Mutirão de DNA identificou oito desaparecidos no RS: "Alívio e tristeza", diz filho que encontrou corpo do pai - Notícias

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Recorde nacional19/08/2021 | 22h07Atualizada em 19/08/2021 | 22h07

Mutirão de DNA identificou oito desaparecidos no RS: "Alívio e tristeza", diz filho que encontrou corpo do pai

Dos 47  "matches" já obtidos pelo banco de dados desde 2012, 17% vieram por meio da iniciativa

Mutirão de DNA identificou oito desaparecidos no RS: "Alívio e tristeza", diz filho que encontrou corpo do pai Maria Gabrielli Rodrigues da Rosa / Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Após participar do mutirão, Maristela recebeu a notícia de que o filho João Gabriel (à esquerda no retrato) teve o corpo identificado Foto: Maria Gabrielli Rodrigues da Rosa / Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

A busca por um familiar desaparecido terminou para oito famílias gaúchas nos últimos dias. Elas participaram, no mês de junho, de um mutirão feito pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP) do Rio Grande do Sul, quando tiveram amostras de DNA coletadas. 

O trabalho resultou em “matches” — quando, após cruzamento de dados, o sistema do IGP acusa um vínculo entre o material genético fornecido e um dos corpos armazenados no Banco de Perfis Genéticos do Rio Grande do Sul (BGP/RS). Os familiares, então, recebem a notícia que tanto temem, mas, muitas vezes, esperam.

Os oito corpos identificados durante o mutirão são de pessoas desaparecidas nos municípios de Canoas, Sapucaia do Sul, Gravataí, Xangri-lá, Porto Alegre e Viamão. Conforme o IGP, é natural que a maior parte seja da Região Metropolitana, pois foi onde houve mais participação popular no período de coleta.

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Das 47 identificações já feitas pelo banco desde 2012, 17% vieram por meio do mutirão. Além de representar uma conquista para os peritos gaúchos, o número também é um recorde nacional, pois, até o momento, nenhum outro Estado brasileiro atingiu a mesma marca.

— Conseguimos processar os dados com agilidade, e como já tínhamos materiais de restos mortais analisados no banco, a tendência era conseguirmos identificações. Mesmo assim, não estávamos esperando um número tão grande. Quando vimos os resultados positivos ficamos muito satisfeitos, é muito bom poder ajudar essas famílias — afirma a perita criminal Cecília Fricke Matte, administradora do Banco de Perfis Genéticos.

O mutirão ocorreu entre os dias 14 e 18 e junho. Foram coletadas, ao todo, 198 amostras de material genético de familiares de pessoas desaparecidas no Rio Grande do Sul. Após o término do período de coleta, os técnicos do RS se dedicaram por duas semanas à triagem do material. Era preciso certificar que os familiares que participaram haviam registrado boletim de ocorrência sobre o desaparecimento de seus parentes, e que os materiais já não haviam sido colhidos em algum outro momento.

O trabalho ocorreu em 11 municípios gaúchos e também em outros 25 Estados e no Distrito Federal, por meio da Campanha Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas, lançada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

De acordo com o Ministério, atrás do RS estão Goiás (quatro confirmações), Rio de Janeiro (três confirmações), Distrito Federal (três confirmações), Maranhão, Minas Gerais e Espirito Santo (cada um, com uma confirmação). Até o momento, são 21 identificações em todo o país.

“Tristeza e alívio”

Dos oito desaparecimentos solucionados a partir do mutirão, o mais antigo é de Osvaldo Aquino de Souza, que havia sido visto pela última vez em julho de 2009, aos 79 anos, após sair de casa no bairro Niterói, em Canoas. O filho dele, João Marcos de Souza, 62 anos, participou da iniciativa do IGP em junho deste ano. Algumas semanas depois, recebeu a notícia de que o cruzamento de dados foi positivo.

Osvaldo Aquino de Souza havia sido visto pela última vez em julho de 2009, aos 79 anos, após sair de casa no bairro Niterói, Em Canoas. O filho dele, João Marcos de Souza, 62 anos, participou da iniciativa do IGP em junho deste ano. Algumas semanas depois, recebeu a notícia de que o cruzamento de dados foi positivo.<!-- NICAID(14864904) -->
Osvaldo Aquino de Souza desapareceu em 2009Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

— É um sentimento de tristeza, mas de alívio. Eu não sei colocar de uma maneira clara. Ao menos agora podemos dar a ele um destino honrado, justo, por tudo o que ele representou para a gente — afirma o administrador de empresas aposentado.

Segundo ele, o pai havia trabalhado por 50 anos em uma empresa de tecelagem. Já aposentado, costumava passear pelas redondezas da casa, conversar com vizinhos, e logo depois retornar. Algo diferente aconteceu naquela terça-feira, quando Osvaldo não voltou. Teve início, então, uma procura ininterrupta por delegacias, estabelecimentos comerciais, rodoviárias e hospitais. Fotos foram espalhadas por Canoas e municípios da região. 

