Gari e poeta: Jonatã escreve versos na madrugada depois de correr 30km atrás do caminhão de lixo - Notícias

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EM BUSCA DE LEITORES01/02/2020 | 08h00Atualizada em 01/02/2020 | 08h00

Gari e poeta: Jonatã escreve versos na madrugada depois de correr 30km atrás do caminhão de lixo

Participar de um recital de poesia e conquistar mais público estão entre os maiores sonhos de Jonatã Nunes Amarante, 31 anos, de Canoas. A amigos e colegas, ele escreve textos sob encomenda

Gari e poeta: Jonatã escreve versos na madrugada depois de correr 30km atrás do caminhão de lixo Omar Freitas / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Omar Freitas / Agência RBS / Agência RBS

"A vida eh uma constante revolução onde temos q adaptar nosso ser entre o mundo real e o mundo da imaginação escolher ql caminho seguir adiante pra não se perder em um mundo de alvareza entender sua real natureza somos todos luzes ofuscante cada um com seu brilho constante uns vão se perdendo pelo caminho outros ah outros já vão aumentando seu brilho onde gera a ira a raiva a inveja aos poucos vão se perdendo a nobreza a gentileza o amor pelo próximo..."

Jonatã Nunes Amarante, 31 anos, tem a pressa típica da internet. Abrevia palavras, prescinde de vírgulas ou pontos, tecla as sensações no celular em um jorro de um fôlego só. Autor dos versos acima, ele transita entre os dois universos descritos. Desbrava o mundo da imaginação como poeta, forjado nas madrugadas, sobre a cama da casa que ele próprio ajudou a construir, um puxadinho no terreno onde também moram os pais e os irmãos, no bairro Rio Branco, em Canoas. 

No mundo real, Jonatã é coletor de lixo, funcionário de uma empresa contratada pela prefeitura da cidade da Região Metropolitana. O caminhão em que o gari atira os sacos de dejetos orgânicos percorre os bairros Mathias Velho e Niterói, a partir das 17h e noite adentro, seis dias por semana. Do trajeto total, o jovem de 1m72cm e 75 quilos estima cumprir a pé, correndo, cerca de 30 quilômetros – no restante do caminho, pendura-se na traseira do veículo, ao lado de outros dois colegas, aguardando a hora de saltar outra vez. É depois da estafante jornada e de dois pratos de comida – arroz com galinha, pastel ou massa com guisado, esta a preferida, porque "dá mais sustância" – que Jonatã pega o telefone para escrever sobre a vida que observa e sente. Atribuiu-se um título: poeta do asfalto.

Sob encomenda

Jonatã se abastece de enredos de amor, saudade, solidão, desilusão, erotismo, tristeza. Escreve como desabafo e também encarna outros dramas, sob encomenda – amigos, colegas da limpeza urbana e fiéis da igreja que frequenta costumam lhe solicitar poesias por motivos diversos. Uns buscam alento para fases difíceis, outros querem embalar novas paixões, e há ainda os que tentam se reconciliar com a criatura amada após um rompimento. O canoense opera em sistema de pronta-entrega: recebe o pedido, questiona o interlocutor sobre a situação para ter de onde partir e, em até 90 minutos, envia o texto. Demora a dormir porque se inunda de ideias, "vêm pensamento atrás de pensamento", começa a redigir e não consegue parar. Recebe elogios e incentivo para persistir no ofício. Alguns, emocionados, querem recompensá-lo financeiramente – certa vez lhe ofereceram a compra de créditos para recarga do celular, mas ele agradeceu e recusou, já que dispõe de conexão wi-fi.

— Faço tudo de coração — garante.

Trabalho tem lado bom e lado ruim

Fora as tarefas escolares, Jonatã começou a escrever por prazer aos 16 anos, em um caderno que já se perdeu. Não concluiu o Ensino Médio. Com a gravidez da namorada, decidiu largar os estudos e priorizar a busca de um emprego. Foi operador de máquina, empacotador e servente de pedreiro. Há uma década, dedica-se a recolher o que outros jogam fora. Jonatã passa até oito horas na tarefa – e, para a surpresa de muitos, adora o que faz.

No primeiro dia de trabalho, ao se aproximar do caminhão, sentiu o que recorda como um forte odor de carniça. Vomitou.

