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30 anos depois

VÍDEO: Deise Nunes relembra título de Miss Brasil em 1986 e dá dicas para quem sonha com a coroa

Ela foi a única negra a levar o título, disputado desde 1954

14/05/2016 - 12h28min

Atualizada em: 14/05/2016 - 12h29min


Elana Mazon
Elana Mazon
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Há quase 30 anos, no dia 17 de maio de 1986, a gaúcha Deise Nunes era coroada Miss Brasil, aos 18 anos. Pela primeira vez na história do concurso, uma negra levava o título, disputado desde 1954. Feito que, até hoje, nunca mais se repetiu, de acordo com a organização do concurso.

Foi em sua escola de modelos, fundada há quase cinco anos, no Centro de Porto Alegre, que Deise Nunes, hoje com 48 anos, recebeu Retratos da Fama. Cabelo, maquiagem, roupas: tudo impecável, como era de se esperar de uma eterna miss. Em pouquíssimos minutos de conversa, ela mostrou que um ditado popular não poderia ser mais verdadeiro: quem já foi rainha nunca perde a majestade!

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Bênção do destino

Porto-alegrense que cresceu no Bairro Petrópolis, Deise começou a trabalhar como modelo aos 14 anos. Sua maior incentivadora – e responsável pela sua inscrição no Miss Rio Grande do Sul, aos 18 anos, representando a cidade de Canela – foi a mãe, Ana Maria.

– Eu nem sonhava. Quando soube, já tinha sido selecionada para uma seletiva em São Paulo – conta Deise.

Santa vizinhança!
Na época, o concurso nacional e as etapas estaduais do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais eram promovidas pelo SBT, dentro da programação da emissora. Depois de ser eleita representante do Estado com o voto de todos os jurados, a miss saiu em uma longa viagem de ônibus pelo Brasil, cumprindo sua agenda de modelo.

– Quando cheguei em Fortaleza, no fim de abril, minha mãe resolveu ligar para a nossa vizinha. Não tínhamos telefone na época, então, o contato que deixamos no SBT foi o dela. Ao atender, a vizinha disse: “Graças a Deus que tu ligou! O SBT entrou em contato e disse que a Deise tem que estar no dia 30 de abril em São Paulo para o concurso de Miss Brasil”.

Dona Ana Maria precisou comprar passagens de avião para que a filha pudesse voltar a Porto Alegre, arrumar as malas e chegar a São Paulo na data certa. Mas valeu a pena!

Entrou para a história
De 30 de abril a 17 de maio de 1986, Deise enfrentou uma rotina intensa, em São Paulo, junto a outras 26 candidatas do Miss Brasil. Às 8h, quando saíam do hotel, todas deveriam estar arrumadas, maquiadas e vestidas adequadamente para os compromissos do dia, que incluíam ensaios exaustivos, visitas a autoridades, entrevistas e provas do concurso. A todo momento, elas estavam sendo avaliadas.

Vida de modelo ajudou
Os quatro anos de experiência nas passarelas foram um diferencial para o sucesso da gaúcha.

– Existia pouca diferença entre passarela de moda e passarela de miss. A moda era mais glamourosa, no sentido de ter mais giros e paradas durante o desfile. Minha experiência me ajudou muito, me deu segurança – relembra.

Trinta anos depois, a lembrança do momento em que foi anunciada Miss Brasil ainda é vívida:

– Primeiro, foi um choque. Eu sabia que tinha ganho mas não tinha ideia do que significava, o quão importante aquilo era para mim, para a minha raça. Depois, o pensamento foi: “Graças a Deus, acabou”. Era um alívio, eu só queria descansar – lembra, aos risos.

Experiência lá fora
O primeiro compromisso como Miss Brasil foi logo no dia seguinte. Deise posou para um ensaio que foi publicado na capa da revista Manchete, e começou a organizar sua ida para o Miss Sudamérica, concurso que hoje não existe mais. Ela, que nunca havia saído do país, passou 15 dias na Venezuela, sozinha, sem saber falar espanhol.

– Chorei duas noites, e cheguei a pensar em voltar. Até que fui liberada para ver um jogo da Seleção Brasileira (da copa de 1986). Tive um tempo para pensar e resolvi que, ao invés de desistir, ia aprender o idioma – relembra.

