Como uma cartinha para o Papai Noel ajudou um menino de 11 anos que sonha em ser confeiteiro - Notícias

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Família de baixa renda06/01/2021 | 09h19Atualizada em 06/01/2021 | 09h19

Como uma cartinha para o Papai Noel ajudou um menino de 11 anos que sonha em ser confeiteiro

Professora de gastronomia pegou o bilhete aleatoriamente e, desde então, começou a dar aulas de graça para a criança

Como uma cartinha para o Papai Noel ajudou um menino de 11 anos que sonha em ser confeiteiro Lauro Alves/Agencia RBS
No Natal, João Vitor fez uma torta coberta com papel de arroz da Mulher-Maravilha para a família Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

À espreita na cozinha, João Vitor observa a mãe e a avó preparando o brigadeiro na panela. A guloseima irá cobrir cupcakes e tortas - doces famosos na casa do bairro Logradouro, uma das comunidades mais pobres de Guaíba, na Região Metropolitana. Para ajudar a família, de renda limitada ao aluguel de duas peças no terreno onde vivem, o menino de 11 anos chegou a se oferecer como auxiliar na venda de bombons caseiros.

Foi ao observar o trabalho das matriarcas que ele cultivou o sonho de se tornar confeiteiro. Faltava, no entanto, o básico para iniciar a profissão: dinheiro para se especializar no preparo dos alimentos, vestimentas e utensílios de um chef. Faltava.

Ao escrever o desejo em uma cartinha ao Papai Noel, contou com o imponderável, e o pedido chegou às mãos de uma professora de gastronomia. 

– Eu peguei três cartinhas sem ler antes. Foi coisa do destino – justifica a confeiteira Valéria Carvalho, 44 anos.

Instrutora em cursos de confeitaria e panificação, Valéria ofereceu as lições de forma gratuita, além de doar ao garoto o avental, a touca e alguns dos itens necessários para o preparo dos doces. Em frente ao Café e Bistrô da Praça, no centro da cidade, os dois começaram uma amizade.

Nas aulas, João Vitor explica ter aprendido a esticar a massa, assar o pão-de-ló e a montar camadas de bolos, modelar pastéis e palmier – massa folhada também conhecida como orelha de macaco. Confiante, contou também que a noite de Natal teve uma receita sua.

– Fiz uma torta coberta com papel de arroz da Mulher-Maravilha, e rosas. A massa foi de chocolate com brigadeiro e morango - explica o garoto, que reconhece ter tido o apoio fundamental das mulheres de casa.

Além do bolo para consumo próprio, ele confeitou outro, por encomenda. Havia, ainda, uma venda extra agendada para o Ano-Novo, mas a família não tinha recursos para a compra dos insumos necessários e o pedido foi negado.

Tatiane Silveira Canut, 40 anos, sustenta João Vitor e os quatro irmãos. Além do rendimento do aluguel do pequeno imóvel familiar, conta com a pensão paga pelo pai dos filhos, com quem diz ter uma boa relação. Os rendimentos, contudo, são apertados para as despesas mensais. E ela ainda perdeu o emprego de recepcionista devido à pandemia.

- Eu sonho com ele dono de uma confeitaria.

Valéria já perdeu a conta de quantos jovens encontraram uma profissão a partir de seus ensinamentos. Se mostra emocionada com o carinho de João Vitor e relembra mensagens enviadas por outra aluna, que diz ter superado um quadro de depressão assim que entrou para a classe. 

- Os áudios me fazem chorar, porque ela, e outras também, dizem que suas vidas mudaram – afirma a técnica em confeitaria. 

Diretor comercial da panificadora Motasa, Luciano Fregapani ouviu a história de João Vitor na Rádio Gaúcha. Ofereceu 50 quilos de farinha de trigo produzidos no moinho de sua empresa, além de incentivos para que o garoto siga o caminho sonhado, como cursos e um kit de confeitar. 

- Ainda vão ouvir falar dele no futuro como chef confeiteiro. Temos de dar oportunidade para quem quer se desenvolver – defende o apoiador. 

A Casa do Padeiro, na Capital, e as empresas Guaíba Embalagens e Cindreia, comércio de alimentos, cederam os espaços e são parceiras no projeto de apoio a João Vitor. 

Contatos com a família podem ser feitos pelo telefone da mãe, Tatiane: (51) 9-9792-3142. Valéria atende no (51) 9-8501-2918.

 
 
 
 
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