Por que Porto Alegre tem uma das maiores taxas de infecção por sífilis do Brasil - Notícias

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Saúde pública23/09/2021 | 11h02Atualizada em 23/09/2021 | 11h09

Por que Porto Alegre tem uma das maiores taxas de infecção por sífilis do Brasil

Capital registra 151,9 contaminados para cada 100 mil habitantes e tem o maior índice da doença em gestantes do país

Por que Porto Alegre tem uma das maiores taxas de infecção por sífilis do Brasil Cristine Rochol / PMPA/PMPA
Projeto SIM é uma iniciativa de testagem e busca mapear estratégias de combate e tratamento à sífilis Foto: Cristine Rochol / PMPA / PMPA

Um ônibus colorido estacionado no Largo Glênio Peres, ao lado do Mercado Público, desperta curiosidade de quem passa por um dos locais mais movimentados de Porto Alegre. Espontaneamente, algumas pessoas se aproximam e buscam informações sobre os serviços oferecidos no local. 

A iniciativa é do chamado Projeto SIM, uma ação do Hospital Moinhos de Vento, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde e com o Ministério da Saúde, para coletar dados, realizar testes e monitorar estratégias de tratamento e combate à sífilis.

Alçada ao patamar de epidemia nacional desde 2016, a sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada pela bactéria Treponema pallidum. A doença é transmitida por relação sexual sem uso de preservativo, por transfusão de sangue contaminado ou da mãe para o bebê durante a gravidez ou no parto. 

Os números do último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde em 2020 preocupam e mostram que 16 capitais apresentaram taxa de detecção mais elevada que a nacional. Porto Alegre ocupa a sexta posição, com 151,9 casos registrados a cada 100 mil habitantes, contra 72,8 a cada 100 mil em todo o país. Vitória (ES) é a líder do ranking. Já o Rio Grande do Sul é o segundo Estado com a taxa de detecção mais elevada da doença — atrás apenas de Santa Catarina. Os dados que  apontam que, no ano passado, o RS teve 5.284 casos de sífilis adquirida e 1.564 de sífilis congênita. 

Em busca de respostas para números tão elevados, a pesquisa do Projeto SIM está realizando a coleta de informações baseadas em dois enfoques: diagnóstico e monitoramento do tratamento. Na primeira etapa, o objetivo é estimar a proporção de casos de sífilis não diagnosticados na população e avaliar estratégias para ampliação dos exames. Na etapa de monitoramento, o foco é identificar lacunas no tratamento e avaliar a efetividade de diferentes estratégias de enfrentamento da doença. 

— Todas as pessoas estão em risco, independentemente da classe social ou com quem se relacionam. A testagem na unidade móvel no centro de Porto Alegre mostra que cerca de 10% a 15% das pessoas que procuram o local têm sífilis ativa. Mesmo que seja uma amostra espontânea, é um número muito grande. A sífilis é uma doença negligenciada e que ainda carrega um tabu muito grande — explica a médica e responsável técnica pelo projeto, Eliana Wendland.

Cerca de 50 testes rápidos para detecção da sífilis são realizados diariamente na unidade móvel do projeto. Adicionalmente, também é feito o teste para o HIV. Caso um dos dois seja positivo, o paciente é encaminhado para diagnóstico definitivo e tratamento na rede pública de saúde.

— Não estamos conseguindo quebrar a cadeia de transmissão da doença. Não basta tratar o indivíduo diagnosticado, mas também seus parceiros sexuais. Se eles não forem tratados, a reinfecção pode ocorrer. Analisamos todos os casos notificados à Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre no último ano e conseguimos contatar menos de 20% dessas pessoas. O acompanhamento é muito difícil — complementa Eliana. 

A médica explica que o aumento de casos também pode estar relacionado com imprecisões na identificação da doença, que é assintomática em fase inicial. A infecção pode ser curada com um tratamento simples: penicilina. Se a doença for diagnosticada no primeiro estágio, a cura se resume a apenas duas injeções de benzetacil. Mas a especialista ressalta o problema da descontinuidade do tratamento por parte dos pacientes:

— Muitos recebem a primeira dose do antibiótico e não retornam para continuar a medicação e realizar novos testes. Sem sintomas, seguem contaminando outros indivíduos. A ideia é que o Projeto SIM aponte quais são as principais lacunas existentes no diagnóstico, tratamento e monitoramento, para que possamos experimentar novas estratégias de controle. 

O que pode explicar os números da Capital

Uma das referências no diagnóstico e tratamento de ISTs é o Ambulatório de Dermatologia Sanitária (ADS), localizado na Avenida João Pessoa, no bairro Azenha. O teste rápido é oferecido de graça pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e fica pronto em cerca de 30 minutos. Em caso de teste reagente, o paciente recebe orientações e inicia o tratamento na própria instituição. A diretora da unidade, Tanara Vogel Pinheiro, explica que existem algumas hipóteses que podem ajudam a entender os números tão preocupantes na Capital: 

— Tem uma questão cultural de as pessoas usarem menos camisinha nas relações sexuais, especialmente em relacionamentos fixos, a transmissibilidade muito alta da doença, que pode ocorrer também pelo sexo oral, e a baixa testagem. Testar é uma das formas de prevenção, pois a doença não tratada pode evoluir e gerar complicações mais graves. 

A diretora explica que a pandemia reduziu consideravelmente o número de pessoas que procuram a unidade de saúde para a realização de testes para as infecções sexualmente transmissíveis. São oferecidas 10 fichas para testagem por turno (manhã e tarde). GZH esteve na unidade e conferiu que os cuidados em relação à covid-19 ocorrem desde o acesso, distanciamento das cadeiras e a ventilação dos espaços. 

