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PAPO RETO 12/03/2022 | 05h00Atualizada em 13/03/2022 | 11h16

Manoel Soares e o Nego Bira

Colunista escreve para o Diário Gaúcho aos sábados 

Manoel Soares e o Nego Bira Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal / Manoel Soares/Arquivo Pessoal / Manoel Soares
Manoel conheceu Nego Bira na Praça da Alfândega Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal / Manoel Soares / Arquivo Pessoal / Manoel Soares

Em 2004, eu estava na Praça da Alfândega, sentado próximo às estátuas de Mario Quintana e Erico Verissimo. Lembro que, nessa época, eu estava com um sério problema de grana. Atravessei a praça e encontrei um negão de dreads fazendo artesanato naquelas bancas que já são tradição por ali. Nunca tinha visto ele, mas, como estava à flor da pele, no meio da conversa contei que a falta de dinheiro estava me enlouquecendo. Ele me disse a frase que hoje guia muitas das decisões que tomo na vida. Em uma pausa, ele olhou no meu olho e disse: “O dinheiro só resolve 50% dos problemas”. Confesso que, na hora, achei isso uma babaquice, eu ali maluco porque não tinha dinheiro e ele dando aquele papo. Mas, depois de um tempo, eu comecei a pensar quais problemas poderia resolver mesmo sem ter nada no bolso. 

Logo de cara eu vi que acordava às 9h30min da manhã, o que já me deixava em desvantagem na hora de buscar algo para complementar a renda. Depois, eu vi que não tinha o hábito de anotar o telefone das pessoas que diziam que poderiam me ajudar com uma oportunidade. Não tinha o hábito de cuidar a roupa na hora de ir para uma entrevista de trabalho e jamais prestei atenção no que estava escrito nas roupas que eu usava no trabalho. Quando comecei a observar, vi que tinha uma camiseta que eu amava e estava escrito Serial Killer que, em inglês, quer dizer matador em série.

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Quem em sã consciência confiaria em uma pessoa que anda com uma camiseta em diz que mata pessoas? Isso são só alguns exemplos de problemas que eu tinha e que nada tinham a ver com grana. Fora isso, eu tinha comportamentos inapropriados e desequilibrados em muitas situações. Essas posturas me afastavam de pessoas que poderiam ser minhas amigas e parceiras. Quando comecei a resolver os problemas que não dependeriam de dinheiro, naturalmente o dinheiro começou a chegar. Em pouco tempo, meu trabalho na RBS firmou e comecei a ganhar mais visibilidade. Em algum tempo, acabei na Globo. 

Até hoje, sou amigo do negão de dreads na Praça da Alfândega. O nome dele ali é Nego Bira, faz dreads e ajuda pessoas. Sempre que vou a Porto Alegre vou lá dar um abraço nele. As palavras dele mudaram minha vida quando colocadas em prática. Às vezes, damos ao dinheiro mais atenção do que ele merece de fato. Antes de reclamar porque o dinheiro não está em nosso bolso, temos que tentar entender porque ele não está. Temos sempre responsabilidade parcial no fato de não sermos escolhidos como a pessoa que vai pegar aquele trampo ou ganhar aquela oportunidade esperada, e temos que entender que parcela de respostas é essa. Quem puder, passe lá e dê um abraço no Bira por mim.

 
 
 
 
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