Em mais de mil fotos, moradoras do Morro da Cruz registram a limpeza de lixão e mostram o resultado em exposição - Notícias

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Na Capital13/11/2021 | 05h00Atualizada em 13/11/2021 | 05h00

Em mais de mil fotos, moradoras do Morro da Cruz registram a limpeza de lixão e mostram o resultado em exposição

Dupla registrou o trabalho de garis para revitalizarem espaço, que deve ser transformado em praça; cliques renderam exposição

Cerca de 30 dias de coleta, 20 trabalhadores envolvidos e 17 toneladas de resíduos retiradas. Esse é o balanço da mobilização que ocorreu entre maio e junho, no Beco das Paula, no Morro da Cruz, zona leste da Capital, para limpar um espaço tomado pelo lixo.

Dos detritos espalhados pela terra à limpeza quase completa, o processo foi registrado em fotos, tiradas pelas moradoras Letícia Garcia Cardoso, 33 anos, e Sheron Morais de Aguirre, 23 anos. Letícia é uma das proprietárias de uma lancheria no Morro da Cruz, e Sheron, funcionária no local. 

Como equipamentos, elas utilizaram o celular de Letícia e um outro, fornecido pelo Coletivo Autônomo Morro da Cruz, ONG parceira da iniciativa. Uma exposição das imagens ocorreu no sábado passado (6), integrando o calendário oficial dos 250 anos de Porto Alegre. A mostra foi apresentada durante o evento Conexão Morro da Cruz, promovido pela ONG, junto a ações de saúde, de educação e de qualificação profissional.

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Momento bom

Foi ao ver uma criança brincando em meio aos resíduos que Sheron decidiu começar a fotografar o espaço, localizado entre as ruas Nove de Junho e São Guilherme. Mas o gosto pela fotografia vem desde os 14 anos, motivada por atividades oferecidas pelo coletivo, do qual participa até hoje. Como ela relata, percebendo a preocupação dos moradores, a ONG se mobilizou e conseguiu ajuda do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) para limpeza da área. O objetivo? Uma futura praça para as crianças brincarem.

— Eu pensei: "Como é que eu não vou fotografar um momento que vai ser bom para nós e para as crianças?". Querendo ou não, as crianças não têm onde se deslocar para poder brincar — conta a moradora, que é mãe de dois meninos.

Diferentemente dela, Letícia, que tem duas filhas, foi descobrir o interesse e a habilidade em fotografia por acaso, em meio à mobilização. Quando Sheron não podia fotografar a limpeza, Letícia a substituía. Vendo seu trabalho ser bem recebido pela ONG, decidiu participar com mais frequência. Juntas, as duas moradoras tiraram cerca de 1.200 fotos, capturadas ao longo de todo o processo.

— A partir do momento que os garis começavam o trabalho, nós já entrávamos junto com eles. Aí, a gente ia acompanhando do começo até o fim — explica Letícia.

A (in)visibilidade do gari

O nome da exposição, A (in)visibilidade do gari, foi escolhido por meio do coletivo, esclarecem as moradoras fotógrafas. Elas ressaltam que, sem os garis, a limpeza demoraria muito mais tempo para terminar. Segundo o DMLU, novas mostras das fotos devem ocorrer, mas ainda sem previsão de data.

PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - Letícia Garcia Cardoso (MÁSCARA BRANCA, CABELO VERMELHO) e Sheron Morais de Aguirre decidiram capturar a transformação de um espaço tomado pelo lixo, onde a expectativa é de que seja construída uma praça. Para registrar o processo, elas acompanharam a rotina de trabalhadores da coleta no local e fotografaram com celulares. Foto Jefferson Botega / Agencia RBSIndexador: Jeff Botega<!-- NICAID(14937216) -->
Tendo o celular como equipamento, Sheron e Letícia tiraram cerca de 1.200 fotosFoto: Jefferson Botega / Agencia RBS

O trabalho exposto foi bem recebido tanto pela comunidade quanto pelas pessoas de fora do Morro da Cruz que viram as fotos, comenta Letícia. Sheron afirma que ficou surpresa com a repercussão e com o reconhecimento pela ONG, pelo DMLU e pelos vizinhos: 

— Querendo ou não, é um lugar onde a gente mora, é um lugar onde todo mundo tem que se unir.

Próximo passo: praça

A curadoria e a impressão das fotografias expostas — 18 foram selecionadas — ficaram a cargo do DMLU, que comandou a limpeza por intermédio de um de seus setores. Como explica o diretor-geral do órgão, Paulo Marques, o recolhimento do lixo foi feito manualmente: os caminhões não conseguiam chegar ao local, que tem acesso estreito e íngreme. Os garis subiram e desceram diversas vezes, levando os detritos.

A participação da população na conscientização e na fiscalização foi destacada por Marques. Com a coleta do lixo, foi possível recuperar um córrego que havia no local. Segundo o diretor-geral, há cerca de 70 anos, aquela água ajudava a abastecer as casas no entorno.

— É preciso que as outras pessoas entendam o que aconteceu ali, porque o resultado é extremamente positivo, houve uma revitalização do lugar — pontua.

De acordo com as moradoras, com a retirada da maior parte do lixo feita, os próximos passos incluem recolher o restante dos dejetos, que apareceram devido à chuva, e começar a organizar a construção de uma praça. Ao final, elas pretendem fazer uma exposição mostrando todo o processo: dos primeiros movimentos para se evitar o acúmulo de lixo naquele espaço à praça pronta para receber as crianças.

Produção: Isadora Garcia

 
 
 
 
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