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Retrato da pandemia25/03/2021 | 08h38Atualizada em 25/03/2021 | 08h38

Um ano após primeira morte, coronavírus faz vítimas mais jovens e com menos comorbidades no RS

Esgotamento hospitalar, avanço da vacinação entre idosos e novas variantes são hipóteses para mudança no perfil de quem morre com covid-19

Um ano após primeira morte, coronavírus faz vítimas mais jovens e com menos comorbidades no RS André Ávila / Agencia RBS/Agencia RBS
Dados de óbito entre pessoas mais jovens confirmam relatos de hospitais sobre mudança no perfil dos doentes graves Foto: André Ávila / Agencia RBS / Agencia RBS

 Passado um ano desde que a covid-19 fez sua primeira vítima no Rio Grande do Sul, uma idosa internada em Porto Alegre, a pandemia se aproxima da marca de 20 mil óbitos entre os gaúchos em ritmo acelerado e com mudanças no perfil dos mortos.

Contabilizadas as 17.748 pessoas que perderam a vida para o coronavírus desde 24 de março, quando foi confirmado o primeiro caso fatal 78,5% eram idosos, e praticamente nove em cada 10 apresentavam comorbidades como problemas cardíacos ou diabetes. Analisadas somente as notificações emitidas em março — quando o descuido com medidas de prevenção e a disseminação de variantes do vírus colocaram a pandemia em subida exponencial de contágio —, o padrão das vítimas também revela mutações. 

O percentual de mortos com menos de 60 anos, por esse recorte, avança de 21,5% para 27,8%, enquanto a fração de idosos recua de 78,5% para 72,2%. A fatia de vítimas com algum tipo de doença associada cai de 86% para 79%, e a proporção de contaminados que contava com boa saúde até então passa de 14% para 21%. 

Ou seja, a covid-19 faz cada vez menos distinção entre jovens e velhos, saudáveis e doentes, no Rio Grande do Sul. Ainda não é possível apontar com certeza as causas para esse fenômeno, que já vinha sendo observado nos registros de internação hospitalar de doentes graves. É possível que esteja ocorrendo uma combinação de fatores. 

— Pode ser um efeito das variantes, mas sempre precisamos considerar que a própria exaustão do sistema de saúde também pode ser um determinante. O melhor é seguir o caminho da cautela (para analisar esse quadro) — observa o virologista e professor da Universidade Feevale Fernando Spilki. 

A variante P1, que foi identificada em Manaus e se espalhou pelo Rio Grande do Sul nas últimas semanas, está associada a níveis mais altos de transmissão e poderia estar por trás do agravamento da covid em pessoas mais jovens e com menos doenças crônicas. 

O aumento das mortes entre a faixa etária abaixo dos 60 anos também poderia estar associada a uma maior dificuldade de acesso ao atendimento hospitalar em razão da sobrecarga imposta pela gigantesca onda de novos casos ao sistema de saúde. Assim, pacientes que anteriormente contavam com um bom prognóstico de recuperação ficariam mais sujeitos a complicações. Na tarde desta quarta, a lotação geral das unidades de terapia intensiva (UTIs) no Estado estava em 105%.

Outra possibilidade cogitada por Spilki é que a vacinação dos mais velhos, beneficiados no cronograma de imunização em comparação a outros grupos, já esteja resultando em uma maior proteção a essa faixa etária em cidades onde esse processo está mais avançado. 

Os dados indicam também um leve avanço das notificações de óbito entre mulheres na comparação de março com a média geral da pandemia — o percentual total de 46% oscilou para 48% neste mês.

Em março, covid-19 provoca uma morte a cada sete minutos no RS 

Ao completar um ano de mortes no Rio Grande do Sul, o coronavírus apresenta sua face mais violenta aos gaúchos. 

Desde o começo de março, quando a doença se agravou em escala exponencial, o vírus vem matando uma pessoa a cada sete minutos no Estado. Isso é cinco vezes mais do que a média vista nos meses anteriores. 

Em números absolutos, apenas neste mês a doença já deixou 4.890 mortos. Desde a chegada do novo vírus, a incapacidade de frear o contágio entre a população resultou, até a tarde desta quarta-feira, em uma multidão de 17,7 mil pessoas mortas pela pandemia. Isso é o equivalente à população de uma cidade do porte de Imbé, no Litoral Norte, ou Giruá, nas Missões, e supera o número de habitantes de 77% dos municípios gaúchos.

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É como se todos os moradores de um bairro do tamanho da Cidade Baixa, na Capital, desaparecessem, um a um, ao longo de apenas 12 meses. Conforme projeções do doutor na área de Computação e professor do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) João Comba, a tendência é de que essas cifras sigam aumentando em ritmo intenso pelo menos pelas próximas semanas. 

Os cálculos indicam que o Estado pode ultrapassar a marca de 20 mil óbitos na virada para abril, e chegar a 23 mil vidas perdidas até o dia 7 do próximo mês. 

— Essa previsão assume que a curva de crescimento irá manter a tendência das últimas duas semanas, que é de alta. Por isso, previsões que vão além de 15 dias podem ser muito pessimistas caso a curva comece a desacelerar — pondera Comba. 

Conforme reportagem publicada na terça-feira em GZH, medidas de restrição adotadas pelo Estado nas últimas semanas começaram a diminuir a pressão de internações sobre leitos clínicos. Se essa tendência se mantiver e reduzir a quantidade de pacientes que agravam e vão parar nas UTIs, e posteriormente encolher o número daqueles que eventualmente morrem, essa curva pode ser amenizada. Para isso, é fundamental a população manter cuidados como distanciamento social, uso de máscara e higienização das mãos. 

 
 
 
 
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