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RECOMEÇO29/09/2020 | 11h56Atualizada em 29/09/2020 | 11h56

Ex-morador de rua volta a estudar em busca de oportunidade de trabalho

Decidido a recomeçar na Capital, Paulo Isaias Maciel ingressou no EJA no início do ano e hoje sonha em conseguir um emprego

Ex-morador de rua volta a estudar em busca de oportunidade de trabalho Isadora Neumann/Agencia RBS
Paulo busca materiais na escola para estudar em casa Foto: Isadora Neumann / Agencia RBS

É em frente à sala 301 do Colégio Marista Vettorello, no bairro Glória, em Porto Alegre, que Paulo Isaias Maciel, 39 anos, relembra das aulas no início do ano: 

– Essa era a sala da minha turma. 

O orgulho remete a uma história de superação. Há dois anos, Paulo saiu de Caxias do Sul para um recomeço na Capital. Com dinheiro suficiente para se manter nos primeiros meses, ele estava determinado a conseguir um emprego.

– Na verdade, não me dei bem. Acabaram-se as condições que eu tinha, e fui para as ruas – relembra um período difícil que passou por cerca de seis meses. 

A situação de Paulo começou a mudar quando teve acesso a serviços sociais como os oferecidos pelo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop). Lá, ele foi encaminhado para albergues e também para o Colégio Marista – na modalidade de Ensino de Jovens e Adultos (EJA) – para retomar os estudos, abandonados há mais de 20 anos. 

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– Quando conheci o pessoal do Marista, viram minha vontade de mudar de vida, de trabalhar, e me apresentaram as vagas para estudar. Enxerguei no estudo uma forma de reconquistar minha dignidade – afirma Paulo, que reingressou no sexto ano.

Conquistas

Assim que as aulas começaram, em fevereiro deste ano, Paulo teve de enfrentar um dilema: estudar ou ter um abrigo para passar a noite. 

– Eu tinha que escolher, porque o horário em que o albergue fechava era o mesmo em que a aula começava. Não tinha flexibilizações. Aí optei por ficar nas ruas para continuar estudando. Até que uma assistente social me ajudou a conseguir vaga em outro abrigo, que me recebia após a aula – relata. 

Em razão da pandemia do coronavírus, Paulo teve acesso ao aluguel social, no valor de R$ 500, e, hoje, mora em uma casa no bairro Mario Quintana, na Zona Norte. No entanto, ele ainda não possui qualquer fonte de renda. Desempregado, recebeu apenas a primeira parcela do Auxílio Emergencial. Sua situação está em reanálise, atualmente.  

– Estou sendo sustentado por doações, de cestas básicas, roupas e calçados. Ainda fica faltando R$ 60 para completar o aluguel, mas minha ex-companheira me ajuda. Ela também veio para cá em busca de oportunidade e mora comigo – conta.

Paulo: “Deito e levanto pensando em trabalhar”

Quando Paulo vivia em albergues, foi chamado diversas vezes para entrevistas de emprego, mas nunca obteve retorno positivo: 

–  No momento em que eu dizia que morava num albergue, as pessoas já me olhavam diferente. Elas imaginam que quem mora em albergues é criminoso ou dependente químico. Mas, no meu caso, era a situação financeira.  

O sonho de trazer a filha de nove anos, que ainda está em Caxias, com familiares, só se concretizará quando Paulo tiver um emprego de carteira assinada: 

– Meu desafio, hoje, é poder trabalhar, pois voltar a estudar foi bom. Mas conseguir um emprego está sendo muito difícil. Deito e levanto pensando nisso. Tive todo o esforço de conseguir a casa e, por isso, a maior preocupação é quando os benefícios acabarem. Às vezes, o tombo acaba sendo bem pior. Mas eu estou confiante de que vou conseguir um emprego. 

Com uma bagagem de conhecimento na área de transporte – carga e descarga, coleta e entrega – e também na produção industrial, o ex-morador de rua se mantém esperançoso:

– Experiências e vontade, eu tenho de sobra. Só falta a oportunidade. 

