"Falas Negras": especial com direção de Lázaro Ramos traz depoimentos sobre a luta racial  - Entretenimento

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Dia da Consciência Negra20/11/2020 | 09h04Atualizada em 20/11/2020 | 09h04

"Falas Negras": especial com direção de Lázaro Ramos traz depoimentos sobre a luta racial 

Programa que vai ao ar nesta sexta-feira (20) foi criado e roteirizado por Manuela Dias, autora de "Amor de Mãe"

"Falas Negras": especial com direção de Lázaro Ramos traz depoimentos sobre a luta racial  VICTOR POLLAK/TV Globo/Divulgação
Martin Luther King Jr. (Guilherme Silva) é um dos depoimentos de "Falas Negras" Foto: VICTOR POLLAK / TV Globo/Divulgação

São histórias de luta e resistência que ultrapassam barreiras geográficas e temporais. No Dia da Consciência Negra, celebrado nesta sexta-feira (20), a memória de traumas e conquistas do passado e a esperança por tempos mais igualitários conduzem o especial Falas Negras, que vai ao ar na RBS TV, às 23h. O projeto criado e roteirizado por Manuela Dias, autora da novela Amor de Mãe, tem direção de Lázaro Ramos.

Falas Negras é um microfone aberto para a história da luta negra por liberdade e igualdade social. São palavras ditas desde 1600 até junho de 2020, com os protestos motivados pelo caso do americano George Floyd. É tudo tão forte que nada mais é preciso. A simplicidade é o melhor veículo para algo que é tão grandioso e potente — diz Manuela, em entrevista por e-mail a GZH.

Para retratar mais de quatro séculos, o programa da Globo reúne depoimentos reais de 22 pessoas que lutaram contra o racismo, interpretadas por atores. A história começa a ser revisitada a partir dos relatos coloniais da rainha africana Nzinga Mbandi e do escravo Mahommah Baquaqua, passa pela militância de ativistas americanos como Martin Luther King Jr, Malcolm X e Angela Davis e destaca personalidades que aliaram a projeção em seus trabalhos ao combate — entre eles, a cantora Nina Simone, o escritor James Baldwin e o boxeador Muhammad Ali.

Entras as presenças brasileiras, estão nomes  conhecidos como o geógrafo Milton Santos e a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, e pessoas que se tornaram públicas com suas dores compartilhadas em rede nacional: Mirtes Souza, mãe do menino Miguel, que morreu após cair de um prédio em Recife (PE), e Neilton Pinto, pai do garoto João Pedro, assassinado por policiais em São Gonçalo (RJ).

— O mais impactante é ver como as falas se repetem há 400 anos. A maior dificuldade de digerir esses depoimentos é ver como no mundo atual, a cada esquina, todos os dias, a desigualdade segue criando vítimas, assassinando corpos negros. Estamos diante do espelho da realidade absolutamente injusta que vivemos — diz Manuela, que se inspirou em documentários como Human, de Yann Arthus-Bertrand, e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, para organizar o projeto.

Para realizar Falas Negras, a Globo adotou um sistema híbrido de produção. Os 10 dias de ensaios foram coordenados de forma remota por Lázaro, que também contou com aulas sobre a trajetória dos personagens ministradas pela antropóloga Aline Maia, consultora do especial. 

— Sempre me identifiquei muito com o Martin Luther King, porque já tinha vivido ele no teatro, mas o James Baldwin e o Milton Santos também me comovem por suas tentativas de criar narrativas para o mundo. O especial deu a chance de me aprofundar neles, ver os erros e acertos dessas histórias e planejarmos o nosso futuro — diz Lázaro. 

Depois dos ensaios, os atores gravaram os depoimentos nos Estúdios Globo, seguindo um rigoroso protocolo de segurança sanitária. 

— Muitos atores, mesmo sendo muito experientes, chegaram nervosos e emocionados, porque estavam se dando conta do momento histórico que é a realização do Falas Negras e que eles tinham que ter energia para dar o seu melhor ali — aponta o diretor.

Falas Negras, Taís Araujo como Marielle Franco<!-- NICAID(14647577) -->
Taís Araújo vive Marielle Franco no especialFoto: VICTOR POLLAK / TV Globo/Divulgação

Parceria

O especial da Globo marca o primeiro projeto em parceria de Manuela Dias e Lázaro Ramos. Nascidos em Salvador, na Bahia, a escritora e o ator se conhecem desde a adolescência. 

— Manuela é apaixonada por tudo aquilo que faz e isto foi alimento para mim. Quando tinha dúvidas, ela me estimulava, foi muito parceira, assim como todo o elenco, que teve muita identificação com o processo — conta Lázaro.

