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Coluna da Maga27/11/2020 | 09h00Atualizada em 27/11/2020 | 09h00

Magali Moraes: um pai radioamador

Colunista escreve às segundas e sextas-feiras no Diário Gaúcho

Magali Moraes: um pai radioamador Fernando Gomes/Agencia RBS
Magali Moraes Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Essa coluna é uma vontade de despertar lembranças adormecidas e matar a saudade do meu pai. Ele era radioamador. Não me recordo que idade eu tinha quando o primeiro equipamento apareceu lá em casa. Esse hobby durou toda a minha infância e acho que boa parte da adolescência. A gente não entendia por que ele gostava tanto de ouvir aqueles chiados incompreensíveis, falar num microfone e instalar antenas enormes no telhado de casa. Nem o vento forte impedia meu pai de se comunicar.

Na época, tudo parecia tão esquisito. Era um comportamento excêntrico, um universo paralelo. Ah se eu soubesse que estava testemunhando uma rede social muito antes disso existir como conhecemos hoje. Uma época sem internet, entende? O pai conversava com gente que ele nem conhecia, e que morava do outro lado do mundo. Os radioamadores usam códigos pra se identificar. Pra nós, aquilo era uma língua própria. Eu devia ter ficado ali perto mais tempo. Não fui curiosa o suficiente.

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Cantinho

Pensando agora, talvez fosse invasão de privacidade. Meu pai curtia o seu cantinho. Em uma peça da casa muito fria no inverno (e quente demais no verão), ele construiu sua base. A traquitana só aumentava em cima da mesa. Como ele gostava da função! De dia, consertava os dentes tortos dos pacientes. De noite e no fíndi, os aparelhos eram outros. Meu pai sintonizava e sorria. Fez grandes amigos no radioamadorismo. Gastava saliva falando. Até a busca da antena perfeita o divertia.

A lição que ficou? Não importa se é estranho, desde que te faça feliz. Hoje entendo com clareza. O pai se dedicou a uma paixão. Daí eu me pergunto: o que meus filhos vão lembrar de mim quando eu não estiver mais aqui? Que recordações serão marcantes? Eu escrevendo as colunas, sempre atrás de assunto novo? Descobrindo o mundo dos vinhos e também me apaixonando? Eles vão lembrar dos livros que escrevi e das sessões de autógrafo? Só sei de uma coisa. Pai, te sinto agora aqui.


 
 
 
 
 
 

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