Letícia Mendes: "O privilégio da despedida" - Notícias

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Direto da Redação17/11/2021 | 09h00Atualizada em 17/11/2021 | 09h00

Letícia Mendes: "O privilégio da despedida"

Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano

Letícia Mendes: "O privilégio da despedida" Agência RBS / Agência RBS/Agência RBS
Direto da Redação Foto: Agência RBS / Agência RBS / Agência RBS
Leticia Mendes

Quando nasci, meu pai tinha 64 anos. Talvez, por isso, aprendi a me despedir desde cedo. A cada aniversário, Natal, ou a data que fosse, escrevia longos cartões enfeitados. Relembrava o quanto o amava e como era importante na minha vida. Agradecia por ter me ensinado a devorar os livros e amar as palavras. Desejava tê-lo por perto ainda por muitos anos, embora, no fundo, previsse que eles passariam depressa demais. Lembro dele dizendo que "a baixinha", como me chamava, escrevia como adulta.  

Mesmo sabendo que teria que me despedir dele um dia, quando esse momento se concretizou, não foi simples. Creio que nunca é. Ainda assim, agradeço por ter tido tempo. Nem todos têm. Nesses anos de jornalismo policial, ouvi tantos relatos de perdas repentinas. De pais, mães, filhos que não tiveram tempo de se despedir. Que não puderam dizer mais uma vez o quanto aqueles que amavam eram essenciais em suas vidas.  

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Amizade

Um dos casos que mais me marcou neste ano foi o da jovem Cristiane, morta aos 20 anos, enquanto aguardava numa parada de ônibus aqui em Porto Alegre. Alvejada com um tiro no peito durante um assalto, não pode voltar para casa para cuidar da mãe. A Cristiane, me contou o tio dela, queria ser jornalista. Trabalhava para juntar o dinheiro da faculdade, que sonhava voltar a cursar. Poderia, quem sabe, daqui uns anos virar minha colega. Mas ela, infelizmente, não teve tempo.  

É por isso que, apesar de as despedidas serem duras, agradeço por ter tempo para elas. Seja para quem se vai para sempre ou quem só passa a viver longe de nós. Nesta semana, me despedi de uma das pessoas mais essenciais na minha vida. Uma amiga que está indo morar em outro Estado. Desbravando sonhos. Saber que quem nos faz tão bem não estará por perto, ao menos fisicamente, deixa o coração apertado. Mas poder dizer o quanto as pessoas que amamos são especiais e inspiradoras é um privilégio da vida, que temos que aproveitar. Obrigada por tudo, minha amiga. Até breve. 


 
 
 
 
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