Manuela acredita que o verdadeiro produto é o processo em si. Em Amor de Mãe, por exemplo, quase metade do elenco é formado por atores negros e a representatividade é um dos assuntos mais quentes da trama, que retorna ao ar em março de 2021. Em Falas Negras, a dramaturga sentiu que o envolvimento com os relatos alterou sua vida. Destaca que sua preocupação é acordar todos os dias para “mudar o mundo através da ferramenta que tem em mãos, que é contar histórias”: 

— Mudar o mundo é no miudinho, é no dia a dia, é questionar nossos hábitos. Sei que é apenas uma pedrinha para a construção desse novo mundo, mas também pode ser um pedacinho de lama a menos no caminho para um mundo melhor e mais igualitário.

Confira o perfil dos personagens:

Nzinga Mbandi (Heloisa Jorge) – A rainha do Reino do Dongo e Matamba nasceu na Angola, viveu entre 1583 a 1663, e simboliza a resistência africana à colonização e a comercialização de escravos. Foi uma rainha combatente, destemida e chefiou pessoalmente o exército até os 73 anos.

Olaudah Equiano (Fabrício Boliveira) – O escritor nigeriano, que viveu entre 1745 e 1797, foi sequestrado, escravizado e negociado por comerciantes locais quando tinha 11 anos. Foi enviado através do Atlântico para Barbados e depois para a Virgínia. Por lá, foi vendido a um oficial da Marinha Real, com quem viajou pelos oceanos por cerca de oito anos, período em que aprendeu a ler e escrever. Conseguiu comprar a própria liberdade e, em Londres, envolveu-se no movimento para abolir a escravidão. Em 1789, lançou sua autobiografia, um dos primeiros livros publicados por um escritor negro africano.

Toussaint Louverture (Izak Dahora) – O líder da Revolução do Haiti viveu entre 1743 e 1803, foi escravizado até os 30 anos e ainda assim aprendeu a ler e a escrever. Ao ganhar a alforria, em São Domingos (atual Haiti), liderou o levante que conduziu os africanos escravizados a uma vitória sobre os colonizadores franceses e aboliu a escravidão no local. Capturado e preso em 1802, deixou o Haiti sob o comando de Jean-Jacques Dessalines, que venceu a revolução e, em 1804, proclamou a independência de São Domingos.

Harriet Tubman (Olivia Araujo) - Ex-escravizada, tem data de nascimento imprecisa, tida como 1820 ou 22, e viveu até 1913. Ela se alistou como cozinheira e enfermeira durante a Guerra Civil Americana para espionar e captar informações, e ali ajudou na fuga de centenas de escravizados dos territórios dominados das fazendas do sul dos Estados Unidos rumo ao norte do país, onde não havia escravidão, e ao Canadá.

Mahommah G. Baquaqua (Reinaldo Junior) - Ex-escravizado, nasceu na África Ocidental, atual Benin, viveu entre 1820 e 1857 e veio em um navio negreiro que aportou em Pernambuco. Mas o trabalho em um navio mercante, que o levou para Nova York, mudou sua vida completamente. Naquela época, os estados do norte dos Estados Unidos já tinham abolido a escravidão, e Baquaqua conseguiu fugir. Em Detroit, publicou sua biografia, que é um dos poucos registros da época contados nas palavras de um negro escravizado no Brasil, e que descreve em detalhes os hediondos castigos cometidos contra os escravizados no país.

Virgínia Leone Bicudo (Aline Deluna) - Socióloga e primeira mulher psicanalista brasileira, nasceu em São Paulo e viveu entre 1910 e 2003. Co-fundadora da Sociedade Brasileira de Psicanálise, é uma das responsáveis por importantes publicações na área.

Luiz Gama (Flavio Bauraqui) - Importante líder abolicionista, jornalista e poeta brasileiro, nasceu em Salvador e viveu entre 1830 e 1882. Filho de um descendente de portugueses com uma escravizada liberta, a revolucionária Luiza Mahin, foi vendido pelo próprio pai, depois que sua mãe foi exilada por motivos políticos. Autodidata, tornou-se um dos advogados abolicionistas mais atuantes do país, responsável pela libertação de centenas de negros mantidos no cativeiro.

Rosa Parks (Barbara Reis) - Ativista dos direitos civis, nasceu nos Estados Unidos e viveu entre 1913 a 2005. Atuava no Montgomery, capital do Estado de Alabama, no Sul dos Estados Unidos, centro dos maiores conflitos raciais do país. É tida como a “mãe do moderno movimento dos direitos civis” nos Estados Unidos.

Nelson Mandela (Bukassa Kabengele) - Advogado, presidente da África do Sul, viveu entre 1918 e 2013. Mandela liderou o movimento contra o Apartheid — legislação que segregava os negros no país. Condenado em 1964 à prisão perpetua, foi libertado em 1990, depois de grande pressão internacional. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em dezembro de 1993, pela sua luta contra o regime de segregação racial.