— É normal — tranquilizaram-no.

Jonatã não sentiu vergonha do mal-estar logo na chegada, mas durante um ano remoeu a dúvida: aguentaria um serviço tão insalubre? A obrigação de pagar a pensão do filho, hoje com 11 anos, empurrava-o para cada novo turno.

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 19/12/2019: Jonatã Nunes, empregado da coleta de lixo urbana de Canoas, arrisca-se também como escritor. (Foto: Omar Freitas / Agência RBS)Indexador: Omar Freitas<!-- NICAID(14370714) -->
Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Mas Jonatã começou a gostar da função. Estabeleceu laços de confiança e amizade, não tinha um chefe no cangote o tempo inteiro, lidava com o povo – o que tem um lado bom, outro ruim, explica ele. Gratificante é ter a tarefa reconhecida, ser saudado pelo caminho. Há quem espere a passagem do veículo com uma garrafa pet litrão de água ou suco para aliviar o calor dos rapazes de roupa ensopada. 

— O melhor são as crianças. Elas ficam na janela e no portão abanando: "Ô tio! Ô tio!". Não tem nada mais gratificante do que o reconhecimento de uma criança, que é um ser puro, especial — conta ele.

Rude

Por outro lado, há de se lidar também com a rudeza. Quando o caminhão obstrui uma rua, trafegando devagar para que os coletores tenham tempo de recolher o entulho, motoristas enterram a mão na buzina e exigem passagem. Às vezes, disparam ofensas.

A falta de reconhecimento e o preconceito de muitos magoam o coletor.

— Pessoas de fora têm uma visão, "são um bando de drogados, ex-presidiários", só que elas não sabem que ali tem pai de família, gente lutando por objetivos, que tá trabalhando para entrar em faculdade. A população vê muito mascarados os lixeiros — lamenta ele, que planeja frequentar a Educação de Jovens e Adultos (EJA).

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 19/12/2019: Jonatã Nunes, empregado da coleta de lixo urbana de Canoas, arrisca-se também como escritor. (Foto: Omar Freitas / Agência RBS)Indexador: Omar Freitas<!-- NICAID(14370673) -->
Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

As rusgas também serviram de inspiração: "(...) Não venha tentar me difamar me xingando de lixeiro vagabundo sujo, imundo ou bando de relaxado q vivem drogado uuuuu por trás desses q vcs oprimem tem um bom sujeito e não um vagabundo se servir de consolo somos todos vagabundos trabalhadores então não venha me faltar com respeito só pq não correspondemos sua classe social pode ter certeza q não somos atores e nem cantores muito menos jogadores somos humildes coletores conhecido como poetas do asfalto a cada correria uma poesia composta (...)".

"Tiro da minha cabeça" 

No princípio, Jonatã virou alvo de zombaria – "Escrever é coisa de veadinho", ouvia. Entre pausas e retomadas, ele renovou o ânimo pela escrita nos últimos anos. Costuma divulgar seus versos no Instagram e no Facebook, plataformas em que alcançam modestíssima repercussão: o máximo de sucesso que um post seu atingiu, pelo que lembra, foram 17 curtidas. 

Nem linhas mais ousadas, somadas à dor da frustração amorosa, angariaram reconhecimento maior: "Mó decepção fui tentar encontrar em outros corpos o sabor do seu mais não era o mesmo jeito de amar e nem de sentir muito menos no valor dos carinhos e atenção a falta de compreensão só vinha a inflamar as feridas do coração sem o calor dos sentimentos só sofrendo por dentro a cada batimento sem o consentimento do seu amor só tentando amenizar aquela dor de não te ter por perto...". Performance: 10 curtidas. Mas ele não desiste: "Com o que concluíram improvável / Completei poesia / E o que calcularam impossível / Foi a meta do dia...".

Marcos Rogério Vahl do Amaral, 50 anos, conhece Jonatã desde quando o gari era "piazinho". Com endereços próximos, as famílias de ambos estabeleceram vínculos. Pela internet, o auxiliar administrativo acompanha a produção textual do poeta. Surpreendeu-se: o garoto criado em uma área que define como "hostil", pela presença de pontos de tráfico, conseguiu seguir em linha reta, graças, acredita, ao pulso firme dos pais, a dona de casa Roseli Nunes dos Santos, 50, e o pedreiro Antônio Rafael Gonçalves Motta, 55. 

