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Avanço do coronavírus19/11/2020 | 08h41

Novembro dá sinais de piora na pandemia em Porto Alegre

Capital registrou aumento da procura por hospitais, postos de saúde, unidades de pronto atendimento e novos casos; prefeitura cogita fechamentos

Novembro dá sinais de piora na pandemia em Porto Alegre Lauro Alves/Agencia RBS
Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Após um pico em agosto e uma melhora entre setembro e outubro, a pandemia de coronavírus dá sinais de piora em novembro em Porto Alegre, indicam estatísticas da Secretaria Municipal da Saúde (SMS). A mudança no quadro é apontada por especialistas e reconhecida por prefeitura e governo do Estado, e ocorre em meio ao cansaço da população, ao risco de aglomeração no fim de ano e ao aumento da procura por tratamento de outras doenças.

A piora motivou a prefeitura de Porto Alegre a suspender, nesta quarta-feira (18), novas flexibilizações no comércio. Em nota, o Executivo municipal diz que a medida "se deve ao cenário epidemiológico apresentado nas últimas semanas, com estabilidade e possível tendência de aumento dos indicadores". O governo pede que as pessoas reforcem o distanciamento social.

Em entrevista a GZH, o secretário-adjunto de Saúde de Porto Alegre, Natan Katz, afirma que, caso a piora continue, a prefeitura considera impor novas restrições para promover o distanciamento e evitar problemas no sistema hospitalar.

Especialistas rechaçam a ideia de uma segunda onda de contágio porque o fenômeno é tipicamente europeu: o lockdown impôs uma queda acentuada nas infecções, enquanto que, aqui, manter atividades estabilizou a epidemia em patamares altos de transmissão. Preferem, no lugar, falar de uma piora da primeira onda após a flexibilização de atividades.

As novas mortes em Porto Alegre, o último indicador a sofrer alguma alteração, é o único número em queda, refletindo um cenário de semanas atrás. Mas o volume de novos casos e a busca por hospitais, postos de saúde e unidades de pronto atendimento (UPA) sobe em novembro. Na última semana, o uso de leitos clínicos (estado de saúde moderado a grave) por pacientes com coronavírus foi o maior desde os primeiros dias de setembro.

Outro indicador hospitalar, a ocupação de leitos nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) voltou a subir após atingir o menor patamar no início de novembro. A mudança reflete um aumento de infecções após o feriadão de 12 de outubro.

— Independentemente de chamar de segunda onda ou de reforço da primeira, afrouxar atividades aumenta infecções. A gente observava até o final de outubro uma tendência a uma redução de casos e de ocupação de UTIs, o que foi modificado nas últimas semanas de novembro. As pessoas, com a falta de mobilização e de alerta, vão relaxando. Não estamos no pior momento, mas há uma tendência de aumento — resume Alexandre Zavascki, médico infectologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

No Sistema Único de Saúde (SUS), os diagnósticos de síndrome respiratória (gripe causada por coronavírus, H1N1 e outros vírus) em UPAs e postos também cresceram em novembro, o que evidencia uma tendência anômala: com o fim do inverno, deveria haver queda, segundo Jaqueline Rocha, gerente da UPA Moacyr Scliar, a maior da Zona Norte.

A unidade é responsável por atender pacientes que aguardam vaga em hospital. Por ter registrado mais entradas do que altas, a Moacyr Scliar chegou a suspender, temporariamente, atendimentos por doença respiratória ao menos três vezes em novembro.

— Pelo grande número que temos de casos confirmados de covid, provavelmente o aumento de síndrome gripal é porque há mais casos de covid, que tem transmissibilidade maior do que outros vírus. É natural que ela circule mais e os números se mantenham mais altos por um período maior. Parece que estamos tendo números mais altos do que no mês passado. Estamos em nível de alerta — diz Jaqueline.

Em ao menos duas ocasiões nas últimas semanas, o Hospital Moinhos de Vento suspendeu o atendimento de casos de coronavírus em UTIs por lotação. A instituição não desativou nenhum leito de covid-19.

