Entenda por que a variante Delta preocupa cientistas e governos e motiva corrida por vacinação - Notícias

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Mutações do vírus14/07/2021 | 09h00Atualizada em 14/07/2021 | 09h02

Entenda por que a variante Delta preocupa cientistas e governos e motiva corrida por vacinação

Cepa originária da Índia é mais transmissível e reduz eficácia da primeira dose de vacinas contra a covid-19, mas duas aplicações protegem contra casos graves

Entenda por que a variante Delta preocupa cientistas e governos e motiva corrida por vacinação Dimitris_Barletis / stock.adobe.com/stock.adobe.com
Cepa Delta do coronavírus se espalhou pelo mundo e está presente em mais de cem países, segundo a OMS Foto: Dimitris_Barletis / stock.adobe.com / stock.adobe.com

Identificada pela primeira vez na Índia, em outubro do ano passado, a variante Delta do coronavírus se espalhou pelo mundo e está presente em mais de cem países, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A chegada ao Brasil levanta preocupações devido à maior transmissibilidade e à redução da eficácia de primeira dose de vacinas contra covid-19 – como resposta, diferentes Estados, incluindo o Rio Grande do Sul, estão antecipando a segunda aplicação da AstraZeneca e da Pfizer

Há, oficialmente, 20 infecções pela Delta no Brasil, segundo boletim epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde. Mas, como a vigilância genômica no Brasil é falha, afirmam analistas, é provável que haja muito mais casos no país. No Rio Grande do Sul, dois casos são suspeitos e estão em análise pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Em nações como Estados Unidos, Reino Unido, Portugal, Rússia e Indonésia, a Delta foi responsável por uma nova onda de casos, hospitalizações e mortes – com maior prevalência entre os não vacinados. As bolsas de valores ao redor do mundo chegaram a ser afetadas pela ascensão da Delta e o consequente receio de restrições econômicas para conter a transmissão e salvar vidas. 

No Brasil, especialistas temem que a Delta possa causar grandes estragos em meio à baixa cobertura vacinal de segunda dose e à ausência de medidas de restrição, o que permite ao vírus circular basicamente livre. 

Ainda assim, cinco especialistas consultados por GZH concordam que não é possível saber se a Delta predominará sobre a Gama, originária de Manaus e hoje a mais presente no Brasil. Em outras nações, a prevalência é da Alfa, do Reino Unido – no Brasil, entretanto, essa cepa não ganhou força.

— A Delta se tornou predominante no Reino Unido e caminha para ser nos Estados Unidos, mas há particularidades geográficas, populacionais, de suscetibilidade da população e de competição entre variantes. Não vimos a mesma cepa assumir protagonismo em todos os lugares — diz Marco Aurélio Sáfadi, médico e professor de Infectologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. 

A boa notícia é que os estudos mostram que as vacinas mantêm alta proteção contra hospitalizações e mortes causadas pela Delta, desde que tomadas as duas doses. Já somente uma aplicação aparenta oferecer proteção bem menor do que contra variantes anteriores – a constatação eleva a importância de os brasileiros buscarem postos de saúde para realizarem o esquema vacinal completo. 

O médico e virologista Maurício Nogueira, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), afirma que, para entender o possível impacto da Delta, não basta olhar apenas para suas características biológicas, mas também para as condições do ambiente que for recebê-la. Com parcela de vacinados e parte dos brasileiros já infectada, a nova variante pode ter menos espaço.

— Não sabemos o número de suscetíveis à Delta, o que vai modular se ela será mais transmissível ou não. Vamos supor que o vírus seja 10 vezes mais transmissível. Mas e se eu tiver só um terço da população suscetível, já que o resto está vacinado ou já pegou? E quem carrega o vírus somos nós, então, nosso comportamento modula. A preocupação agora tem que ser vacinar e vacinar. Enquanto isso, temos que ter bastante cuidado nas medidas de prevenção, que continuam as mesmas — afirma. 

Confira perguntas e respostas sobre a variante Delta:

Onde a variante foi detectada?

Em mais de cem países, segundo a OMS. Na Índia, a Delta foi responsável por uma onda gigantesca de casos e pelo colapso do sistema de saúde. Ela já se tornou predominante em países como Reino Unido (90% das infecções), Holanda e Portugal, onde foi responsável por uma nova onda de casos, a despeito da grande cobertura vacinal. Nos Estados Unidos, corresponde a 20% dos novos casos. 

Onde a Delta está no Brasil?

A Delta está longe de ser a mais presente no país: dados do Ministério da Saúde mostram que a Gama, originária de Manaus, é a predominante. Até agora, a variante originária da Índia está presente em seis Estados: Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo. No Rio Grande do Sul, dois casos suspeitos estão sendo analisados pela Fiocruz, no Rio de Janeiro.

O que outros países fizeram com a ascensão da Delta?

Com a ascensão da Delta e uma nova onda de casos, hospitalizações e mortes, nações mais ricas voltaram a exigir o uso de máscaras, como Israel. Em Portugal, o governo proibiu viagens a Lisboa. Alguns países, como o Canadá,  optaram por encurtar o intervalo entre as doses para assegurar que mais pessoas estejam com esquema vacinal completo o quanto antes, uma vez que apenas uma dose parece ser menos efetiva. Já outras nações, como Alemanha e Espanha, permitiram a vacinação cruzada, com doses de laboratórios diferentes. 

