Prefeitura pede auxílio para localizar imagens originais de piso reformado na Redenção que faria alusão à suástica - Notícias

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Após polêmica nas redes15/10/2021 | 08h48Atualizada em 15/10/2021 | 08h50

Prefeitura pede auxílio para localizar imagens originais de piso reformado na Redenção que faria alusão à suástica

Especialistas ouvidos por GZH refutam qualquer vínculo entre a pintura e a simbologia do regime nazista

Prefeitura pede auxílio para localizar imagens originais de piso reformado na Redenção que faria alusão à suástica PMPA / Divulgação/Divulgação
Imagem de 1943, em preto e branco, mostra apenas parte do piso que gerou controvérsia Foto: PMPA / Divulgação / Divulgação

Depois de afirmar que o piso de um recanto do Parque Farroupilha, cujos traços e cores lembrariam a suástica do regime nazista, recebeu essa pintura no processo de revitalização de 2020 para recuperar o desenho original, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentaibilidade (Smamus) informou que pediu auxílio para localizar imagens de Porto Alegre que indiquem como era o espaço nos primórdios.

A ajuda para encontrar registros originais da arquitetura do local foi requerida nesta quinta-feira (14) à Secretaria Municipal da Cultura (SMC), que detém acervos sobre a história e o patrimônio da cidade. Em nota, a Smamus ainda disse que, “uma vez identificada qualquer alusão a elementos nazistas, serão estudadas formas de alterar ou remover o desenho. Em documentos antigos, há registro da existência destes detalhes no piso já em 1943”. 

O arquivo citado pela Smamus é uma fotocópia que consta no processo de tombamento do Parque Farroupilha, a Redenção, finalizado em 1997. A imagem disponível mostra uma pequena porção do piso em discussão, em versão preto e branco e baixa qualidade, o que dificulta qualquer conclusão.  

A polêmica instalou-se nesta semana depois de frequentadores do local, próximo ao lago da Redenção, terem postado fotos e protestos em redes sociais sobre possível semelhança dos traços com a suástica, o que seria reforçado pelas cores pintadas em vermelho e preto, usadas à época pelo nazismo.

Para José Francisco Alves, doutor em História da Arte, especialista em patrimônio cultural e frequentador da Redenção, a comparação do desenho com uma suástica nazista é “um exagero”. Ele recorda que o símbolo, originalmente, pertencia ao budismo e, nos tempos da Alemanha de Adolf Hitler, era usada sem modificações estéticas. Ou era do jeito nazista, ou não era, ressalta. Alves considera o fato relevante para a discussão, já que o piso da Redenção tem duas bolas brancas e traços alongados que distorcem o símbolo.

— Esse desenho da Redenção não é uma suástica nazista nem budista. Não é nem parecido. Suástica é uma coisa concreta. Se altera, já não é mais. Há um exagero em querer ver o que não está ali. Assim como a extrema-direita quer ver foice e martelo em qualquer lugar ou vê um lenço vermelho de maragato e já acha que é alusão ao comunismo. Tudo faz parte desse clima que estamos vivendo — avalia Alves. 

O delegado Paulo Jardim, da 1ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, com histórico de investigações de movimentos neonazistas na capital gaúcha, avalia existirem semelhanças, mas refuta a comparação.

— A suástica é um título genérico, abriga vários tipos de significados. No caso em foco, se falarmos genericamente a palavra suástica para a pintura, existe semelhança a alguns dos tipos, mas interpretar como uma suástica nazista, me parece complicado, apesar das cores — avalia Jardim. 

O arquiteto Lucas Volpatto, representante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RS) junto ao Conselho do Patrimônio Histórico Cultural (Compahc), considera precipitado fazer qualquer comparação do desenho com o símbolo nazista. 

— Sem ver o projeto (do restauro), é difícil avaliar. Dizer que o piso faz referência, considero muito forte. E para comprovar que é um restauro do original, teria de ver o projeto. Então, até agora, todo mundo está apenas achando. E, sinceramente, olhando o conjunto, não me parece uma suástica — diz Volpatto.  

Contexto histórico

Embora ainda esteja à procura dos originais, a Smamus menciona registro da existência dos detalhes resgatados no restauro de 2020 em documento de 1943. Naquela época, e nos anos da década anterior, havia forte influência alemã em Porto Alegre e também no Interior. Havia membros e simpatizantes do Partido Nazista que haviam emigrado ao Brasil.

— Porto Alegre foi uma das cidades mais germânicas na virada do século 19 para o século 20. A etnia era fortíssima em tudo: no comércio, na indústria e na cultura _ destaca Alves. 

O delegado Jardim destaca aspectos da vida pública e ativa dos simpatizantes do nazismo no Estado: 

— Na década de 1930, o Partido Nazista existia e desfilava nas ruas de Porto Alegre. Fazia concentração onde fica o campo do Força e Luz (bairro Santa Cecília). 

O contexto da época, marcado pela forte migração alemã, fazia do nazismo algo presente na vida da cidade. Foi também na década de 1930 que o governo brasileiro, liderado pelo presidente Getúlio Vargas, chegou a costurar certa proximidade com o regime alemão. Na Segunda Guerra, o Brasil adotava posição de neutralidade e, somente ao final do conflito, acabou apoiando os Aliados, contrários aos alemães, após ter embarcações abatidas.

O Parque Farroupilha foi inaugurado em 1935, nos festejos do centenário da Revolução Farroupilha. Os Estados brasileiros foram convidados a ter pavilhões na Redenção e, no de Santa Catarina, há registros históricos de uma bandeira com a suástica hasteada. 

Para especialistas, uma preocupação mais premente é o fato de o Parque Farroupilha ter sido integralmente tombado em 1997. Para fazer qualquer intervenção, é necessário ter aprovação de projeto e autorização da Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural (Epahc). A ausência dos originais por parte da prefeitura desde o início da discussão é o que causa maior aflição tanto para Volpatto, arquiteto, quanto para Alves, doutor em História da Arte. 

— O mais sério é saber se isso foi autorizado e aprovado pela Epahc. Será que restauraram em cima de um desenho que não existe? — pondera Alves. 

A reforma

A restauração do piso nesse trecho da Redenção, contíguo ao lago, fez parte de uma reforma mais ampla realizada em 2020. Os serviços foram orçados em R$ 3,3 milhões e os recursos foram aplicados pela Cyrela Sul Empreendimentos Imobiliários, a partir de um termo de conversão em área pública (TCAP) em contrapartida a uma edificação na Rua Cabral. 

Coube à Cyrela contratar a empresa que executou os serviços. Entre as melhorias, constaram a colocação de saibro rosa em cerca de 60 mil metros quadrados de área, nova academia de ginástica, reforma de três recantos infantis, restauro da fonte luminosa e qualificação de outros espaços do parque.

Confira a íntegra da nota da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus)

"Em relação à pintura no piso do Parque Farroupilha (Redenção), a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) informa que os detalhes fazem parte do projeto original. Na última reforma, em fevereiro de 2020, o piso colorido destacou-se.

Considerando que o parque é tombado como patrimônio histórico, cultural, natural e paisagístico de Porto Alegre desde 1997, está sendo solicitado à  Secretaria Municipal de Cultura (SMC) um histórico daquele recanto e, uma vez identificada qualquer alusão a elementos nazistas, serão estudada formas de alterar ou remover o desenho. Em documentos antigos, há registros da existência destes detalhes no piso  já em 1943."

 
 
 
 
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