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O Outro Lado do Paraíso28/10/2017 | 12h00Atualizada em 28/10/2017 | 12h00

Primeira atriz com nanismo a ter  papel de destaque em novelas, Juliana Caldas comemora: "Felicidade e gratidão"

Estela, da trama das nove, sofre preconceito dentro de casa através da mãe, Sophia (Marieta Severo)

Primeira atriz com nanismo a ter  papel de destaque em novelas, Juliana Caldas comemora: "Felicidade e gratidão" Raquel Cunha/TV Globo/Divulgação
Aos 30 anos, atriz abre veredas nas novelas Foto: Raquel Cunha / TV Globo/Divulgação

Personagens com nanismo não são novidade na teledramaturgia brasileira. Mas, infelizmente, apareciam em papéis cômicos, como alvos de chacota ou como ajudantes de palco em programas infantis. 

A própria Juliana Caldas, 30 anos, de São Paulo, bem antes de estrelar uma novela no horário nobre, como a Estela de O Outro Lado do Paraíso, se dedicava a animar as crianças no extinto parque Mundo da Xuxa, na capital paulista. Determinada a deixar pra trás o estigma que pessoas com nanismo carregam, pronta para vencer o preconceito e quebrar barreiras, ela foi em frente em busca do sonho: ser respeitada como atriz. 

Em entrevista a Retratos da Fama, Juliana revela as dificuldades no início da sua carreira (ela já tem cinco peças no currículo) e a emoção de integrar um elenco repleto de atores consagrados. Na trama das nove, ela comemora um feito inédito como a primeira atriz com nanismo a ter um papel de destaque e um drama próprio em novelas.

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Abordagem inédita
A novela O Outro Lado do Paraíso mal estreou e já levantou algumas bandeiras importantes. Por mais polêmicos que sejam, alguns assuntos podem e devem ser discutidos no horário nobre. 

Assim como sua antecessora, A Força do Querer, que, com Gloria Perez, abordou as questões de gênero, Walcyr Carrasco se preocupa em manter a diversidade e a representatividade de minorias – até então, com pouco ou nenhum espaço na teledramaturgia.

A nova trama apresenta ao público Juliana Caldas, a primeira atriz com nanismo a ter um papel de destaque e um drama próprio em novelas brasileiras. Doutor em Teledramaturgia, Mauro Alencar ressalta a importância da personagem:

– Há que se louvar a seriedade com que o tema será, pela primeira vez, tratado. Isso só atesta o valor social de nossa telenovela, em particular a produzida pela TV Globo a partir de 1970.

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Sophia (E) não aceita a filhaFoto: Raquel Cunha / TV Globo / Divulgação

Duro questionamento
Pioneiro ao mostrar cenas antes consideradas tabus _ como foi o beijo gay de Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) em Amor à Vida (2013) _ Walcyr Carrasco aposta em uma temática que pode ser chocante para o público. Em O Outro Lado do Paraíso, Sophia (Marieta Severo) maltrata a filha caçula, Estela, se recusa a fazer as adaptações necessárias na casa e chega a se referir à moça como "monstrengo" e "aberração".

Por mais doloroso que seja assistir às sequências da dupla, vale como reflexão. Afinal, o que é "normal"? A própria Estela, em conversa com a empregada da casa, Rosalinda (Vera Mancini), questiona isso. 

– Se todos no mundo fossem anões, minha mãe seria o quê? Gigante?

estela, juliana caldas, o outro lado do paraíso
Desabafo com Rosalinda (Vera Mancini)Foto: TV Globo / Reprodução

"Só tenho dentro de mim gratidão"


O mundo artístico é bem complicado, ainda mais para quem não se enquadra nos "padrões". Como foi pra você enfrentar o preconceito e seguir a carreira de atriz?
Sim, é complicado pra quem não se enquadra nos padrões. O meu início mesmo não foi complicado, mas, pra eu conseguir chegar a ter credibilidade no trabalho, demorou um pouco. Eu comecei num parque infantil fazendo um duende. Então, a maioria dos meus trabalhos foi pro lado infantil, até mesmo animação de festa, bonecos, fantasias pra fazer animação, essa parte foi mais difícil. Pelo menos pra mim, que amo fazer teatro, amo atuar, eu fazia (animação de festas), mas não era o que eu queria, porque eu queria buscar algo fora da área infantil, só que era o que aparecia. Então, eu, precisando trabalhar, fazia. O que é difícil mesmo é trabalhar em algo na publicidade. A parte do teatro infantil, por acabar sendo uma ilusão, tá ok. Fica fácil arrumar trabalho, mas, se você for trabalhar em outra área como eu cheguei a fazer alguns trabalhos de inclusão social como modelo, isso é um espanto ainda, mesmo nos dias de hoje. Mas é aquela coisa. A gente não pode desistir, e eu hoje acredito que consegui o que eu sempre quis: sair da área infantil.

