Dos machões aos companheiros: a evolução dos mocinhos de novela nas últimas décadas - Entretenimento

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Novos tempos04/07/2020 | 10h00Atualizada em 04/07/2020 | 10h00

Dos machões aos companheiros: a evolução dos mocinhos de novela nas últimas décadas

Com o empoderamento feminino, personagens masculinos ganharam outro viés no século 21

Não se fazem mais mocinhos de novela como antigamente. Ainda bem. A sociedade evoluiu nas últimas décadas, portanto, é natural que a ficção acompanhe as mudanças da realidade. Basta um breve esforço para puxar pela memória os personagens masculinos dos quais você se lembra. Até as décadas de 1980 e 1990, era comum, para não dizer normal, que os protagonistas traíssem suas amadas, as tratassem como propriedade e estivessem bem longe de serem príncipes encantados. Tanto que, ao assistir a reprises de algumas tramas, atitudes, diálogos e cenas podem até chocar o telespectador do século 21.

Aproveitando a possibilidade de rever novelas como Tieta (1989) e Explode Coração (1995), disponíveis no Globoplay, é impossível não perceber a transformação dos mocinhos ao longo do tempo. Eles não são mais indispensáveis na trajetória das protagonistas, e a equação "declaração de amor + noivado + casamento + filhos = felizes para sempre" tem muitas variáveis. O final solo de Luz (Marina Ruy Barbosa), em O Sétimo Guardião (2018), pode deixar de ser exceção e virar regra em folhetins futuros. 

Com base nessas reflexões, Retratos da Fama conversa com o especialista em teledramaturgia Nilson Xavier e com a psicóloga e colunista do DG Andréa Alves, que analisam as mudanças na personalidade dos homens tanto na ficção quanto na vida real. Confira ainda alguns tipos de mocinhos que povoam as novelas e ilustram a evolução do comportamento masculino nos últimos anos.

O MACHÃO

Zeca (Marco Pigossi), em A Força de um Querer.
Zeca (Marco Pigossi), em "A Força de um Querer" (2017)Foto: João Miguel Júnior / TV Globo/Divulgação

Irritado, ciumento e sem paciência para os dilemas femininos, este tipo já foi mais comum na telinha. Porém, felizmente está em extinção (ao menos na ficção). Alega que suas “explosões” e barracos são consequência de um amor enorme, argumento que, muitas vezes, acaba derretendo o coração das mocinhas. Mas não por muito tempo. Geralmente, a protagonista deixa o machão a ver navios no final da história.

Haja Coração , Tancinha (Mariana Ximenes) e Apolo (Malvino Salvador)
Malvino Salvador, em Haja Coração (2016)Foto: Ramón Vasconcelos / TV Globo/Divulgação

Na teledramaturgia, a transição dos machistas para homens mais compreensivos foi lenta e gradual. Segundo o especialista em dramaturgia Nilson Xavier, autor do Almanaque da Telenovela Brasileira (editora Panda Books, preço médio R$ 56), a ficção funciona como um espelho da realidade:

– A telenovela sempre se pautou pela sociedade. Ao refleti-la, avançou e retrocedeu com ela. Isso é visível justamente nos perfis dos personagens, seus comportamentos e atitudes, embasados no que o público espera. Porém, é preciso lembrar: para o bem e para o mal.


É UMA CILADA, BINO

Novela O Dono do Mundo, exibida em 1991 na Globo, começa a ser reprisada no Viva. Na foto: Antônio Fagundes (Felipe Barreto) e Malu Mader (Márcia)
Felipe Barreto (Antonio Fagundes), em O Dono do Mundo (1991)Foto: TV Globo / Divulgação

Sedutor, dono de um charme irresistível, ele sabe exatamente o que dizer para deixar uma mulher apaixonada. Porém, depois que a “vítima” cai em sua teia, ele deixa a máscara cair e mostra sua verdadeira face: que não é nada agradável. As mocinhas que caem na lábia desse tipo de malandro passam por maus bocados. 

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Alex (Rodrigo Lombardi), "Verdades Secretas" (2015)Foto: Felipe Monteiro / TV Globo/Divulgação

A psicóloga Andréa Alves, colunista do DG, ressalta que as mulheres do século 21 não admitem mais certos tipos de comportamento.

— Começou a surgir uma mulher mais empoderada, cuja satisfação não era só cuidar dos filhos e da casa. 

Andréa argumenta que as mulheres de 20 ou 30 anos atrás ainda se deixavam dominar por um modelo patriarcal e machista.

— Até os anos 80 e 90, os homens ainda tinham essa questão de serem os chefes da família, essa questão financeira ainda era muito forte. Lidar com a criação e educação dos filhos ainda fazia parte das lidas domésticas femininas. 


O DON JUAN

Ator Marcello Novaes como Raí, seu personagem na novela Quatro Por Quatro (1994),#PÁGINA:20 Fonte: Divulgação Fotógrafo: Extra
Raí (Marcello Novaes), de "Quatro por Quatro" (1994)Foto: Ver Descrição / Ver Descrição

Ele abre a porta do carro, manda flores, fala palavras bonitas e diz que encontrou a mulher de sua vida. Lindo, pena que ele faz isso com todas. Ou, pelo menos, já usou a mesma tática com muitas desavisadas. Quem garante que com a mocinha, depois de encontrar o verdadeiro amor, tudo vai ser diferente?


