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Hermano solidário 04/05/2021 | 09h51Atualizada em 04/05/2021 | 17h22

De triciclo, barbeiro argentino vai a Redenção cortar cabelo de moradores de rua

Profissional frequenta o parque todos os domingos

De triciclo, barbeiro argentino vai a Redenção cortar cabelo de moradores de rua Félix Zucco / Agencia RBS/Agencia RBS
Carlos Rios vive há 43 anos em Porto Alegre Foto: Félix Zucco / Agencia RBS / Agencia RBS

Em 1978, o jovem Carlos Rios fugia da ditadura militar que assolava a Argentina. Deixou a família em Buenos Aires e, aos 24 anos, se acomodou em Uruguaiana. Ficou pouco tempo na Fronteira Oeste e decidiu buscar vida nova em Porto Alegre. Trouxe consigo a profissão de barbeiro e cabeleireiro, iniciada ainda na adolescência em sua terra natal. 

Quarenta e três anos depois, o argentino não criou riqueza, contudo mostra orgulhoso a filha, gaúcha, de 18 anos. Elevou a expressão “hermano” ao retribuir um pouco do acolhimento recebido: todos os domingos, sobe na bicicleta de três aros e se dirige ao parque da Redenção, onde corta o cabelo e a barba de pessoas em situação de rua. 

— Eles estão na miséria, mas posso contribuir para estarem com um aspecto melhor. Quando estão barbudos e com o cabelo feio, as pessoas mostram medo. Acham que são criminosos. E na maioria são pessoas boas — diz. 

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O profissional leva suas “ferramentas” em uma maleta presa no bagageiro do triciclo. Tanto o acessório quanto o veículo foram doados por um cabeleireiro que ficou tocado ao conhecer o voluntariado. Banners e um tripé para conectar o celular também são transportados. Pelo telefone, o barbeiro grava parte da rotina, publicada no perfil @lokoloco625 no Instagram.  

Para evitar exposição ao coronavírus, troca as luvas descartáveis a cada atendimento. Veste touca, macacão e máscara modelo N95 PFF2. Afere a temperatura dos clientes antes de iniciar o corte e espirra álcool gel a todo instante — até mesmo a reportagem de GZH teve de higienizar as mãos mais uma vez, a pedido do barbeiro. 

— Tem que te cuidar, guri — reforça.

Na tarde deste domingo (2), o voluntário pedalou até a Redenção, no bairro Farroupilha, logo cedo. Atendeu quase sem descanso das 9h às 17h, e recebeu o pagamento que busca da população de rua: gratidão. Há quem guarde trocados durante a semana para presenteá-lo, garante. 

— Deixa o cara elegante. O cara sai show de bola — afirma Marcelo Gonçalves, 48 anos, com o cabelo bem aparado. 

Carlos Rios vive em um estacionamento no bairro Rio Branco. A peça foi cedida pelos pais de Edson Ribeiro, 62 anos, atual proprietário do estabelecimento. Antes de virar garagem, o terreno sediava o salão de beleza da família. Do imóvel, restaram o escritório e a construção que é hoje a casa do argentino. 

— Ele é gente da melhor qualidade. Veio sem ter onde ficar, e meu pai e minha mãe adotaram como um filho. É carismático, gente do bem, o que precisamos hoje em dia. O que ele faz é sensacional — define o empresário, que se emociona ao dizer seguir o que os pais iniciaram. 

A iniciativa ganhou um nome inusitado: ONG de Rua Solitário. O “T” grafado em substituição ao “D” é uma forma de protesto, sem rancor. 

— Muitos disseram que iam me ajudar, mas sempre fui só eu. Tudo bem, fazer o bem é algo que faço pra mim, que me enche de felicidade — atenua. 

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O barbeiro solidário gostaria de ser menos solitário na arrecadação de máscaras e luvas: o item de proteção das suas mãos pesa na aposentadoria de um salário mínimo. As máscaras são necessárias para entregar aos sem-teto — poucos são os que as possuem. Alguns usam acessórios recolhidos do lixo, afirma.  

No parque, ele estendeu uma fita zebrada para demarcar a área de sua barbearia. A estética de rua tem uma pequena caixinha para contribuições. Aline Pottemaier se surpreendeu com a estrutura montada próximo a cancha de bocha. Junto do filho Petros Medeiros, ela deixou um valor em dinheiro e muitos elogios. 

— A iniciativa é maravilhosa. Ele está de parabéns. Não é fácil batalhar pelo nosso e ainda ajudar. O pouquinho que posso, dou com todo amor e carinho — diz. 

Antes de se despedir, o homem que dedica seus domingos aos moradores de rua relembra de quando foi fotografado pelo Diário Gaúcho. Na reportagem de 15 atrás, pedia uma pilcha. A indumentária foi prontamente entregue por uma leitora.  

— Gosto das tradições gaúchas. Só não bebo e não fumo, mas um churrasco e uma dança eu gosto muito — garante. 

Contato para qualquer ajuda podem ser feitos no Instagram ou pelo telefone (51) 99407-1115, com WhatsApp. 

 
 
 
 
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