— Tem turnos que não vem ninguém ou somente uma ficha é atendida. Muitas pessoas fazem os testes aqui na unidade como rotina. Outras aparecem quando surge algum sintoma ou indício no corpo. Um dado que chama atenção é que 70% do público é do sexo masculino, existindo portanto uma menor procura entre as mulheres — complementa. 

Os especialistas sugerem realizar testes para todas as ISTs anualmente, sobretudo no caso de pessoas com parceiros casuais, que estejam iniciando a vida sexual ou planejando engravidar. 

Transmissão de mãe para filho

Apesar de o exame para detectar sífilis fazer parte do pré-natal,  a gestante tratada pode ser infectada novamente caso o parceiro não realize o diagnóstico e também o tratamento. Quando não identificada e tratada, pode acarretar em aborto espontâneo, parto prematuro, complicações neurológicas e lesões ósseas e nos dentes do bebê. Porto Alegre ocupa o primeiro lugar na taxa de detecção de sífilis em gestantes (54,2 por mil nascidos vivos) entre todas as capitais do país. A média no Brasil é de 20,8 por mil nascidos vivos. 

— Tem muita mulher que não faz pré-natal por motivos variados, como a descoberta tardia da gestação, por exemplo. Mas a questão principal em relação à sífilis é a mulher que trata a doença, mas o parceiro não. Ela vai acabar se infectando de novo. Aqui no ambulatório ocorrem muitos casos nesse sentido — conta a médica dermatologista Simone Perazzoli, que atua no Ambulatório de Dermatologia Sanitária. 

A coordenadora do Núcleo de Vigilância de Doenças Transmissíveis Crônicas de de Porto Alegre, Fernanda Vaz Dorneles, salienta que há mais de 10 anos a Capital se destaca negativamente em rankings da sífilis e do HIV. Em relação aos casos em gestantes, a enfermeira destaca dificuldades de inserir o homem no processo da gestação. 

— Na análise do banco de dados da vigilância ocorrem muitos casos de sífilis que são notificados apenas na hora do parto. Para a gestante, isso tem um peso enorme pela questão da sífilis congênita (com a infecção do feto). A única forma de prevenir é tratar a gestante de forma adequada e o parceiro sexual — destaca a enfermeira. 

Outro dado que coloca o Rio Grande do Sul em destaque negativo é em relação ao tratamento não realizado de gestantes que tiveram o diagnóstico para a sífilis. Em 2019, os percentuais foram de 10% no Rio Grande do Sul, 9,1% em Pernambuco e 8,7% no Rio Grande do Norte. Para a médica Eliana Wendland, um dos principais motivos é a educação sexual insuficiente: 

— Falamos cada vez menos em educação para o sexo, cada vez menos temos campanhas de conscientização, e acaba que as pessoas estão se protegendo cada vez menos. Quando somente metade da população usa preservativo, não fica muito difícil de entender por que as infecções sexualmente transmissíveis estão crescendo tanto.

Sintomas da doença

A sífilis apresenta vários estágios. No primeiro, pode causar feridas na região genital (pênis, vulva, vagina, colo uterino, ânus). Isso ocorre entre 20 e 90 dias após a relação sexual com a pessoa infectada. Essas lesões não coçam, não doem, não ardem nem apresentam pus. Nas mulheres, muitas vezes a falta de sinais visíveis retarda o diagnóstico. Esses ferimentos se curam sozinhos e, depois disso, a bactéria entra na corrente sanguínea.

Após ingressar no sangue, a Treponema pallidum provoca a chamada sífilis secundária, que começa a se manifestar depois de dois ou três meses da contaminação. Os principais sinais são lesões de pele no corpo todo, parecidas com rubéola, inclusive na área genital.

Tratamento

Para o controle da doença no Brasil, o Ministério da Saúde compra e distribui testes rápidos de diagnóstico e oferta tratamento com penicilina benzatina (conhecido como Benzetacil) e cristalina. Se não tratada, a longo prazo, a doença pode provocar lesões articulares, no cérebro e nos vasos cardíacos.

— Sexo seguro não é somente com preservativo. Mas aquele que conhecemos a nossa condição sorológica e do nosso parceiro. O teste rápido não é um diagnóstico único. Ele precisa estar vinculado a uma avaliação clínica ou a outro exame, chamado não treponêmico. Mesmo após o tratamento completo, ficará uma cicatriz sorológica, que será sempre identificada no sangue quando for solicitada sorologia para sífilis — complementa a enfermeira Fernanda Vaz Dorneles.  

Onde fazer o teste em Porto Alegre 

Qualquer unidade básica de saúde (UBS) possui o teste rápido. A orientação é entrar em contato para confirmar datas e horários disponíveis, que variam conforme a unidade. Os postos de referências são: 

  • Centro de Saúde Santa Marta – Sala de Testagem e Aconselhamento, localizado na Rua Capitão Montanha, 27, no Centro Histórico, Telefone: (51) 3289-2925 
  • CTA Caio Fernando de Abreu – Hospital Sanatório Partenon, na Avenida Bento Gonçalves, 3.722, no bairro Partenon, Telefone: (51) 3901-1400
  • Ambulatório Dermatologia Sanitária, na Avenida João Pessoa, 1.327, no bairro Azenha, Telefone: (51) 3288-7677 
 
 
 
 
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