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Morro da Cruz22/10/2021 | 09h40Atualizada em 22/10/2021 | 09h40

Conheça a história do vigilante que virou diretor de arte e abriu agência de comunicação na periferia da Capital

Michel Couto atende desde a "tia da coxinha" até a banca de frutas em comunidade da zona leste de Porto Alegre

Conheça a história do vigilante que virou diretor de arte e abriu agência de comunicação na periferia da Capital Anselmo Cunha / Agencia RBS/Agencia RBS
Michel Couto nasceu e vive até hoje no Morro da Cruz Foto: Anselmo Cunha / Agencia RBS / Agencia RBS
Jéssica Rebeca Weber
Jéssica Rebeca Weber

jessica.weber@zerohora.com.br

Negro, 1m85cm de altura, morador da periferia, Michel Couto encheu as primeiras folhas da carteira de trabalho com contratos de vigilante. Não que gostasse da função, mas era o tipo de oferta que recebia, fiel aos estereótipos — que também incluíam ser faxineiro ou porteiro, lembra ele. 

Acontece que ele tinha outros desafios em mente. E, na mesma agência de comunicação em que entrou como segurança, no bairro Moinhos de Vento, saiu como diretor de arte. 

Aos 36 anos, Michel tem hoje sua própria agência na comunidade onde nasceu e cresceu. Localizado na zona leste de Porto Alegre, o Morro da Cruz está cheio de pequenos empreendedores que, como Michel reparou, pouco ou nada entendiam sobre criação de marca e publicidade. 

— Acabamos trazendo a cultura da comunicação para dentro da periferia. Ninguém estava atendendo esses mercadinhos, esses bares — conta. 

Da “tia da coxinha” à banca de frutas, a Formô Comunicações produz panfletos e cartões de visita, mas também faz pesquisa de mercado, cria marcas e identidades visuais. Michel define o espaço no número 838 da Rua Ernesto Araújo como uma “agência boteco”: o pessoal vai entrando sem cerimônia para conversar direto com ele, que além de CEO é designer gráfico. Às vezes, grita da rua mesmo. 

Como gráfica, o negócio já existe desde 2015, mas virou agência em 2018. Numa esquina só da vila, ele aponta cinco negócios diferentes que já fecharam negócio: uma tabacaria, um salão de beleza, um minimercado, uma loja de pilchas e uma de frango. 

Michel tentou criar no mesmo espaço uma espécie de hub há dois anos, juntando o máximo possível de empreendedores para ter troca de experiências. O imóvel de 120 metros quadrados tinha, sob o mesmo teto, negócios que iam de café a peixaria. Mas os donos acabaram saindo na pandemia. 

Ele tem o sonho de ver mais empreendedores negros no Morro da Cruz e quer usar o espaço que criou para a qualificação dos moradores. Nas próximas semanas, um profissional da área de tecnologia da informação vai dar aulas sobre criação de aplicativos, voluntariamente, para cinco jovens da região. 

— A periferia não é de todo mal, periferia não é só violência. Tem muita gente com talento aqui, talvez não de formação, mas vindo da vivência. Se conseguíssemos reter esses talentos, que ficassem dentro das periferias, imagina o quão grandiosa seria essa cidade — destaca.

Hoje colega na área comercial da agência, seu irmão, Maylon Couto, brinca que Michel é o Martin Luther King do morro. Ele acredita que essa vontade de ver todos ao seu redor prosperando juntos nasceu na infância — filhos de pastor evangélico, eles tinham que dividir seus presentes com as crianças do bairro para aprender a compartilhar. 

— A gente ficava bem pistola. Mas é o tipo de coisa que é implantado na nossa cabeça lá atrás e reflete até hoje — observa Maylon.

Michel aprendeu a usar softwares durante o turno noturno em agência

Michel aprendeu a usar os programas de arte em uma agência de comunicação digital que ficava na Félix da Cunha. A antiga chefe, Eliziane Rodrigues, um dia reparou que ele usava os computadores de noite, durante o turno de segurança. 

Ela aproximou Michel de um diretor de arte experiente e passou demandas de pequenas artes, para ir aprendendo e se envolvendo. Fica contente em ver onde chegou.   

— Eu acho que, na vida, a gente é apenas um instrumento para crescimento de outras pessoas. Fico feliz ao ver que eu fui apenas um instrumento na vida dele e hoje ele pode ser instrumento para crescimento de tantos outros talentos — afirma. 

Michael começou no mês passado sua primeira formação de nível superior, um curso de Negócios Digitais. Está empolgado: 

— Quero ser o primeiro negrão com uma startup por aqui.

 
 
 
 
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