Pois é, como você mesmo falou, deve ser difícil fugir dos estereótipos criados em torno do nanismo, né? Aquela coisa do humor, da piada. Como fugir da comédia e se mostrar como uma atriz sem rótulos?Olha, eu particularmente, não aceitava (alguns tipos de trabalho). Podia ficar sem receber algum dinheiro, sem ter contato profissional, era o risco, mas eu arriscava. Eu deixei de aceitar muitas coisas por causa disso, porque esse não era o meu plano profissional. Não discrimino, não julgo quem aceita, quem faz. Cada um sabe o que escolhe e onde pisa, só que eu, realmente, não aceitava. Muitos até me julgavam: "Ai, mas você quer coisa demais, tá escolhendo demais". Eu falava: "Não, gente, eu só não quero fazer esse tipo de trabalho, não é o meu foco, se eu ficar sem trabalhar, ok, eu me viro depois". E me virava. Se fosse o caso de ter que voltar a trabalhar em algo fixo, registrado, eu não tinha problema nenhum com isso. É uma questão de a pessoa saber o que quer, eu não quero isso, eu não vou fazer isso e pronto.

As pessoas com deficiência se sentem pouco representadas na televisão. Na maioria das vezes, são atores e atrizes sem deficiência que interpretam esse tipo de papel, como foi o caso de Alinne Moraes com a tetraplégica Luciana de Viver a Vida (2009). Chegou a hora de virar esse jogo e mostrar que há espaço para todos, sejam cegos, deficientes físicos, pessoas com síndrome de Down?
Eu acho que esse jogo já começou a ser virado há um bom tempinho. Referente a essa questão de usarem atores pra interpretarem pessoas com deficiência, é uma questão do autor, do diretor, enfim... Mas acredito que esse espaço já está sendo utilizado, mesmo se for com atores que não têm nenhum tipo de deficiência. Mas o assunto já é algo de muita conquista, porque você falar sobre deficiência já mostra coisas que o povo não vê. Então, se tem a oportunidade de falar sobre o assunto, sobre a deficiência, independentemente de quem faça, o que a gente espera é que seja feito com muito bom gosto e com muito respeito. Pensando nessa linha de pessoas que fizeram personagens com deficiência, fizeram muito bem e passaram o que é necessário, a mensagem referente à deficiência. Eu acredito que já tem espaço para esse tipo de assunto em todos os veículos de comunicação. E, do jeito que está sendo falado, é muito bom.

E agora, na estreia na tevê, como está segurando a emoção de contracenar com feras, como Marieta Severo (que faz a sua mãe, Sophia), em uma novela do Walcyr, ainda mais no horário nobre?
O que passa na minha cabeça, o que eu tô sentindo no momento é gratidão. Eu só tenho dentro de mim, no momento, gratidão. Não tem o que dizer, é felicidade e gratidão.

Tem medo da aceitação do público? Está preparada para as críticas ou comentários ofensivos que possam surgir?
Engraçado, porque isso acontece no dia a dia. Comentários ofensivos acontecem todo dia quando a gente passeia pela rua. Não só comentários... Olhadas, risadas, isso já acontece. Por isso, pode ser que eu já esteja preparada. Não é das minhas maiores preocupações. É muito clichê pensar nisso. Se não aceitarem, não gostarem, é a opinião do público, cada um tem a sua. Tô aberta a ler tudo isso, a receber tudo isso, sendo bom ou ruim, a gente vai trabalhando aos poucos.

��Manas Ativar �� . . . Nossas caras vendo o episódio de hoje.... "-A cara de feliz da Mamãe" (��.��) . "-Tá feliz mesmo mãe? " #Estelaestachegando

Uma publicação compartilhada por Juliana Caldas Oficial �� (@juzinha.caldas) em

Saiba mais
/// Nanismo é considerado uma deficiência desde 2004, segundo um decreto do Governo Federal. Enquadram-se aqui as pessoas que possuem estatura abaixo de 1,40m (mulheres) e 1,45m (homens). 

/// Segundo a geneticista Temis Maria Félix, do Serviço de Genética Médica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, o tipo mais comum de nanismo é a acondroplasia, caracterizada por membros curtos, tronco normal e cabeça frequentemente aumentada. 

/// Acondroplasia ocorre em cerca de 1 a cada 20 mil nascimentos. É considerada doença rara e não existe tratamento, segundo a médica.

 

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