Após reportagem de GaúchaZH, alunos que estudavam pelo celular ganham notebooks de leitores  - Entretenimento

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Repercussão e solidariedade30/06/2020 | 09h24Atualizada em 30/06/2020 | 09h24

Após reportagem de GaúchaZH, alunos que estudavam pelo celular ganham notebooks de leitores 

Duas famílias do bairro Bom Jesus têm agora computador para acompanhar atividades escolares 

Após reportagem de GaúchaZH, alunos que estudavam pelo celular ganham notebooks de leitores  Lauro Alves/Agencia RBS
Empresário Gerson Leonini entrega um notebook a Ângela Senedi da Silva, que vinha acompanhando os conteúdos escolares pelo celular Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Enquanto sobe a escada para chegar à rua, Ângela Senedi da Silva, 17 anos, carrega na mão direita o inseparável telefone celular. Desde 18 de março, quando as aulas presenciais deixaram de ser ministradas no Rio Grande do Sul em razão da pandemia de coronavírus, a estudante do terceiro ano do Ensino Médio tem no smartphone o único instrumento para consulta aos trabalhos escolares.

Ao alcançar o topo dos degraus, na manhã desta segunda-feira (29), a adolescente viu essa realidade mudar: o empresário Gerson Leonini, 59 anos, a aguardava com um notebook na caixa, presente para a moradora do bairro Bom Jesus, na Capital. A doação foi motivada após reportagem de GaúchaZH contar as dificuldades que os alunos da escola pública enfrentam para estudar remotamente no Estado.

A primeira reação, de abraçar o homem que levou o computador até a comunidade da zona leste, foi contida.

— Eu queria te abraçar, mas não posso. Espero que com o meu sorriso tu entenda o quanto estou feliz. Vai melhorar mil vezes o meu estudo — disse a jovem, que até hoje tinha de copiar do pequeno visor do celular os conteúdos para o caderno.

São os olhos que entregam o sorriso de Leonini, escondido pela máscara. Profissional da área de comunicação, criador de um site especializado em informática, o homem se sensibilizou quando ouviu uma entrevista de Ângela à Rádio Gaúcha. Ao vivo, a menina mostrou as folhas rabiscadas que, depois de preenchidas, eram fotografadas e enviadas para os professores do Instituto Estadual Rio Branco. O empresário compara o caso da aluna de rede pública com o que vivencia na sua casa. A esposa leciona em uma instituição particular. 

— Quando saí, minha esposa estava dando aula pelo sistema da escola, com todos os alunos online. A diferença é muito grande — avalia. 

Com otimismo, o autor da boa ação sugere que outras empresas gaúchas entrem na corrente de solidariedade, encaminhando aos alunos mais necessitados máquinas que entram em desuso, uma vez que ainda não há perspectiva de as aulas presenciais serem retomadas de forma integral na rede pública.  

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 29/06/2020- Angela Senedi da Silva, Estudante que copiava trabalhos do celular ganha notebook de empresário, após reportagem Foto: Lauro Alves / Agencia RBS<!-- NICAID(14533287) -->
Ângela já configurou o laptop, que também deve ser utilizado pela mãe na preparação para o EnemFoto: Lauro Alves / Agencia RBS

Instalado sobre a mesa da sala, o laptop foi rapidamente configurado pela estudante. O brilho da tela deixava ainda mais claro o seu largo sorriso. A primeira página aberta foi a do Google Classroom, plataforma adotada pela Secretaria Estadual da Educação (Seduc) como padrão para envio e recebimento de atividades. 

O computador entregue vai possibilitar ainda a retomada dos estudos da mãe de Ângela, a auxiliar de serviços gerais Luanda Senedi da Silva, 37 anos. Cumprindo aviso prévio e sem condições de adquirir o eletrônico, ela deixou de lado o curso técnico em redes de informática. 

— O curso seguiu pela internet, mas parei. Agora vou voltar, muita gratidão a essa alma bondosa — exaltou. 

Luanda está escrita no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 – ainda sem data definida pelo governo federal –, concurso o qual realizará ao lado da filha. Ao se despedir da reportagem, mostrou-se mais confiante para alcançar uma bolsa de estudos: 

— Vocês voltarão aqui pra falar que nós duas passamos — afirma, convicta. 

Primeiro computador da família

Também no bairro Bom Jesus, outra família foi surpreendida pela mesma iniciativa: os quatro filhos do pintor Paulo Ricardo Insaurrald Umpierre terão o primeiro computador de suas vidas. Desempregado após o último decreto do Executivo impedir o trabalho na construção civil, o homem de 51 anos cria sozinho Leonardo, Glauciane, Paola e Hueslley. Aos 16 anos, mais velho do quarteto, Hueslley já sabe o curso que buscará na faculdade: 

— Vou fazer Direito, quero ser juiz. 

Ao saber da doação, o pai disse ter apenas um questionamento: queria saber o nome da pessoa que se dispôs a ajudar a família em dificuldade. 

— De coração, muito obrigado. Eles estão muito faceiros, queria poder encontrar esse homem para agradecer — repetiu, entre os gritos dos três adolescentes e do mais jovem, de nove anos. 

Os filhos do autônomo estudam na Escola Estadual Antão de Faria e são considerados ótimos alunos pela professora Tatiane Henrique Campos Alentórn, 39 anos, orientadora educacional há uma década na instituição. O grupo é um dos tantos da comunidade beneficiados por ranchos entregues na porta do colégio – sem merenda, muitas crianças perderam suas refeições, segundo a direção da escola. 

O computador portátil não foi entregue diretamente pelo benfeitor da ação devido a pandemia de coronavírus. Ruben Horbach, 75 anos, não sai do apartamento “para nada”, como contou. No saguão do condomínio em que vive, no bairro Mon’t Serrat, o geólogo exibe orgulhoso o companheiro de viagens da época em que rodava o mundo em compromissos profissionais. O notebook com inúmeras conexões deixou de ser usado quando o idoso se aposentou. Ao saber o destino que teria seu antigo instrumento de trabalho, o fiel leitor de Zero Hora não conteve a alegria. 

— Fico muito contente, satisfeito de poder ser útil ainda nessa idade — brinca, ao relembrar da vida ativa que teve quando jovem. 

Na última semana, o aposentado descreveu, por e-mail, o seu desejo: "Sei que a minha atitude é insignificante diante das carências das crianças menos favorecidas frequentadoras do ensino público, mas tenho aqui um ótimo notebook o qual pode ajudá-las" sugeriu, ao oferecer o equipamento. 

— Temos aqui no Estado tantas fábricas de computadores. Por que elas não criam uma campanha para doar para essas crianças? — idealiza, ao refletir que a ação multiplicaria o número de estudantes em condições de acompanhar o ensino a distância durante a pandemia. 

 
 
 
 
 
 
 
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