Após 12 anos de busca, a esperança da família em receber notícias já estava reduzida, até que João Marcos ficou sabendo sobre o mutirão do IGP pelos meios de comunicação.

— Não sabíamos que esse banco de dados existia. Assim que tomamos conhecimento fui fazer a doação. É uma gota de sangue, algo simples, totalmente gratuito. É um trabalho de alto nível, completo e ao nosso alcance — diz Souza.

No dia 2 de agosto, ele e dois irmãos, além outras pessoas da família, fizeram uma cerimônia de despedida para Osvaldo, que foi enterrado no mesmo túmulo de sua esposa, falecida em 2007. Segundo a Polícia Civil, a ossada dele foi encontrada por populares em uma área verde do bairro Guajuviras, em Canoas, em agosto de 2014. Não foi possível identificar a causa da morte.

Quem também participou do mutirão e recebeu um retorno positivo do IGP foi a diarista Maristela Gonçalves Rodrigues, de 43 anos. Ela buscava desde janeiro de 2020 notícias sobre o filho, Gabriel Rodrigues da Rosa, que desapareceu em Xangri-lá aos 19 anos. O corpo dele foi encontrado às margens do Guaíba em fevereiro daquele ano. A Polícia Civil investiga as circunstâncias do óbito.

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— A ficha ainda não caiu, eu acreditava que ele estaria vivo. Mas ao menos agora a busca terminou. Se soubesse que esse serviço do IGP existia antes, já teria feito a coleta há mito tempo. Não tenho nem palavras para a equipe, são pessoas muito queridas, que me trataram muito bem e colocaram fim nessa angústia — afirma Maristela.

Conforme o IGP, a procura pelo serviço aumentou após o mutirão — hoje, ao todo, 459 famílias fazem parte do sistema. Por outro lado, 518 restos mortais não identificados estão armazenados no banco do Estado.

— Queremos diminuir esse número. Para as famílias é muito difícil passar anos atrás de informações, tentando descobrir o que teria acontecido, com expectativas e dúvidas. Elas precisam de respostas — afirma a perita Cecília.

Segundo a perita, o Grupo de Trabalho de Identificação Genética de Pessoas Desaparecidas, que tem abrangência nacional, já cogita a realização de um novo mutirão no ano que vem.

Como encontrar o serviço de coleta de DNA

Quem tem um familiar desaparecido não precisa esperar por um mutirão do IGP para fazer a coleta de DNA. Basta se dirigir a uma delegacia de polícia e registrar o boletim de ocorrência, informando o máximo de detalhes possível sobre a pessoa desaparecida. A Polícia Civil faz o encaminhamento ao posto médico-legal, para que o material genético seja recolhido.

Outras formas de identificação

Antes da coleta de material genético, é possível tentar outras formas de identificar um corpo. Uma delas é a papiloscopia (análise das impressões digitais). Outra é a análise da arcada dentária, usada quando não há impressão digital — como nos casos de corpos fragmentados. A comparação é feita com exames e objetos pessoais do desaparecido.

— A arcada dentária é única no indivíduo. Não falo nem na questão anatômica, mas em procedimentos como tratamento de canal, restauração, extração de sisos. Por isso é importante que a família busque esses exames e que os dentistas clínicos mantenham o prontuário dos pacientes atualizado — explica Rosane Pérez Baldasso, cirurgiã-dentista e perita criminal do Departamento Médico-Legal do IGP.

Podem ser úteis fichas dentárias, radiografias dos dentes, moldes, próteses, aparelhos dentários, placas de bruxismo ou de clareamento, protetores esportivos, etc. Exames de raio X de coluna, crânio, seios da face ou fraturas antigas também auxiliam.

Os materiais podem ser levados ao Departamento Médico-legal do IGP, ou enviados pelo correio para a Seção de Antropologia Forense do DML, com o nome da pessoa desaparecida. O endereço é Avenida Ipiranga, número 1807. Cep 90160-093 - Porto Alegre- RS.

A perita enfatiza, entretanto, que o primeiro passo para os familiares é registrar o boletim de ocorrência, pois a partir dele a autoridade policial poderá apontar supostas vítimas que podem ter seus restos mortais comparados a determinados exames ou objetos.

Delegacia de Polícia de Investigação de Pessoas Desaparecidas

/// Onde fica: 2º andar do Palácio da Polícia, na Avenida João Pessoa, nº 2050, sala 223  
/// Telefones: (51) 3228-2254 e 98519-2196  
/// Horário: 8h30min às 12h e 13h30min às 18h, de segunda a sexta-feira
/// O que faz: investiga casos de maiores de 18 anos, sumidos em Porto Alegre. O registro pode ser feito em qualquer horário nos plantões de delegacias e na Delegacia Online

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