Os sintomas da Delta são diferentes?

Sim. Os primeiros sintomas mais comuns são dor de cabeça, nariz escorrendo, garganta dolorida e febre. Ao contrário da infecção por outras variantes, a Delta não costuma causar perda de olfato e paladar. A mudança preocupa médicos, cujo receio é de que a população confunda os sintomas.

— Há um potencial para as pessoas tomarem menos cuidados, irem às ruas e se aglomerarem achando que estão apenas com uma alergia ou resfriado, o que contribuiria para maior transmissão — diz o médico Estevão Urbano, professor de infectologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. 

A Delta é mais contagiosa? 

Estudos em laboratório e análises estatísticas da vida real indicam que sim, mas os números variam conforme o estudo e o país. Pesquisa feita na Inglaterra mostrou que a Delta é entre 40% e 60% mais contagiosa do que a variante Alfa (britânica). A Alfa, por sua vez, já era 50% mais transmissível do que a cepa original, de Wuhan, na China

Em coluna em GZH, o médico Drauzio Varella destacou outra análise: modelos epidemiológicos criados na London School of Hygiene & Tropical Medicine estimam que a capacidade de contágio da Delta seja 50% a 100% maior do que a da variante Alfa. Como a variante Alfa é 50% mais contagiosa do que a originária de Wuhan, e a Delta é 50% a 100% mais contagiosa do que Alfa, a cepa indiana seria duas vezes mais contagiosa do que aquela do início da pandemia.

Nos Estados Unidos, a Delta vem afetando em especial os jovens. Não se sabe se isso ocorre porque eles se expõem mais ou se é porque são o público menos imunizado do país. A Holanda vive um crescimento exponencial no número de novos casos, assim como o Reino Unido. 

— Em relação à variante britânica, há estudos mostrando que seja entre 10% a 20% mais infectante, e outros sugerem até 60% a mais de transmissão. Mas são estudos que não permitem conclusões exatas — diz Estevão Urbano, professor de infectologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

O médico infectologista Eduardo Sprinz, coordenador do serviço de Infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), destaca que estudos in vitro mostram que amostras de pessoas infectadas pela variante Delta carregam uma carga maior de vírus, o que, em tese, pode estar associado a um quadro mais grave de coronavírus. 

Por que ela é mais transmissível?

A variante Delta tem mutações na proteína S, responsável pelo sistema de chave-fechadura entre o vírus e as células de defesa. Essas alterações fazem os anticorpos se ligarem menos ao vírus, o que torna a vacina menos eficiente, explica José David Urbaez Brito, médico infectologista e presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal.

— A Delta ainda se encaixa melhor na entrada da célula quando comparada com o vírus original — afirma Brito.

A Delta é mais letal?

Não se sabe. Na Índia, a Delta foi responsável por mais mortes, mas, em Israel, não – o que indica que as vacinas estão salvando vidas e que os não imunizados apresentam maior vulnerabilidade. Na Inglaterra, a nova variante causou nova onda de hospitalizações e mortes, mas não no mesmo nível do repique de casos. Estudo na Escócia publicado na revista The Lancet mostrou que a taxa de hospitalização de infectados com a Delta era 85% maior do que contaminados pela Alfa. 

— A Delta, em laboratório, tem uma maior transmissibilidade do que a Alfa e a Gama. Sabe-se que gerou aumento no número de internações e de óbitos, o que não significa que ela cause mais danos, porque pode ser que, por ser mais transmissível, haja mais casos, mais hospitalizações e, portanto, mortes — diz José David Urbaez Brito, médico e presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal. 

O médico Estevão Urbano também pontua que há incertezas sobre a questão: 

— Quanto maior a replicação do vírus dentro do corpo, o que acontece com a Delta, há uma tendência de maior gravidade e, portanto, hospitalização e óbitos. Mas não se sabe ainda. 

O médico infectologista Eduardo Sprinz, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, adota avaliação oposta:

— Parece que a população mais desprotegida (jovens) tem menos vulnerabilidade para as complicações da covid. Em termos de agressividade, provavelmente é a mesma de outras variantes — observa. 

Como se proteger da variante Delta?

Com as mesmas medidas contra outras cepas: uso de máscaras, distanciamento social e álcool gel seguem sendo medidas válidas. 

Já peguei coronavírus. Posso pegar novamente?

Não se sabe, mas há indícios de que é possível haver reinfecção. 

— A gente sabe que os casos de reinfecção não ocorrem de forma imediata: há um intervalo de oito a 12 semanas. As anticorpos induzidos contra a covid não têm longa permanência, então, as defesas que sobram são ineficientes contra as variantes — comenta o médico infectologista Eduardo Sprinz.

O virologista Fernando Spilki lembra que a imunidade de rebanho por infecção não existe para a covid-19, e destaca que as pessoas podem se recontaminar. 

— A gente tem visto reinfecções entre linhas mais antigas e novas, entre variantes diferentes e entre as próprias linhagens antigas. Indivíduos com uma covid muito leve tendem a não formar uma imunidade muito robusta e ficam suscetíveis a uma nova infecção. Não é impossível que, passados semanas ou meses, o indivíduo venha a se infectar. Não existe imunidade de rebanho por infecção, ela não é duradoura — diz o virologista.  

 
 
 
 
 
 
 
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