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TRANSPORTE PÚBLICO11/01/2020 | 05h00

Região Metropolitana perdeu 4 milhões de passageiros em cinco anos, aponta relatório do TCE-RS

Estudo também mostra que, no período, frota de ônibus envelheceu em 88% dos municípios analisados da Grande Porto Alegre

Região Metropolitana perdeu 4 milhões de passageiros em cinco anos, aponta relatório do TCE-RS Andre Ávila/Agencia RBS
Viamão perdeu, em cinco anos, 46% dos usuários de ônibus Foto: Andre Ávila / Agencia RBS

Frequentemente divulgada, a redução gradual no número de passageiros do transporte coletivo urbano aparece como um fator preponderante na pesquisa desenvolvida pelo TCE-RS. Essa diminuição reflete em outros aspectos do levantamento, como o valor da tarifa. 

Municípios da Região Metropolitana tiveram quedas substanciais no número de passageiros no período entre 2015 e 2019. Para se ter uma ideia, Viamão perdeu, em cinco anos, 46% dos seus usuários (o que representa mais de 229 mil passageiros a menos). Já em Gravataí, a perda foi de 36,8% (mais de 214 mil passageiros). 

As duas cidades, por consequência, são – entre as com mais de 100 mil habitantes – as que apresentam as maiores tarifas. Para circular dentro de Gravataí e de Viamão, o usuário desembolsa R$ 4,80, R$ 0,10 a mais do que os moradores da Capital, que pagam R$ 4,70.

– Este valor de Gravataí e Viamão está relacionado à perda de passageiros. Como eles tiveram o maior nível de queda, é mais difícil represar o preço da passagem. Por isso, incentivamos muito as novas licitações, pois elas trazem novo ambiente para melhorar a qualidade do sistema – destaca o auditor Airton Rehbein.

O órgão, segundo o procurador, acompanha a questão do cumprimento dos contratos:

–  Em Esteio, por exemplo, eles fizeram uma licitação e colocaram que era necessário a frota ter ar-condicionado. É o único município que tem 100% dos ônibus equipados (com o item). Estamos auditando todos os contratos do transporte coletivo do Estado, vamos concluir ainda nesse ano, e cobraremos o cumprimento dos contratos. 

Na Região Metropolitana, Guaíba, São Leopoldo, Alvorada e Canoas registraram quedas de 33,2%, 26,95%, 21,59% e 3,41%, respectivamente. A perda de passageiros na Capital ficou em 17,77%. Em número de usuários, a perda nas oito cidades citadas até agora chega a 4,1 milhões.

Fatores que levaram às perdas

Para a professora da Unisinos e mestre em Engenharia de Transportes Nivea Oppermann, o ônibus vem sendo preterido pelo cidadão por uma série de fatores: crise, crescimento do transporte por aplicativo, incentivo dado para comprar veículos e aumento das gratuidades.

– Com a crise, o desemprego faz com que as pessoas se desloquem menos. Depois, vêm os aplicativos, que competem com o transporte público – diz ela, que segue:

– Além disso, a gratuidade é outro fator importante, pois elas estão sendo pagas pelos trabalhadores. O que se precisaria fazer é construir bons planos de mobilidade e entender que eles não são apenas leis (a serem cumpridas), é preciso ter estratégias.

Conforme levantado pelo TCE, na Capital, a porcentagem de usuários que possuem gratuidade é de 30,7%. Em Cachoeirinha, Canoas e Guaíba, as gratuidades alcançaram, em 2019, os índices de 26%, 28% e 38,1%, respectivamente. 

Idade média dos veículos só diminuiu em Guaíba

Imagens do transporte público municipal de Guaíba. Frota foi renovada em 2015 e, hoje, tem em média 3,5 anos.
Em Guaíba, frota foi renovada em 2015Foto: Camilla Swider / Prefeitura de Guaíba

Entre os 23 municípios do Estado onde foi possível analisar a idade dos ônibus, segundo o TCE, 61% apresentaram um envelhecimento de suas frotas, ao passo que 9% mantiveram as idades médias e 30% apresentaram redução. 

Na Região Metropolitana, a frota envelheceu em 88% dos municípios analisados. Guaíba apresenta a menor idade média, com 3,5 anos, e conseguiu reduzir em 9,9 anos a idade dos veículos de 2015 para agora. Tudo isto porque, após uma licitação, novos ônibus passaram a circular na cidade em dezembro de 2015. Na época, a prefeitura anunciou que era a primeira vez que uma licitação do sistema de transporte coletivo ocorria em 89 anos no município. 

Em contrapartida, Viamão e Alvorada disponibilizam hoje os ônibus com maior idade média, de 8,5 anos. Uma realidade que a população conhece bem. Em Viamão, moradores ainda destacam a falta de cumprimento da tabela e as poucas opções de viagens.