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - 23.09.2020 - Paulo, 40 anos, é ex-morador de rua. Desde o ano passado, quando ainda estava nas ruas, ele vivia um impasse entre estudar ou conseguir abrigo. Ele começou a frequentar as aulas noturnas do EJA, no Colégio Marista, e devido ao horário que a aula acabava, ele não conseguia vaga em albergues. Com a chegada da pandemia, ele conseguiu uma casa com o auxílio moradia. Hoje, ele ainda continua estudando e buscando qualificação, mesmo com dificuldades no acesso remoto. (Foto: Isadora Neumann/Agencia RBS)Indexador: ISADORA NEUMANN<!-- NICAID(14599613) -->
Antes da pandemia, onde Paulo estudavaFoto: Isadora Neumann / Agencia RBS

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Média de alunos do EJA não caiu

Mesmo com as dificuldades impostas pela pandemia, o ingresso de alunos no segundo semestre do EJA não teve baixa no Vetorello, em relação aos outros anos. Segundo o vice-diretor do colégio, Silverio Cassoli, os meios de captação de estudantes foram adaptados, assim como o formato das aulas: 

– Normalmente, mantemos contato com lideranças comunitárias durante a abertura das vagas. Mas nos reinventamos. O lançamento das bolsas foi feito por meio de live no Facebook e teve mais 16 mil pessoas assistindo. Recebemos 155 novos alunos e ainda tivemos a turma de 104 formandos.

Os alunos do EJA continuaram o ensino por meio das redes sociais e, para aqueles que não possuem acesso à internet, o colégio disponibilizou o material impresso para ser buscado. Além do conteúdo didático, a Rede Marista apoiou outras necessidades, como alimentação, com a entrega de cestas básicas. O próximo passo é oferecer chips de dispositivos móveis para os estudantes acompanharem aulas remotas. 

– Está difícil estudar só com o material em casa, mas minha ex-companheira, que está no terceiro ano do Ensino Médio, me auxilia. Aí, vou até o colégio buscar o material. As provas, vou fazer pelo WhatsApp – explica Paulo, destacando que só conseguiu um celular com o aplicativo na semana passada. 

Nas escolas municipais da Capital, os alunos que frequentam o EJA recebem atividades remotas por meio da Plataforma Córtex – em especial os estudantes das totalidades finais, em função da maior autonomia que apresentam para realizar as tarefas.

Motivação

Conforme a assistente social Lucilene Stifft, a atuação do colégio em relação à entrada desses alunos no mercado de trabalho é no formato de auxílio e orientações: 

– Ajudamos a consultar vagas, a usar o computador da biblioteca para fazer e imprimir currículos. E, na disciplina de empreendedorismo, a como participar de entrevistas e se preparar para vagas. 

Para a assistente social Carolina Bon Alvares, que acompanhou a evolução de Paulo, existem casos que incentivam outras pessoas a recomeçar, como de pais que levam os filhos e acabam estudando também:

– Percebo que muitas pessoas chegam desmotivadas, sem esperança. Mas, após, o encerramento do Ensino Médio, elas vão para cursos técnicos e saem das áreas nas quais atuavam. Conseguem estágios e empregos de carteira assinada, e a primeira coisa que fazem é nos mostrarem os crachás. É muito gratificante.

VEJA COMO INGRESSAR NO EJA

/// Rede Marista Vettorello: a abertura de matrículas tem previsão para ocorrer entre outubro e dezembro, para ingresso no início de 2021. Interessados podem ligar para escola e obter mais informações. Telefone: (51) 3086-2050. 

/// Na rede municipal de Porto Alegre, as inscrições ocorrem no final de cada ano para o ano seguinte. Os alunos podem buscar vaga a qualquer momento, diretamente na escola mais próxima da sua residência. Devido à pandemia, é importante entrar em contato com o colégio para fazer um agendamento, e não comparecer pessoalmente ao local. Também pode ser encaminhado e-mail com a solicitação para ajustamento@smed.prefpoa.com.br.

/// O EJA é ofertado em 32 escolas municipais da Capital, sendo uma delas a Escola de Surdos Bilíngue Salomão Watnick. Ao todo são ofertadas 6.167 vagas na modalidade.

Produção: Caroline Tidra 

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