James Baldwin (Angelo Flavio) - Escritor, dramaturgo, poeta e crítico social, nasceu nos Estados Unidos e viveu entre 1924 e 1987. Na escola, seu talento para a escrita foi notado desde cedo e foi estimulado por professores. Em Paris, escreveu o livro semiautobiográfico Go Tell it on the Mountain, publicado em 1953 e considerado pela revista Time, em 2005, um dos cem melhores romances de língua inglesa do século 20.

Malcolm X (Samuel Melo) – Ativista de direitos civis, nasceu nos Estados Unidos, viveu entre 1925 e 1965. Por influência dos irmãos aderiu ao islamismo. Por conta de sua inteligência, oratória, personalidade forte, logo arrebatou multidões. Com o tempo, seus discursos ficaram cada vez mais concorridos e inflamados. Assim como sua popularidade cresceu, aumentou sua rejeição e fez inimizades que o levaram a ser assassinado.

Milton Santos (Aílton Graça) - Geógrafo, jornalista, advogado e professor universitário, nasceu em São Paulo, e viveu entre 1926 e 2001. É reconhecido mundialmente como um dos maiores geógrafos brasileiros e, em 1994, foi consagrado com o Prêmio Vautrin Lud (algo como o prêmio Nobel da Geografia) e tem mais de 40 livros publicados em sete línguas.

Martin Luther King (Guilherme Silva) - Pastor batista e ativista político, nasceu nos Estados Unidos e viveu entre 1929 e 1968. Dentro do movimento negro, lutava pela igualdade civil entre negros e brancos e tinha como estratégia de luta o método da não-violência e a pregação de amor ao próximo, inspiradas nas ideias cristãs.

Nina Simone (Ivy Souza) - Cantora, compositora e ativista pelos direitos civis, nasceu nos Estados Unidos e viveu entre 1933 e 2003. Usava suas canções para expressar sua revolta com os conflitos raciais que testemunhou desde a infância no Sul dos EUA.

Lélia Gonzalez (Mariana Nunes) - Historiadora, antropóloga e professora, nasceu em Belo Horizonte e viveu entre 1935 e 1994. Intelectual que dedicou parte de seu trabalho a analisar os efeitos da nefasta combinação entre racismo e sexismo na situação das mulheres negras, além de discutir a linguagem e criar as noções de amefricanidade e pretuguês.

Muhammad Ali (Babu Santana) - Maior pugilista da história, eleito "O Desportista do Século", nasceu nos Estados Unidos e viveu entre 1942 e 2016. Ali nasceu Cassius Clay e a vitória no pugilismo veio junto com sua conversão ao islã e a mudança de nome. Ele passaria então a se chamar Muhammad Ali. Convocado, recusou-se a ir à guerra do Vietnã e desafiou o governo americano. A atitude rendeu a cassação de seu título de pesos pesados e o deixou por três anos longe dos ringues até que a Suprema Corte decidisse a seu favor.

Angela Davis (Naruna Costa) - Filósofa e ativista, nasceu em 1944 nos Estados Unidos. Ainda adolescente, organizou grupos de estudo inter-raciais, que acabaram perseguidos e proibidos pela polícia. Foi perseguida por sua associação com o partido comunista americano e com os Panteras Negras, condenada e presa sem provas. Depois da prisão, tornou-se uma influente professora de história e passou a militar contra o sistema carcerário americano.

Luiza Bairros (Valdineia Soriano) - Administradora e cientista Social, nasceu em Porto Alegre e viveu entre 1953 e 2016. Foi um dos nomes mais atuantes do Movimento Negro Unificado (MNU), a principal organização da comunidade negra do país na segunda metade do século 20, também ficou marcada por sua trajetória política. Foi secretária de Promoção da Igualdade Racial da Bahia entre 2007 e 2011 e ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil, entre 2011 e 2014.

Marielle Franco (Taís Araujo) - Vereadora, socióloga, ativista de direitos humanos, nasceu no Rio de Janeiro, no Complexo da Maré, e viveu entre 1979 e 2018. Eleita vereadora em 2016, presidiu a Comissão de Defesa da Mulheres e foi executada em 14 de março de 2018. Sua morte virou um marco e motivou protestos por todo o mundo. Até hoje o caso não foi desvendado. A vereadora defendia as causas das mulheres, negros, LGBTs e da periferia.

Mirtes Souza (Tatiana Tiburcio) – Mãe do menino Miguel Otávio, que morreu após cair de um prédio de luxo no Recife.

Neilton Matos Pinto (Silvio Guindane) – Pai do adolescente João Pedro Matos Pinto, assassinado na favela do Salgueiro, em São Gonçalo.

Jovem protesto George Floyd (Tulanih Pereira) – Atriz interpreta um misto de depoimentos de manifestantes à época do trágico episódio que culminou com a morte de George Floyd, dando início a uma onda de protestos em várias partes do mundo.

 
 
 
 
 
 
 
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