Outros hospitais fecharam temporariamente as vagas nas UTIs de coronavírus para atender pacientes com outras doenças cujos tratamentos não ocorreram durante o inverno. Caso a pandemia piore, esses leitos podem ser novamente usados apenas para covid-19, mas especialistas se preocupam com a pressão das duas demandas.

— Os profissionais de saúde estão exaustos e agora temos a onda de doenças crônicas que tiveram um retardo e começam a lotar UTIs. O risco de termos as duas ondas, covid e não covid, é o esgotamento dos leitos, algo que a gente conseguiu evitar até agora. Não é questão de abrir tudo ou fechar tudo. Precisamos evitar aglomeração e usar máscara — observa Lucia Pellanda, professora de Epidemiologia e reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

Na terça-feira (17), a prefeitura pediu para o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) reativar leitos de UTI para covid-19.

— Em dezembro e janeiro, é possível que tenhamos aumento da demanda de leitos como vivenciamos em julho, agosto e setembro. Porto Alegre ainda tem prevalência baixa de coronavírus, portanto, há muitas pessoas suscetíveis. As pessoas vão cansando do distanciamento e podem flexibilizar o uso de máscaras em um contexto de férias, festas e calor intenso — diz Ricardo Kuchenbecker, médico epidemiologista do HCPA.

Porto Alegre registra 1,4 mil mortos por coronavírus, um dos 10 melhores resultados dentre todas as capitais brasileiras, mas um total de vítimas maior do que países inteiros, como Dinamarca, Senegal e Uruguai. Não houve superlotação do sistema de saúde, ao contrário de outras capitais.

Prefeitura cogita fechamentos

A possível piora na pandemia em Porto Alegre está sendo acompanhada pela prefeitura, que reconhece a deterioração de alguns indicadores. O secretário-adjunto da Saúde, Natan Katz, ressalva que é preciso aguardar mais antes de afirmar que UTIs estão mais ocupadas, mas reconhece que há aumento de casos e de busca por consultas no SUS:

— Na Europa, há um crescimento muito expressivo de casos, mas a curva de ocupação de internação e de óbitos não tem tanta força. Ao mesmo tempo, não dá para ignorar o que está acontecendo no Brasil: São Paulo, Florianópolis e Curitiba falam em recrudescimento. A gente pode estar crescendo de novo a transmissão da covid em Porto Alegre, mas não dá para ter certeza, precisamos de mais consistência.

Se a pandemia seguir piorando, o secretário-adjunto da Saúde afirma que há duas estratégias: aumentar o número de leitos e restringir atividades, como decidiu nesta terça-feira, ao impedir novas flexibilizações no comércio.

— Se a gente está em momento de alerta, não faz nenhum sentido manter a flexibilização (do comércio). Quanto mais segurança temos do controle da pandemia, mais permissivos podemos ser. Mas, se tivermos menos segurança, precisamos ser menos permissivos. Avisamos agora à sociedade: não é o momento de flexibilizar mais — argumenta Katz.

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Questionado sobre se a prefeitura considera voltar a impor restrições se a pandemia seguir ganhando força, Katz responde que sim. Ele afirma que não há como afirmar que pode haver piora no verão e que o Executivo se preocupa com a demanda por atendimento de pessoas com coronavírus e outras doenças.

— No verão, Porto Alegre usualmente tem menor movimento de emergências porque parte da população migra para o Litoral. O verão, então, poderia ser de menor risco. Mas o fim do ano nos preocupa: temos receio de as pessoas se reunirem para confraternizar e do cansaço. O maior desafio do sistema de saúde de Porto Alegre no fim de 2020 e início de 2021 será dar conta da demanda de covid e de outras doenças. A tendência é de que piorou a covid, então vai ser mais difícil de atender o que não é covid, o que vai aumentar a fila de espera. Para isso, discutimos aumento de horário de atendimento e telemedicina — diz.

Leia a continuação desta reportagem:
Governo do Estado monitora a piora da pandemia em Porto Alegre

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