Um casal, ambos com 35 anos, em um relacionamento que parece um cenário com apenas uma mesa e duas cadeiras. Não há mais ninguém em cena, e o que resta aos dois é o diálogo.
Essa é a proposta de Cara a Tapa, texto do gaúcho Tarcísio Lara Puiati, uma das peças vencedoras do Concurso Nacional de Dramaturgia – Prêmio Carlos Carvalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, em 2006. Para estimular a encenação de um dos 21 textos laureados no concurso desde 1988, foi criado o Prêmio Auxílio-Montagem.
No projeto vencedor, da vai!ciadeteatro (que estreou em 2011 e esteve em cartaz em nova temporada em junho), a peça de Puiati é ambientada em uma praia. Outros personagens, além do casal, aparecem em cena, presentificando figuras que são apenas evocadas no texto. É uma perspectiva ousada que subverte a proposta econômica, meio beckettiana, do original.
Cara a Tapa é sobre um casal às voltas com aventuras – verdadeiras ou imaginadas? – que preenchem o tédio e sublimam as angústias: o flerte do homem com outra, o aparecimento de um morto, uma arma que é subitamente apontada para alguém. São as fantasias que parecem alimentar o amor (ou a ilusão de amor) entre os dois.
A montagem da vai!ciadeteatro, com direção de João Pedro Madureira, é criativa em sua desobediência positiva ao texto, inventando convenções inusitadas, como os atores que deslizam pelo palco em cima de pequenas caixas de areia. É mais uma prova de que a nova dramaturgia é material farto para grupos em busca de aventura.

