O que diz a ciência sobre os principais argumentos de quem não quer se vacinar contra a covid-19 - Notícias

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Cinco pontos05/10/2021 | 08h36Atualizada em 05/10/2021 | 08h38

O que diz a ciência sobre os principais argumentos de quem não quer se vacinar contra a covid-19

Especialistas ressaltam que brasileiros aderiram bem à vacinação, porém, negacionistas podem prejudicar o objetivo de atingir a imunidade coletiva

O que diz a ciência sobre os principais argumentos de quem não quer se vacinar contra a covid-19 Ronaldo Bernardi / Agencia RBS/Agencia RBS
Imunizantes contra a covid-19 são seguros, afirmam especialistas Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS / Agencia RBS

A despeito de pobreza e dificuldade de acesso serem os grandes entraves para a campanha de vacinação no Brasil, parcela minoritária da população defende que não seria preciso ou seguro imunizar-se. A constatação, equivocada do ponto de vista científico, surfa na polarização do país.

Via de regra, brasileiros gostam de vacinar-se, uma avaliação consensual entre gestores e analistas. O Brasil, em comparação a países do Hemisfério Norte, tem fraca presença de negacionistas, o que não quer dizer que não prejudiquem o objetivo de atingir a imunidade coletiva. A última pesquisa do Datafolha relacionada mostrou que apenas 6% da população não queria ou duvidada sobre buscar um imunizante.

Até esta segunda-feira (4), 69% de todos os brasileiros tomaram uma dose e 44% têm o esquema completo, segundo dados do Portal Covid-19 no Brasil. Proporcionalmente, há mais brasileiros com uma dose do que alemães (67,6%) e estadunidenses (64%) – e quase o mesmo que britânicos (71,7%), conforme dados do Our World in Data. A cobertura é maior no Rio Grande do Sul, com 75% dos habitantes com uma dose e e 50% com esquema completo.

Falta de dinheiro para tomar um ônibus até o posto de saúde, dificuldade de conciliar trabalho e cuidado dos filhos com horário para vacina, cansaço após longa jornada e receio de perder um ou dois dias de serviço – e dinheiro – por eventual efeito adverso são os principais motivos sociais retratados por quem ainda não se vacinou em Porto Alegre.

No dia a dia, dúvidas mais frequentes questionam os intervalos para tomar uma nova dose e quem são os públicos candidatos para uma terceira aplicação, explica a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai.

— É uma minoria que divulga essas coisas, de forma bem estrutura e definida. Vacinas são seguras: milhões e milhões de doses aplicadas provam isso. A covid é que coisa grave, já matou quase 600 mil pessoas no Brasil. Não vacinar é assumir para si um risco alto e colocar família, amigos e colegas do trabalho em risco. Nos EUA, 95% dos mortos são não vacinados — resume Ballalai.

Presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), que representa médicos de postos de saúde, na linha de frente da vacinação, Zeliete Zambom acredita que os negacionistas estão concentrados em uma elite rica antivacina e em uma população pobre com baixo nível educacional que segue os conselhos dos patrões críticos a imunizantes.

— É o caso de pessoas com escolaridade maior ou de pessoas com menor escolaridade influenciadas por falas de pessoas públicas ou de patrões, como as empregadas domésticas. Toda vez que veiculam uma informação incorreta ou precipitada, mesmo que se volte atrás, ela já fez um estrago — diz a médica. — Qualquer pessoa pública que apareça veiculando uma informação de que não é para se vacinar certamente muitas pessoas vão seguir. Se é um presidente de um país, tem um peso muito maior — acrescenta.

Veja a seguir alguns dos argumentos apresentados por quem ainda não se vacinou e o que a ciência diz a respeito:

Argumento 1: “Já tive covid e estou protegido, então, não preciso de vacina”

A proteção surge para algumas pessoas já infectadas, mas não todas. O problema é que essa duração uma hora acaba – e há casos de reinfecção.

Estudos mostram que a proteção gerada pela infecção em adultos cai após o terceiro mês e tende a desaparecer após o sexto mês, diz a imunologista Cristina Bonorino, integrante do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI). Em crianças, a proteção quase desaparece após três meses.

— Quando infecta, o vírus é preparado para fugir da resposta imune. Então, nem sempre deixa memória (no sistema imune) suficiente. Algumas pessoas respondem bem e outras mal, tu nunca sabes qual é teu caso. A vacina, ao contrário, é desenvolvida para forçar resposta boa e eficaz, com maior qualidade — diz Bonorino.

Além disso, imunizantes aumentam a proteção de quem já teve coronavírus e protegem contra variantes diferentes, o que nem sempre é oferecido pela infecção natural, destaca a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19.

— Pessoas recuperadas de infecções pelas variantes Gama e Beta são suscetíveis à infecção pela Delta. A Gama foi muito predominante entre novembro e julho deste ano. Agora, a Delta é a predominante. Um lutador que vai disputar um campeonato não confia só no talento, ele treina para chegar na melhor performance. O nosso treino é a vacina — diz Fontes-Dutra.

Argumento 2: “Vacinas contra a covid-19 são experimentais”

A afirmação, citada por porto-alegrenses, segundo a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) de Porto Alegre, é falsa. Os imunizantes em uso no Brasil são seguros e eficazes, o que foi atestado nas fases 1, 2 e 3 dos estudos conduzidos pelas farmacêuticas, confirmado por cientistas independentes após resultados publicados em revistas científicas e, por último, validado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A fase 4 dos estudos, em voga hoje, investiga quanto tempo dura a imunidade das vacinas e segue acompanhando se eventualmente surgem efeitos colaterais não detectados – vale lembrar que, apenas no Brasil, quase 150 milhões de pessoas já tomara a primeira dose, sem grande registro de problemas.

