Campeãs de jiu-jítsu, irmãs de 11 e 9 anos treinam em estofaria e pedem doações em sinaleiras para seguir competindo - Notícias

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Superação07/01/2021 | 14h12Atualizada em 07/01/2021 | 14h12

Campeãs de jiu-jítsu, irmãs de 11 e 9 anos treinam em estofaria e pedem doações em sinaleiras para seguir competindo

Pais venderam computador e celulares para custear sonho das filhas

Campeãs de jiu-jítsu, irmãs de 11 e 9 anos treinam em estofaria e pedem doações em sinaleiras para seguir competindo Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

O primeiro quimono foi emprestado. Tifani Kauane Freitas, então com 8 anos, só se deu conta de que a vestimenta era inferior quando o pai de uma adversária disse “vai ser fácil, filha, olha para ela”. Tifani ouviu a conversa, subiu no tatame e venceu, na estreia em competições de jiu-jítsu, em novembro de 2017.

– O quimono não faz ganhar, e sim os ensinamentos do meu mestre - disse a menina ao fim da disputa.

Hoje com 11 anos, Tifani já disputou torneios em Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo, e se tornou campeã mundial na categoria sub-12. A irmã de 9 anos, Ane Beatriz, a Pitty, apelido ganho nas competições, levou o vice.

As vitórias expostas em casa ocupam toda a parede da sala. São mais de duzentas medalhas, além de cinco cinturões. Para ampliar as conquistas nesse espaço, o resto do imóvel, de construção precária, precisou ser deixado de lado. A residência, no bairro Partenon, zona leste de Porto Alegre, tem o forro quebrado na cozinha, buracos nos revestimentos de madeira e o piso irregular em toda área - são dois quartos, para os sete filhos do casal.

Desempregada, fazendo bicos como faxineira ou vendendo lanches na rua, a mãe das meninas parou até de comprar carne no mercado.

– Teve mês que passamos só com arroz, feijão, salada e ovo para pagar inscrições, viagens, roupa, tudo pelo sonho delas – justifica Rita de Cássia Freitas, 40 anos.

A mais velha das garotas da casa, atualmente com 18 anos, desistiu do esporte por falta de condições financeiras de mantê-lo.

Há poucos meses, um caminhão da CEEE chegou ao imóvel para desligar a energia da residência, que estava com o pagamento atrasado. Os funcionários se compadeceram com a história e não fizeram o serviço. A família conseguiu quitar o boleto alguns dias depois. Celulares e um computador foram vendidos para colocar as contas em dia.

A única renda fixa da casa é do pai, servidor do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae). Aos finais de semana, as garotas acompanham Rita a sinaleiras da Avenida Ipiranga, com um banner em que expõem o sonho de continuar competindo. Recebem doações de quem passa pela esquina com a Rua Guilherme Alves, bairro Jardim Botânico. A mãe também vende balas de goma no sinal. 

– Uma senhora uma vez me ligou e disse que só tinha R$ 20 para me ajudar. E pediu desculpas. Eu disse para ela que faria muita diferença para nós - relembra. 

As campeãs têm um torneio no fim do mês, no Rio de Janeiro. Sem os R$ 6 mil estimados entre passagens, inscrições e hospedagem, já pensam em desistir. Em fevereiro, uma seletiva será realizada no Paraná, e a meta é competir. 

Ao ver as chances de patrocínio distantes, Tifani faz uma comparação com a paixão nacional, por onde circulam cifras bilionárias:

- No país do futebol, o tatame é o meu gramado. 

Treinamento em estofaria adaptada  

Enquanto buscam apoio para as viagens, elas treinam em uma estofaria com o mestre Alexandre Moura da Rosa, o Jaca – corruptela de Jacaré. O treinador montou o local de reparos em costura há 27 anos. Faixa preta no jiu-jítsu, decidiu ocupar parte do prédio com um tatame de lona, área demarcada com sarrafos de madeira. Com o tempo, foi ampliando a academia, e hoje diz ter apenas 10% do espaço para os estofados. 

– No mês passado, tirei quase R$ 500 da estofaria, que é meu ganha-pão, para pagar os custos das aulas e competições das crianças - afirma.

No local, 60 crianças recebem lições da arte marcial. Jaca afirma cobrar um valor mínimo, que viabiliza parte do aluguel e despesas com água e luz. Ele também vai para a sinaleira ajudar nos pedágios em troca de verba para as disputas. No esporte em que todos querem a vitória, o mestre chora ao lembrar derrotas marcantes. 

– Eu tinha um aluno que abandonou os treinos e disse que precisava sustentar a família. Eu insisti pra ele ficar, mas os bandidos ofereceram mais. Como vou competir com os traficantes? Já perdi uns três, mas salvei muito mais - afirma, novamente emocionado. 

Jaca busca a solidariedade de voluntários para a troca do tatame e a compra de quimonos novos, cedidos aos alunos. O comércio fica na Avenida Bento Gonçalves, 3.725, quase esquina com a Avenida Rócio, também no Partenon, próximo à casa das meninas.

O motorista de aplicativos Fábio Silveira Lopes, 39 anos, é outro pai orgulhoso por ter uma campeã mundial em casa. Millene, 11 anos, venceu em 2020 a disputa no Estado de São Paulo. 

Com renda limitada, ele lembra do dia em que as crianças sugeriram vender as medalhas para realizar o sonho da equipe: comprar uma van para o deslocamento nas competições. 

– É tudo muito caro, mas as crianças adoram estar aqui. Dá para ver na cara do Jaca que ele ama isso – afirma o transportador. 

Contatos com a mãe das meninas podem ser feitos pelo telefone (51) 9-9301-4113. Já o treinador atende no (51) 9-8034-4927. Quem quiser ajudar, também pode depositar qualquer valor na conta da família.

Dados bancários

  • Caixa Econômica Federal (banco 104)
  • Agência: 0445
  • Conta poupança: 22738-4
  • Operaçao: 013
  • Crifane Jenifer Freitas Roedes (conta aberta em nome da irmã que deixou de competir)
  • CPF 064.747.630-43
 
 
 
 
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