Dia da Consciência Negra: "Não sou Manoel" - Notícias

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Papo Reto20/11/2019 | 08h24Atualizada em 20/11/2019 | 08h26

Dia da Consciência Negra: "Não sou Manoel"

Colunista reflete sobre a data celebrada nesta quarta-feira, 20 de novembro

Dia da Consciência Negra: "Não sou Manoel" Lauro Alves/Agencia RBS
Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Eu fui roubado, meu nome não é Manoel dos Santos Soares. Esse é o nome que minha mãe e meu pai me deram, a partir das heranças que receberam. Para entender isso, temos que saber que Rui Barbosa era Ministro da Fazenda em 1890 e mandou queimar todos os documentos relacionados à escravidão. Fez isso para evitar que negros entrassem na Justiça, pedindo indenizações por terem sido escravizados, e ganhassem terras que pertenciam aos colonizadores e imigrantes de pele clara.

Além de tirar a possibilidade de quem é negro ter um pedaço de chão, o que faria toda a diferença para seus filhos e descendentes – que somos nós –, ele deixou a população negra sem nome. Naqueles papéis queimados por ordem dele, estavam nossos nomes verdadeiros, trazidos da África. Para a maioria de nós, só restava ficar com o nome herdado pelos nossos donos. No meu caso, “Manoel” é de origem portuguesa, “dos Santos” era porque algum antepassado meu foi catequizado pela igreja católica, e “Soares” é uma variação do espanhol que também teve escravos e terras por aqui. 

Futuro roubado

A escravidão me tirou até meu nome. Hoje, depois de muita luta, minha família descobriu que somos descendentes do Quilombo de Palmares, onde nosso tataravô viveu e lutou com Zumbi. 

A Consciência Negra é essa tentativa em que negros e brancos tentam reparar os efeitos desse crime contra mais de 11 milhões de pessoas escravizadas. Não é sobre ser melhor do que ninguém, mas sobre deixar todos serem iguais. 

Se você, que lê o Diário agora, não concorda com roubo e sequestro, você sabe porque existe esse dia de Consciência Negra. Existe porque, assim como eu, mais de um milhão de gaúchos tiveram seu futuro roubado. E, além de não termos um pedaço de terra para começar a vida, tivemos nossos nomes verdadeiros apagados da história. Sendo assim, te pergunto: se, hoje, tirassem seu nome e sua casa, te obrigando a ser escravo, será que seus filhos sofreriam as consequências? 

Pois é, esse amontoado de sentimentos que você teve ao ler esse texto, concordando ou não com ele, é a tal da Consciência Negra.

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