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Coronavírus21/07/2021 | 09h00Atualizada em 21/07/2021 | 09h01

É possível projetar o fim da pandemia? Especialistas opinam

Antes disso, obstáculos como aglomerações, uso errado da máscara e negacionismo devem ser vencidos

É possível projetar o fim da pandemia? Especialistas opinam Jonatan Sarmento / Agencia RBS/Agencia RBS
Foto: Jonatan Sarmento / Agencia RBS / Agencia RBS

Ainda que dependa de diversos fatores, alguns pesquisadores já se arriscam em especular datas para o fim da pandemia de coronavírus. Baseado nos dados recentes, o epidemiologista Pedro Hallal, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), afirmou que a situação deve acabar no fim do ano. Com o que chamou de "margem de erro", a pandemia pode findar em novembro de 2021 ou fevereiro de 2022.   

Em defesa da sua ideia, Hallal cita, em sua coluna na Folha de S.Paulo, a queda nos números da covid-19 no país (na média móvel de casos, óbitos e hospitalizações), além do avanço e os bons resultados da vacinação.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, o número de mortos também tem caído: até agora, julho registra 959, contra 2.833 no mês anterior. O Estado registrou, até segunda-feira (19), 1.271.486 casos de covid-19 e 32.669 óbitos em decorrência da doença. A taxa de ocupação de leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) em geral é de 71,4%, de acordo com dados da Secretaria Estadual da Saúde (SES) atualizados nesta terça (20). Porto Alegre, que atingiu o pico de 2.063 casos confirmados em 1° de março, registrou 59 na última sexta-feira (16). No âmbito nacional, são 19.391.845 casos confirmados e 542.756 mortes, segundo dados do Ministério da Saúde. 

Em contrapartida, as variantes, a falta de cuidados básicos (uso de máscaras e aglomerações) e o negacionismo ainda são obstáculos a serem vencidos, descreveu Hallal. 

Para o médico e professor de epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Jair Ferreira, o cenário é favorável para a concretização dessa perspectiva. O argumento se sustenta no que se vê em outras nações que já vacinaram a maior parte da população e veem os números da doença despencarem:

— No Brasil, eles vêm caindo também. A gente espera que, à medida que a vacinação avance, a doença vá se reduzindo. A esperança é de que até o fim do ano ela fique controlada. Mas é uma expectativa, pois a gente nunca sabe ao certo, afinal, o vírus é mutante e podem surgir novas cepas. O que faz a diferença é a vacinação. 

Como ainda há algumas questões que não têm respostas, o médico epidemiologista Natan Kantz, também docente da Faculdade de Medicina da UFRGS, acredita que o termo "acabar" é muito forte. 

— Não tem perspectiva de acabar. Talvez, a pergunta seja: quando a vida volta a ser mais próxima do que era antes da pandemia — opina. 

O argumento, explica Kantz, é embasado em alguns pontos que ainda não estão bem estabelecidos, como a duração da imunidade e se, daqui para frente, serão necessárias novas campanhas de vacinação ou não. Além disso, acrescenta, muitas coisas que vieram com a pandemia não devem voltar a ser como eram. 

— A mudança na lógica de trabalho, por exemplo, com organizações mais flexíveis, é algo que veio para ficar — diz. 

Contudo, ele é otimista e acredita que, se houver avanço na vacinação da população, cada vez mais os números de internações e entradas em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) vão cair.

Aqui no Estado, 52,5% da população residente recebeu pelo menos uma dose dos imunizantes e 23% tem o esquema vacinal completo. Em nova estimativa, divulgada nesta terça, o governo gaúcho prevê dar uma dose para toda a população adulta até 7 de setembro. A perspectiva anterior era alcançar essa marca em 20 de setembro. 

Do ponto de vista da matemática, a possibilidade de uma grande redução no número de casos por dia no país também não está tão distante. O doutor em Matemática Álvaro Krüger Ramos, professor do Departamento de Matemática Pura e Aplicada da UFRGS, simulou dois cenários levando em conta os dados das últimas semanas, que mantêm os indicadores de vacinação.   

No primeiro, o Brasil chegaria a mil casos confirmados da doença por dia em 22 de outubro. Ao simular o aumento na taxa de contaminação do vírus, essa data se estendeu para 7 de novembro. 

— Acho difícil falar em "fim da pandemia". Mas essas seriam as datas em que começaríamos a observar cerca de mil casos confirmados de covid-19 por dia. Para mim, quando poderíamos pensar em voltar à normalidade.  

Na segunda, o país registrou 15.271 novos casos de covid-19 e a média móvel de mortes de 14 dias é de 1,2 mil, conforme o governo federal. Mesmo assim, até qualquer uma dessas datas, as simulações preveem que mais de 21 milhões de brasileiros ainda serão contaminados pelo coronavírus. 

— Tem muito chão pela frente. Vemos números positivos e pensamos "a pandemia acabou". Mas é preciso muito cuidado com essa frase. Eu diria que a pandemia está se direcionando para o término, mas não acabou. É preciso manter os cuidados de uso de máscaras adequadas e, o que tem sido muito negligenciado, manutenção da circulação de ar nos ambientes — completa o matemático. 

Olho na Delta 

Países que já viram os números de casos de covid-19 caírem drasticamente voltaram a se preocupar com uma tendência de aumento de novos registros. Na última sexta-feira (16), o European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC), em português Centro Europeu de Controle e Prevenção de Doenças, publicou um comunicado alertando para o crescimento nos números da covid-19 em 20 países. Conforme o documento, o reaparecimento da infecção tem relação com o relaxamento nas intervenções não farmacológicas (distanciamento e uso de máscaras), além da disseminação da variante Delta, originária da Índia.   

Caso se torne predominante e consiga driblar o sistema imunológico de uma parcela dos pacientes recuperados de uma contaminação anterior, a disseminação da Delta pode, sim, afetar essas projeções matemáticas, observa Ramos. 

Por outro lado, Kantz acredita que o maior impacto das variantes é na população não vacinada. No entanto, é preciso ficar atento a tudo o que ocorre no Hemisfério Norte, que já avança nas flexibilizações, pois servirá de termômetro para o Sul.   

— Variações são normais. Agora, se observamos um crescimento importante de pessoas internando e em UTIs, devemos acender o alerta vermelho para repensar nossas flexibilizações — fala Kantz.  

Ferreira acredita que mesmo com a ascensão da variante Delta, que mantém as autoridades sanitárias vigilantes, o prazo citado por Hallal é razoável. 

— Salvo se vierem surpresas — observa. 

 
 
 
 
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