– É uma vergonha, pois não se cumpre horário. Eu sempre pego o São Tomé (linha) e faz uma hora que estou aqui e nada. Os ônibus são precários e ainda estão tirando os cobradores – opinou, na quarta-feira, a aposentada Mariza da Silva, 68 anos, do bairro Planalto.

 VIAMAO, RS, BRASIL - 2020.01.08 - O TCE-RS produziu um estudo sobre o transporte público na região metropolitana. Eles comparam vários itens, conforme informações dos próprios municípios, como base os anos de 2015 e 2019. Viamão chama a atenção, pois perdeu um volume alto de passageiros, tem a maior tarifa da região metropolitana, a frota é uma das mais velhas e só tem 75% da frota com acessibilidade. Na foto: Caroline August (Foto: André Ávila/ Agência RBS)Indexador: Andre Avila
Caroline solicita aplicativo em ViamãoFoto: Andre Ávila / Agencia RBS

A pedagoga Caroline August, 26 anos, do Santa Cecília, acredita que a disponibilização de GPS e de um aplicativo para acompanhar as linhas são fundamentais para a cidade:

– O transporte é ruim, sem conforto e com poucos horários. O único jeito para saber o horário em que passa, é olhar na tabela do site, vir para a parada e esperar que se cumpra. 

Acessibilidade e GPS: fatores que avançaram

A lei federal nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000, estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade. Em 2004, o Decreto Federal nº 5.296, que regulamentou a lei, determinou que, em 2014, todos os ônibus deveriam ser acessíveis. Apesar disso, em 2015, muitos municípios acompanhados pelo TCE não atendiam a legislação.

Em 2019, porém, houve avanços em cidades da Região Metropolitana. Atualmente, Alvorada, Cachoeirinha, Esteio, Gravataí, Guaíba e São Leopoldo dizem ter 100% da frota com acessibilidade (confira a tabela completa ao lado). Além disso, Alvorada, Canoas, Esteio, Gravataí, Guaíba e Porto Alegre afirmam ter 100% da frota equipada com GPS.  

– Os municípios e os operadores do sistema estão se dando conta, com a vinda do transporte por aplicativo, que eles precisam elevar o nível de precisão na prestação do serviço. A pessoa está dentro de casa, à noite. Se ela vai para parada, precisa saber que faltam dois, três minutos para chegar o ônibus – analisa o auditor do TCE. 

Investimentos necessários

Enquanto os usuários avaliam os problemas encontrados, as empresas usam a diminuição de passageiros para justificar as dificuldades de investimento. 

A professora da Unisinos Nivea Oppermann acredita que o transporte coletivo pode ser um ótimo negócio, desde que tenha regras e licitações claras, onde as empresas sejam remuneradas por produtividade. Assim como ela avalia ser essencial que os órgãos públicos tenham mecanismos de controle e fiscalização eficientes. 

 VIAMAO, RS, BRASIL - 2020.01.08 - O TCE-RS produziu um estudo sobre o transporte público na região metropolitana. Eles comparam vários itens, conforme informações dos próprios municípios, como base os anos de 2015 e 2019. Viamão chama a atenção, pois perdeu um volume alto de passageiros, tem a maior tarifa da região metropolitana, a frota é uma das mais velhas e só tem 75% da frota com acessibilidade. (Foto: André Ávila/ Agência RBS)Indexador: Andre Avila
Em Viamão, tarifa entre as mais caras e frota sem renovaçãoFoto: Andre Ávila / Agencia RBS

– A própria questão da cobrança da tarifa é sempre uma caixa preta, não se sabe direito se os empresários estão ganhando um preço justo ou não. A demanda diminui, as empresas dizem que o custo da tarifa não está cobrindo as despesas, aí surgem discussões como a retirada do cobrador, por exemplo. Mas as empresas tomam medidas que não são adequadas, como a não renovação da frota. Com isso, a frota está ficando velha, quebrando mais, (ficando) sem condições para prestar um bom serviço – destaca ela.  

Informação

Nivea ainda alerta para o pouco investimento aplicado no transporte público nos últimos 30 anos. 

– Muito pouco foi feito em investimentos em Porto Alegre e Região Metropolitana. Hoje, o transporte coletivo é caro, é demorado e as pessoas procuram outras opções mais convenientes. Só que a gente tem que pensar na população de menor poder aquisitivo que precisa dele – diz ela, que acrescenta: 

– Para melhorar o transporte coletivo ainda tem que se dar informação, tem que saber qual linha passa, quanto tempo vai levar. A tarifa integrada também é importante porque estimula o usuário. O conforto também precisa ser pensado.


 

 
 
 
 
 
 
 
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