5 mil escolas estaduais gaúchas. Afirma, porém, que só neste ano, de janeiro a setembro, foi necessário contratar 825 funcionários de forma emergencial para estas funções. 

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Acúmulo de tarefas

Com insuficiência de pessoal para fazer serviços básicos que envolvem a rotina de uma escola, há sobrecarga de serviço para quem está trabalhando. No Colégio Cândido José de Godói, a alternativa encontrada para não deixar os alunos sem merenda é direcionar a tarefa para a responsável pela limpeza. Oneide Schaefer, 47 anos, – 27 deles em escolas estaduais –, além de limpar o prédio de 3,7 mil metros quadrados de área construída, recebe a merenda, armazena e entrega aos alunos no turno da manhã.

– É um acúmulo claro de função. Faz o serviço de outra pessoa e não recebe para isso – afirma o diretor Mário Antônio da Silva.

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 10/09/2019: Falta de funcionários em escolas estaduais.  Colégio Estadual Cândido José de Godói.Agente educacional Oneide Schaefer (Foto: Omar Freitas / Agência RBS)Indexador: NGS
Oneide: faz a limpeza e entrega a merendaFoto: Omar Freitas / Agencia RBS

Como não há uma pessoa para cozinhar, o cardápio é adaptado à realidade da escola. Ao longo desta semana, foram servidos barra de cereal na segunda-feira, bergamota na terça e banana na quarta. Hoje, será servido maçã, e amanhã, iogurte com bolacha. 

– Não vou deixar os alunos sem merenda, então me organizo para também fazer isso. Mas eles reclamam, especialmente quando tem maçã. Acho que não sacia – comenta Oneide. 

Refeitório e cozinha intocados

O refeitório e a cozinha recém-reformados com recursos do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) – ao custo de R$ 87 mil – foram usados só duas vezes desde 2017. Fogão, geladeiras, pia, mesas e outros utensílios novos estão intocáveis. A direção lembra que o espaço foi reivindicado pelos alunos durante as ocupações nas escolas em 2016: eles queriam um local mais adequado para produzir e servir merenda. O local hoje existe, mas está fechado por falta de merendeiras. 

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 10/09/2019: Falta de funcionários em escolas estaduais.  Colégio Estadual Cândido José de Godói. Diretor Mário Antônio da Silva (Foto: Omar Freitas / Agência RBS)Indexador: NGS
Cozinha reformada com dinheiro do Bird só foi usada duas vezesFoto: Omar Freitas / Agencia RBS

O diretor e a vice Lilian Balbinot dividem a sobrecarga com os demais funcionários, fazendo muito além de suas tarefas:

– Quando eu ligo para a Secretaria pedindo mais gente, eles me respondem que "se não tem quem faça, faça o senhor".

Na biblioteca, o acervo que sempre orgulhou a direção da escola está em uma sala chaveada a que os alunos não têm acesso, a menos que peçam autorização para a direção. Na falta de um bibliotecário, o espaço fica fechado, já que não há quem oriente a leitura. 

– Tínhamos feira e brechó de livros e os alunos tinham hábito de vir e consumir essas obras. Hoje, esse espaço fica meses fechado e os próprios estudantes vão perdendo o interesse pelo lugar – explica Lilian.  

Para a presidente do Cpers, Helenir Aguiar Schürer, é "inconcebível" uma escola sem biblioteca que, segundo ela, é fundamental para qualquer disciplina:

– A grande maioria das crianças de periferia só tem acesso a livros pela escola, pois os pais não têm dinheiro para comprá-los. E se na escola a biblioteca está fechada, se impede o acesso dessas crianças ao mundo da leitura, onde são abertas diversas oportunidades.

Na secretaria, Isabel Flores dos Santos, 52 anos, é a única secretaria onde deviam trabalhar três. Ela atende telefone, registra notas, fornece atestados e cuida a portaria. Com 19 anos de magistério e há três anos e meio na direção, Mário acredita que este é o período mais crítico de falta de pessoal:

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 10/09/2019: Falta de funcionários em escolas estaduais.  Colégio Estadual Cândido José de Godói. Diretor Mário Antônio da Silva (Foto: Omar Freitas / Agência RBS)Indexador: NGS
Uma secretária faz a tarefa de três na escolaFoto: Omar Freitas / Agencia RBS

– Hoje o vice-diretor, além de todas suas atribuições, faz o papel de coordenador pedagógico, cuida do RH e do financeiro. É muita coisa. 

Helenir destaca também que a falta de monitores – aqueles cuidam de turmas sem professores e observam a circulação de pessoas estranhas ou de alunos que estão fora da sala de aula – abre uma possibilidade de insegurança na escola:

– A falta de funcionários atrasa todo bom andamento que teria que ter dentro da escola para atender os alunos.

Também há um prejuízo para a saúde dos profissionais, destaca Helenir:

– É muito difícil achar uma escola com número ideal de professores e funcionários. Isso gera uma sobrecarga, um stress muito grande. Hoje temos muitas meredeiras com graves lesões na coluna, na bacia e nos joelhos por fazer esforços demais.

O que diz a Seduc

Segundo a Seduc, atualmente há 9.253 funcionários concursados e 7.524 contratados trabalhando nas escolas estaduais do Rio Grande do Sul. A secretaria afirma que em junho de 2019 foram nomeados monitores e auxiliar administrativo, técnico em informática, técnico em nutrição, assistente financeiro e intérprete em libras. Após esta nomeação, está sendo feito estudo sobre as necessidades das escolas para 2020 com base na matrícula da rede.

A respeito da situação do Colégio Estadual Cândido José de Godói, a Seduc informou que possui o pedido de apenas uma merendeira.

 
 
 
 
 
 
 
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