De lá, ela seguiu para o Panamá, onde passou mais um mês intenso, até disputar o Miss Universo, no dia 21 de julho do mesmo ano, quando ficou em sexto lugar.

"Gostaria de ver outra Miss Brasil negra"
Na volta ao Brasil, Deise já tinha uma agenda a ser cumprida e sequer esteve em Porto Alegre. Ficou em São Paulo, onde morou até dezembro:

– Passei a viajar todos os finais de semana. Os dias em casa, eu usava para os trabalhos como modelo. Foi um ano muito produtivo. Joguei algumas sementes e consegui germinar coisas boas. Até hoje, sou chamada para ser jurada em concursos de beleza, para apresentar eventos. É muito bacana ainda ser reconhecida.

Joia rara
Desde então, um assunto é recorrente: ser a única negra a receber a coroa.

– Sempre me perguntam se tive algum tipo de problema por ser negra. Nunca sofri preconceito por isso. É claro que as pessoas estranhavam, pois eu representava o Rio Grande do Sul. Imaginavam que aqui não tinha negros – conta Deise, que opina sobre as razões para que tenha havido, até hoje, outra miss negra na história do concurso:

– É difícil cumprir todas as exigências. Ir para um concurso de miss não é nem um pouco simples. Concorrer exige preparação. Hoje, muitas meninas fazem aulas de passarela, etiqueta, oratória, cirurgias, procedimentos estéticos. Tudo isso exige dinheiro, o que pode ser um fator. Eu gostaria muito de ver outra Miss Brasil negra. Espero que não demore, já faz muito tempo que fui eleita.

Família

Em dezembro de 1986, Deise foi morar no Rio de Janeiro. Depois de entregar a faixa de Miss Brasil, em 1987, a vida de modelo continuou.

Foram quase três anos de desfiles, publicidade, viagens, participações em programas de televisão, como Os Trapalhões, Programa do Chacrinha e no seriado Tarcísio e Glória. Em 1989, decidiu voltar para Porto Alegre:

– Aos 21 anos, eu achava que já tinha feito muitas coisas, e que já era o momento de sossegar. Resolvi casar.

O sortudo é Lair Antônio Ferst, hoje com 58 anos, com quem Deise ainda é casada e tem dois filhos: Pedro, 24 anos, e Julia, 21. Parecidíssima com a mãe, a caçula até já se arriscou na passarela.

– Ela faz alguns desfiles, mas nunca levou a carreira a sério – conta Deise.

Referência
O mundo da moda e os concursos de beleza nunca ficaram para trás. Entre os anos 1990 e os anos 2000, Deise foi apresentadora de alguns programas de tevê e nunca deixou de ser consultada por candidatas aos mais variados concursos.

Até que, há cinco anos, isso virou trabalho sério: ela abriu a Deise Nunes Escola de Modelos, onde dá cursos para quem quer entrar no mundo das passarelas e, é claro, orienta candidatas a miss do Brasil inteiro.

À prova do tempo
Além de cuidar de outras beldades, Deise não esquece de si. Segundo ela, ainda existe cobrança pela sua aparência:

– Para algumas pessoas, miss não envelhece. Mas o tempo passa para todo mundo. Eu me cuido, gosto de estar bem.

Com alimentação saudável, exercícios e cuidados com a pele, mantém uma vida equilibrada:

– Na época do Miss, não havia preocupação com sol, com nada. E tive que engordar antes do concurso, pois eu era muito magrinha.

Elas vem aí!
Missólogo e estudioso do mundo das misses há mais de 30 anos, Evandro Hazzy considera Deise Nunes uma referência. Para ele, o momento de o Brasil ter outra representante negra está próximo:

– Observo um crescimento no número de candidatas negras nos concursos e a quantidade de negras que se sobressaem no mundo artístico é cada vez maior.

Celeiro de misses
O Rio Grande do Sul é estado com o maior número de vencedoras do concurso nacional: 13 misses. Ou 15, contando Yolanda Pereira, que venceu em 1930, antes de a competição tornar-se oficial, e Joseane Oliveira, de 2002, que perdeu a faixa por ser casada.


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