— As vacinas não são experimentais. Olha a quantidade de doses aplicadas no mundo. Não tem nada de teste nisso. Elas foram adequadamente testadas e instituídas. O tempo e a vigilância mostraram que efeitos graves não costumam acontecer. Raramente há algum efeito, assim como qualquer vacina ou remédio — diz a médica Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Contatada pela reportagem, a Anvisa, órgão do Ministério da Saúde ligado ao governo Jair Bolsonaro, informou que “todas as vacinas em uso no Brasil tiveram seus dados de eficácia e segurança avaliados e aprovados pela Anvisa, garantindo o seu uso dentro das indicações aprovadas”.

A agência reguladora acrescenta que todas as marcas concluíram estudo de fase 3 (responsável por investigar se há efeitos colaterais grandes em milhares de pessoas). “Dessa forma”, acrescenta a Anvisa, “as vacinas em uso no Brasil não são experimentais”.  

Argumento 3: “Vacinas são perigosas para crianças e adolescentes”

Reforçada por declarações como a do ministro Marcelo Queiroga, segundo o qual as mães não deveriam levar “suas crianças para a sala de imunização para tomar vacina que não tenha autorização da Anvisa”, a afirmação não tem lastro na realidade.

O receio dos efeitos em adolescentes foi rechaçado por todas as sociedades médicas da área, para quem os estudos, além das milhões de doses aplicadas em diversos países, mostram que a vacina da Pfizer é segura para jovens. O próprio ministro da Saúde admitiu, dias depois, que a suspensão de uso em jovens era pelo receio de falta de doses, em vez de risco.

Não há dados para dizer se as vacinas são seguras ou não para crianças porque faltam pesquisas– a Pfizer é a única farmacêutica que anunciou que seu produto é seguro para os pequenos, o que será averiguado por cientistas independentes e agências reguladoras mundo afora. Receios sobre exigir em demasiado do organismo de jovens não fazem sentido.

— Não existe isso de sobrecarregar o sistema imune. A gente anda o tempo todo em um ambiente sobrecarregado de micro-organismos. O sistema imune das crianças é completamente receptivo a construir novas memórias, tem plasticidade muito grande. Em criança a gente dá quatro vacinas ao mesmo tempo com a polivalente — pontua a imunologista Cristina Bonorino.

Argumento 4: “Vou esperar para ver se a vacina causa efeito tardio em quem já se vacinou”

Imunizantes circulam no organismo por algumas semanas e, em casos mais raros, dois meses, explica a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, doutora em Neurociências e coordenadora da Rede Análise Covid-19.

A partir daí, o que o corpo guarda é apenas a memória, nas células, do encontro com o pedacinho inofensivo do vírus que circulou no corpo. Portanto, o conteúdo das vacinas não fica circulando meses ou anos no organismo, o que invalida o argumento de que seria prudente aguardar “mais tempo” para ver se haverá futuro problema.

— Os componentes da vacina são degradados dias depois. Como a vacina teria um efeito seis meses, um ano, 10 anos depois, se ela nem está mais no corpo? — diz a biomédica.

Ninguém espera anos para investigar o efeito tardio de um remédio ou vacina novo no mercado depois de já terem sido concluídos os estudos clínicos em fase 1, 2 e 3, observa a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai. Se surgisse hoje a cura do câncer, você esperaria para ver se surgiria algum efeito tardio?

— Nenhuma vacina ou produto a gente pergunta o que vai fazer daqui a 20 anos. As vacinas que temos há 20 anos não mostraram nada de diferente do que mostraram inicialmente. A gente já estudou os efeitos que as vacinas contra a covid-19 podem gerar — diz a médica.

Argumento 5: “Vacina mexe no DNA ou RNA”

A frase do presidente Jair Bolsonaro, segundo o qual era necessário cobrar a responsabilização da Pfizer para efeitos adversos no caso de “você virar um chimpan… um jacaré!” ressoa o receio de que vacinas de RNA mensageiro, como a da Pfizer ou da Moderna, alterem o DNA de humanos. A simples menção ao tema é tão absurda que espanta técnicos da área.

As vacinas de RNA inserem uma mensagem, como se fosse uma receita de bolo, para que as células produzam proteínas (ou seja, pedacinhos) encontrados no próprio vírus. Isso estimulará o sistema imunológico a identificar e combater o vírus de verdade quando houver a infecção na vida real.

— O RNA não entra no núcleo da célula, ele entra na célula e fica no citoplasma, a região fora do núcleo, onde será traduzido em proteína. O RNA nem chega a entrar no núcleo, essa ideia nem faz faz sentido, há um impedimento físico. Não há risco de ele entrar no DNA — diz a biomédica e doutora em Neurociências Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19.

Em nota técnica, a Associação Médica Brasileira (AMB), que inclui as entidades de médicos brasileiros da infectologia, pneumologia, intensivista, de família e outras, destaca que “as vacinas salvam vidas, todas elas” e  que “na primeira oportunidade, vacine-se e comemore. A imunização é passaporte para vencer a covid-19”.

— O DNA das nossas células está fechado dentro de um pacotinho, que chamamos de membrana nuclear. Essa membrana não deixa passar material que não pertença a dentro do núcleo. O RNA é uma mensagem que chega na célula para ela fabricar uma coisa e isso não entra em contato com o DNA da pessoa. Existe uma separação física, são duas moléculas diferentes que não se misturam. As pessoas não vão virar jacarés nem nenhum outro réptil — resume a imunologista Cristina Bonorino. 

 
 
 
 
 
 
 
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