O IDEALIZADO

Lívia (Alinne Moraes) e Felipe (Rafael Cardoso)
Felipe (Rafael Cardoso), em "Além do Tempo" (2015)Foto: Globo / Divulgação

Bonito, inteligente, trabalhador e educado: esse cara é ele. Sim, ele é perfeito, o amor da vida da mocinha, futuro pai de seus filhos. Mas é justamente por ser tão maravilhoso, que o caminho até o final feliz é ainda mais árduo. Podem se passar anos e muito sofrimento até o reencontro. 

Terra Nostra
Matteo (Thiago Lacerda), em "Terra Nostra" (1999)Foto: Divulgação / TV Globo/Divulgação

Pode ser que o final feliz não aconteça nesta vida, só na próxima encarnação. Ou, até o momento tão esperado, lágrimas e mais lágrimas serão derramadas até aquele momento tão especial. Não importa, esse é amor pra valer. Parece coisa de novela. E é.


O COMPANHEIRO

Cap 10 - Cena 9 - Dom Sabino ( Edson Celulari ), Marocas ( Juliana Paiva ), Dona Augustina ( Rosi Campos ), Nico ( Raphaela Alvitos ) e Kiki ( Nathalia Rodrigues )
Samuca (Nicolas Prattes), de "O Tempo Não Para" (2018)Foto: João Miguel Júnior / TV Globo/Divulgação

Mais do que um par romântico, uma dupla imbatível e inseparável. Um homem justo, íntegro e que persegue os mesmos ideais de sua amada, levando a sério a promessa de ficarem juntos "na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza". 

Caminho das ÍndiasJuliana Paes, como Maya e Rodrigo Lombardi como Raj
Raj (Rodrigo Lombardi), de "Caminho das Índias" (2009)Foto: Renato Rocha Miranda / TV Globo/Divulgação

O altruísmo e a generosidade são algumas das marcas do “mocinho ideal” das novelas atuais, de acordo com Nilson:

— Um personagem preocupado com o coletivo, com o futuro da Terra e da Humanidade, mais justo, empático e ciente de seus direitos e deveres, que não se deixa abater pelas adversidades, que ajuda a construir um mundo melhor e mais humano, visando o outro, não apenas a si. O ideal seria um final do tipo "E estão felizes" no lugar do "E foi feliz para sempre".


O TRANSFORMADO

07.08.2000 - DivulgaÁão / Novela O Cravo e a Rosa -  Eduardo Moscovis. Fonte: AG Fotógrafo: Não se Aplica
Petruchio (Eduardo Moscovis), "O Cravo e a Rosa" (2000)Foto: Ver Descrição / Ver Descrição

Eles são a prova viva de que um grande amor pode modificar as pessoas. Se, em um passado não muito distante foram rudes, egoístas e conquistadores inveterados, tudo virou do avesso ao encontrarem suas amadas. 

Marcos (Romulo Estrela) em Bom Sucesso
Marcos (Romulo Estrela), em "Bom Sucesso" (2019)Foto: João Cotta / TV Globo/Divulgação

Se os homens mudam, seja na ficção ou na vida real, isso se deve muito ao fato de que as mulheres sabem se impor, são donas de seus desejos e não admitem mais certas atitudes.

— Hoje a gente vê o homem receber mais críticas. Se ele tiver uma atitude muito machista, a mulher vai dizer que ele está sendo babaca. Tu vês as jovens batalhando por um espaço importante, de respeito, trazendo à tona isso com força, com outros valores — diz Andréa.


O HERÓI

deus salve o rei, Amália e Afonso
Afonso (Romulo Estrela), de "Deus Salve o Rei" (2018)Foto: Sergio Zalis / TV Globo/Divulgação

Quando a amada está em apuros, ele aparece em seu cavalo, pronto para defendê-la. Mais comum em novelas de época, esses mocinhos são valentes, destemidos e sem defeitos. Elas, frágeis e indefesas, suspiram e se deixam resgatar com todo o prazer.


O (QUASE) INVISÍVEL

Remy (Vladimir Brichta)
Beto Falcão (Emilio Dantas), em "Segundo Sol" (2018)Foto: TV Globo / Divulgação

Reflexo dos tempos modernos, as mulheres estão cada vez mais independentes e donas de si. O amor não é mais a única prioridade, apenas uma consequência que, se vier, tem que ser daquele jeito que não estrague tanta autossuficiência. Por isso, os protagonistas masculinos são, muitas vezes, relegados a coadjuvantes. Elas podem brilhar sozinhas, sem que precisem de um braço forte para defendê-las. Eles estão lá, prontos para um carinho, palavras de amor e cenas românticas. Mas em tempos de empoderamento feminino, os galãs quase somem diante da força delas.

Amadeu ( Marcos Palmeira ) e Maria Da Paz ( Juliana Paes ), a dona do pedaço
Amadeu (Marcos Palmeira), em "A Dona do Pedaço" (2019)Foto: João Miguel Junior / TV Globo/Divulgação

Para Nilson Xavier, este movimento o pode levar até a desfechos em que a mocinha não necessite mais de um parceiro para ser "feliz para sempre".

– Anseio por isso. Mas já notamos um movimento dos autores de novelas que parecem mais cientes dessa realidade.


 
 
 
 
 
 
 
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