— Me chamou a atenção que ele escrevia coisas bonitas. A escrita dele é um pouco complicada por causa da pontuação. Até brinquei: estilo José Saramago — diz Amaral, referindo-se ao escritor português, Nobel de Literatura.

Eclético amante dos livros, o auxiliar administrativo pensou que o jovem pudesse, talvez, estar reproduzindo textos de outros autores. Abordou-o para conferir:

— De onde você tira isso?

Jonatã:

— Tiro da minha cabeça.

Amaral passou a incentivar o aprendiz e prometeu lhe repassar uns livros.

Palavra de especialista

A pedido da reportagem, o psicanalista e escritor Celso Gutfreind, 37 livros publicados – poesias, infantojuvenis e ensaios –, aceitou ler quatro dezenas de textos de Jonatã. De pronto, Gutfreind agradeceu pelo envio "dessas preciosidades neste mundo que tanto precisa delas". Julgou os poemas como muito bons.

— Meu argumento principal seria o de que me emocionam, e uma poesia que faz isso, segundo (o poeta russo) Maiakovski (que, há muito tempo, me convenceu), teve a coragem de juntar certas palavras pela primeira vez, tornando-se capaz de nos tirar de uma mesmice emocional. Não sei se alguma arte precisa mais do que isso, mas tal efeito está presente na poesia dele — avalia o autor. 

— Também impressiona a qualidade com que mescla a poesia e a prosa, deixando-se levar por um fluxo de consciência, há muito utilizado na tradição de nossa poesia ocidental, mas o fazendo a seu modo. 

Se em um concurso estivesse, como membro do júri, Gutfreind afirma que concederia a Jonatã, no mínimo, uma menção honrosa.

— Como editor, eu recomendaria a sua edição e, como poeta mais experiente, eu o estimularia a continuar escrevendo para melhorar, cada vez mais, uma poesia sempre melhorável na busca de suas imagens mais precisas e seus ritmos mais artesanais. Para que todos os seus versos alcancem, um dia, o nível de "Você fez de meu coração apenas mais uma atração turística..." ou "são muitas expressões poucas compreensões" — acrescenta.

Ler mais para escrever melhor 

No Facebook de Jonatã, multiplicam-se selfies e fotos em família, reunida em churrascos de final de semana. Colore a mão direita do gari uma grande flor _ pelo que ele pesquisou na internet, a imagem representa "amor de mãe". Roseli elogia os dotes culinários do filho do meio, confidencia que ele "deu um pouquinho de problema com as namoradas", mas, em resumo, é "só orgulho". Ela acha perigosa a atividade de gari, relembrando que, há pouco, um colega de Jonatã sofreu um atropelamento.

— Quando ele sai eu dou uma rezada, quando ele volta eu dou uma rezada — conta Roseli.

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 19/12/2019: Jonatã Nunes, empregado da coleta de lixo urbana de Canoas, arrisca-se também como escritor. (Foto: Omar Freitas / Agência RBS)Indexador: Omar Freitas<!-- NICAID(14370670) -->
Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Em meio aos resíduos orgânicos, os moradores também deixam nas calçadas objetos em bom estado que não querem mais. No corre-corre, Jonatã acondiciona, em um vão do caminhão, o que pode ter utilidade. Além de rádios de carro, ventilador, videogame, computador e celular, pinçou 45 livros que agora formam uma incipiente biblioteca em sua estante. O poeta se impôs o desafio de ler mais para escrever melhor.

Como escritor, o grande desejo de Jonatã é que mais gente pudesse apreciar o que ele produz. Gostaria de publicar uma coletânea de poesias, mas sonha, por enquanto, com algo mais singelo. Questionou a repórter como se chamam aqueles eventos em que um autor declama suas poesias para a plateia.

— Isso! Recital, sarau. Eu gostaria de participar de um recital — revela.

Retraído, confessa que, por nervosismo, talvez enfrentasse dificuldade para falar em público.

— Não procuro fama, não procuro glória. Só queria que as pessoas se identificassem com o que escrevo. Sabe quando você se sente um passarinho preso na gaiola e, quando se liberta, vai aos céus voando? Assim que eu me sinto.




 
 
 
 
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