Misto de ferro-velho e antiquário no bairro Rio Branco quer virar museu: "Tenho muita história para mostrar", diz dono - Notícias

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Na boca do Moinhos18/01/2022 | 08h32Atualizada em 18/01/2022 | 08h33

Misto de ferro-velho e antiquário no bairro Rio Branco quer virar museu: "Tenho muita história para mostrar", diz dono

Apelidado de "Beto Antigo", empreendedor de 77 anos não abre mão do acervo mesmo enfrentando dificuldades na pandemia

Misto de ferro-velho e antiquário no bairro Rio Branco quer virar museu: "Tenho muita história para mostrar", diz dono Lauro Alves / Agencia RBS/Agencia RBS
Foto: Lauro Alves / Agencia RBS / Agencia RBS

Portões enferrujados e banheiras antigas cercam o terreno cheio de história da esquina das Ruas Dona Laura e Miguel Tostes, no bairro Rio Branco, em Porto Alegre. A entrada é vigiada por uma estátua de Poseidon, divindade grega dos mares, com pouco mais de um metro de altura, ao lado de um poste de luz centenário de design norte-americano — como os que a prefeitura restaura no Centro Histórico. A única conexão possível entre tantos itens de diferentes épocas e culturas é o dono do antiquário desde 1978, Roberto Ernani Gomes da Silva, o Beto Antigo, 77 anos.

O local é ponto de comércio de ferro-velho e antiguidades, mas o movimento diminuiu consideravelmente nos últimos três anos, segundo o relato de Roberto. Enquanto o fluxo de negócios caiu, a dificuldade para manter o empreendimento sem a ajuda da esposa, falecida em 2019, aumentou. Até existiram propostas de construtoras tentando comprar o imóvel, mas não boas o suficiente, na avaliação do proprietário.

— Isso aqui é terapêutico para mim, mas tenho vergonha de seguir aqui, um ponto nobre da cidade. Não consigo mais pagar o aluguel, estou desesperado para encontrar um novo lugar. Fizeram ofertas para este terreno, mas sempre boas só para eles. Com o tamanho do acervo que tenho, preciso trocar este terreno por um espaço equivalente, para que eu consiga organizar tudo. Porque é muita coisa — comenta Beto Antigo.

Ele diz que busca apoio do governo municipal ou estadual para fazer parceria em algum galpão ou imóvel abandonado na Capital. Sua ideia é criar um museu onde ele possa reunir e contar as histórias colecionadas por ele, além de ministrar oficinas artísticas para ensinar o que sabe sobre arte e ferro. Caso não consiga isso na Região Metropolitana, mira o polo turístico da Serra para projetar seu complexo artístico. No entanto, o vínculo sentimental com o 4º Distrito, que vem desde a infância, na década de 1940, o faz manter a esperança de voltar a ocupar um espaço naquela região em desenvolvimento da Capital.

— Desde antes dos dois anos de idade acompanhava meu pai, Antônio, em atividade naqueles bairros. Ele tinha uma gráfica, fez muito santinho para o Brizola, ajudou a elegê-lo como governador do Estado em 1958 — relembra, mostrando os documentos que sustentam sua fala com datas e assinaturas da época.

Segundo sua memória, o atual acervo é composto por mais de 50 lambretas, cerca de 30 carros das décadas de 1930 a 1980, 20 geladeiras da mesma época, dezenas de câmeras fotográficas analógicas, uma centena de bicicletas de todos os tipos - incluindo um modelo velocípede, de tração na imensa roda frontal amparada por uma menor na traseira, feita por ele ainda na década de 1970 - e um sem fim de outros objetos acumulados ao longo dos anos. 

Suas fontes de renda mais recentes eram o serviço de frete e o de demolição de imóveis, de onde ele também obtinha alguma matéria-prima para suas invenções. Tirando os automóveis maiores, que estão estacionados em galpão na antiga empresa da família na Avenida Ramiro Barcelos, boa parte do acervo fica na esquina da Rua Dona Laura com a Miguel Tostes.

Um passeio pela história

Por volta das 9h30min da manhã de segunda-feira (17), a temperatura já passava dos 30ºC. Beto Antigo e o ajudante Luiz Carlos, 64, dispensavam camisas e lugares na sombra enquanto organizavam bicicletas em andaimes onde também reluziam geladeiras e motos. Alheio ao efeito do sol na pele e dos anos de trabalho nos músculos retesados, o pensamento do colecionador alternava entre décadas e objetos do acervo com rapidez e precisão que surpreendem.

— Estou sozinho, meu único filho não me ajuda. Só me falta quem mexa no celular por mim, porque tenho muita história para mostrar e itens raros para negociar — complementa.

No meio de uma história, lembrava de outra. Quando já chegava ao tempo da pandemia e dos respectivos lamentos financeiros, encontrou uma porta na memória. Datada de 1961 e com um brasão de 16,5 quilos de bronze, pesado pelo próprio Beto, a antiga entrada do clube Casa de Portugal, transferido em 2016 da Avenida João Pessoa para a Bento Gonçalves, é uma das raridades da sua coleção desde 2019. Segundo ele e a própria escritura na peça, o pórtico foi oferecido ao clube por autoridades de um município português em 1961.

— Paguei uma fortuna no ferro-velho que encontrei na Voluntários. Mas também, quando que ia achar isso abandonado assim? — exclama.

 
 
 
 
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