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Racismo Estrutural20/11/2020 | 13h16Atualizada em 20/11/2020 | 13h22

A brutalidade no espancamento de João se explica pela animalização da pessoa negra

A origem de tanta violência está na forma como a sociedade brasileira foi moldada

Liliane Pereira
Liliane Pereira

A resposta para o motivo de tamanha brutalidade com a qual João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi assassinado, na noite desta quinta-feira (19), em um supermercado da zona norte de Porto Alegre, está em uma denominação que tem sido muito divulgada, porém, pouquíssimo compreendida: o racismo estrutural.

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Em palavras bem didáticas, esse conceito se baseia no fato de que a estrutura da sociedade brasileira foi forjada em cima da escravidão, da animalização e da tortura do povo negro escravizado.

Em uma pesquisa rápida em livros sobre esse período, é possível ter acesso a estudos sérios que tratam do fato de que, para justificar a manutenção da escravidão por cerca de três séculos, cientistas criaram uma tese de que os negros eram tão inferiores intelectualmente que não tinham sentimentos humanos. Só serviam para o trabalho braçal ou para as tarefas que, até então, eram destinadas aos animais.

Nessa bestialização, era comum que os negros fossem chicoteados, surrados e espancados até a morte, ou até o mais próximo disso possível, desde que não causasse o prejuízo da perda de uma peça.

Sim, uma peça. Um pedaço de carne que tinha um custo alto, mas nenhum valor. 

É por isso que, quando Giovane Gaspar da Silva e Magno Braz Borges estavam espancando João, eles — e quiçá outras pessoas em volta — estavam achando normal tudo aquilo acontecer. Afinal, era só um homem negro. Os racistas costumam mesmo associar a imagem da negritude à marginalidade. 

Inclusive, para a funcionária do supermercado, parecia tudo tão normal que ela não só deixou de chamar ajuda como teve o sangue frio de ficar a poucos passos do espancamento e filmar a cena como se estivesse em um passeio turístico.

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Hoje, no Dia da Consciência Negra, pipocam repetições da frase creditada a Nelson Mandela de que "ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar".

O problema do Brasil é que os negros nascem odiados por um número imenso de pessoas racistas, que são a herança de uma era escravocrata e que seguem bestializando os negros. As teorias da Educação realmente defendem que nós nos tornamos que somos ensinados a ser. 

Mas a teoria de Mandela só funcionaria se tivéssemos nascido em um ambiente neutro, no qual ninguém ensinasse o outro a ter preconceito com a cor da pele. E esse, definitivamente, não é o caso do país em que vivemos.

Quando George Floyd, homem negro que morreu asfixiado por policiais em maio, nos Estados Unidos, disse que não conseguia respirar, ele resumiu toda a vida do negro. A gente não consegue respirar, o racismo e as mortes brutais de pessoas negras nos sufocam.

 
 
 
 
 
 
 
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