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Dados do IBGE29/06/2020 | 09h16Atualizada em 29/06/2020 | 09h16

Pandemia derruba renda e dificulta a procura por emprego no RS

Massa salarial dos ocupados caiu 17,7%, e 450 mil pessoas gostariam de trabalhar, mas desistiram de procurar vagas, pela pandemia ou por falta de oportunidades

Pandemia derruba renda e dificulta a procura por emprego no RS André Ávila/Agencia RBS
Além das 450 mil pessoas com acesso restrito ao mercado, outras 480 mil eram consideradas desempregadas em maio Foto: André Ávila / Agencia RBS

Encontrar emprego virou tarefa ainda mais árdua durante a crise do coronavírus. Em maio, o Rio Grande do Sul tinha 450 mil pessoas que gostariam de trabalhar, mas não conseguiram procurar vagas em razão da pandemia ou da escassez de oportunidades. Para piorar, a renda de quem seguiu empregado, em média, também sofreu grande impacto, indica o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No mês passado, a soma dos salários dos trabalhadores ocupados atingiu R$ 10,49 bilhões no Estado. Esse indicador é chamado de massa de rendimento médio real efetivamente recebido. Em relação ao que os profissionais somariam habitualmente (R$ 12,74 bilhões), a queda chegou a 17,7%, estima o IBGE. É como se R$ 2,25 bilhões deixassem de ir para o bolso de quem continua atuando.

Os dados integram o estudo Pnad Covid-19, que tenta dimensionar os efeitos do coronavírus no mercado de trabalho e na área da saúde. Para o IBGE, os profissionais ocupados são aqueles que exercem atividades com ou sem carteira assinada. Já os desocupados estão sem atuar, mas seguem em busca de oportunidades. E isso não foi possível para as 450 mil pessoas prejudicadas pela pandemia ou pela falta de vagas.

– Elas podem não ter buscado trabalho por medo de se expor ao vírus, por ver que empresas estavam fechadas ou outros motivos – explica Luís Eduardo Puchalski, gerente substituto de pesquisa do IBGE. 

O estudo não confirma, mas é provável que o grupo reúna pessoas que tenham sido demitidas recentemente. É o caso de Grazielen Chaves, 33 anos. Em razão da crise, ela perdeu, em abril, o emprego de vendedora em uma rede de lojas de calçados. Mãe de uma garota de quatro anos, a moradora de Porto Alegre tem pressa para encontrar nova oportunidade. Mas, desde então, não conseguiu procurar outra vaga. Ela relata que a pandemia resultou em escassez de empregos no comércio.

Com a perda do trabalho, também há dificuldade para contratar uma babá que cuide da filha — e creches seguem fechadas. Diante da situação, Grazielen cogita mudar de ramo profissional:

– Sinceramente, agora não interessa a área, busco o que conseguir. Sempre trabalhei no comércio, mas imagino que, quando as lojas reabrirem, não vão sair contratando.

Apreensão

O quadro vivido por Grazielen espelha uma situação que preocupa no Rio Grande do Sul. Além das 450 mil pessoas com acesso restrito ao mercado, outras 480 mil eram consideradas desempregadas em maio, aponta o IBGE. Juntos, os grupos somam 930 mil, o equivalente a 62,7% da população da capital gaúcha (1,48 milhão).

— Se olharmos só para o número de desempregados, parece que a crise não teve impacto tão grande. Agora, se avaliarmos também o grupo que não procurou vagas em razão da pandemia, é possível projetar que a taxa de desemprego quase dobre assim que essas pessoas voltem a buscar trabalho e a economia retome. É algo que preocupa – frisa o economista Marcos Lélis, professor da Unisinos.

Em maio, a taxa de desemprego foi de 8,4% no Rio Grande do Sul. Esse indicador mede o percentual de desocupados sobre a força de trabalho, que também inclui os ocupados. Segundo dados do Ministério da Economia, o Estado registrou 66,8 mil pedidos de seguro-desemprego no mês passado. É o maior número para o período desde o começo da série histórica, com dados desde 2011.

– Durante a crise, a maior parte das vagas disponíveis está ligada a áreas como a da saúde. Houve aumento na demanda por profissionais como técnicos de enfermagem, por exemplo. Mas isso não quer dizer que não existam outras oportunidades – diz a economista Maria Carolina Gullo, professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS).

Necessidade de plano para saída da crise

O governo federal sinalizou nas últimas semanas que pretende estender o auxílio emergencial e a autorização para suspensão de contratos ou corte de jornada e salários. As ações buscam recompor parte da renda perdida por uma parcela dos trabalhadores, incluindo informais, e preservar empregos com carteira assinada.

Economistas elogiam a possível ampliação, mas reforçam que é preciso ir além. Professor da Unisinos, Marcos Lélis avalia que, devido à perspectiva de retomada lenta, o governo federal terá de encontrar espaço para novas medidas de estímulo no pós-pandemia. Ou seja, isso exigiria ampliar gastos públicos em áreas como infraestrutura, o que vai na contramão do ideário defendido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

– O setor privado já estava debilitado antes do coronavírus. Medidas como autorização para corte de jornada ou suspensão de contratos são válidas agora, mas precisam vir acompanhadas de um plano para saída da crise – diz o economista.

Uma das áreas que carecem de avanços é a concessão de crédito, lembra Maria Carolina Gullo, professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Nos últimos meses, empresas têm feito queixas de que não conseguem acesso a financiamento. Em períodos de turbulência, bancos privados costumam elevar as exigências antes de liberar crédito. Para a economista, o ambiente de negócios também seria beneficiado se houvesse maior testagem da população:

– No Rio Grande do Sul, o modelo criado pelo governo estadual para enfrentar a pandemia (distanciamento controlado) é excelente. Mas precisaríamos testar mais as pessoas. Temos de encontrar equilíbrio entre economia e saúde. Não sabemos ainda se estamos no pico do contágio ou não. Vejo com muita preocupação o futuro da atividade econômica.


 
 
 
 
 
 
 
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